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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

“A poesia é a arte de resistir ao tempo.”

 

“Sinto-me uma obra dos outros no sentido em que sou construído pela ternura, pela confiança, pela esperança dos outros.” (José Tolentino Mendonça)

 

     Conheço este poeta há algum tempo e, desde que comecei a ler a sua poesia, senti que nela havia algo de diferente. Uma poesia de cariz humano, refletindo sobre as angústias do homem, mas de um modo positivo e optimista. Nos seus poemas há uma síntese de vários poetas do século XX, começando pelo inevitável Pessoa, mas também a procura persistente da palavra exacta como Eugénio de Andrade, ou uma espécie de saudosismo à Teixeira de Pascoaes e ainda uma tenacidade perante a vida e os valores cristãos mais relevantes na linha de Ruy Belo. Rigorosa e sintética será então a sua poesia. Ou nas suas palavras: a poesia é a arte de resistir ao tempo.

      Quem é afinal este poeta pensador que o Papa quis como pregador para fazer o seu retiro quaresmal? Nascido na Madeira, em 1965, entrou para o Seminário aos 11 anos, por vocação: “A questão vocacional colocou-se muito cedo. Era uma questão relevante para mim desde miúdo”.Aos 16 anos escreveu o seu primeiro poema, A Infância de Herberto Hélder, poeta com quem partilhava a naturalidade madeirense e que admirava profundamente. “Aos 16 anos não sabia nada. Só sabia que amava o Herberto Hélder”, disse numa entrevista ao Público (11.12.2012).

     Em 1990 foi ordenado sacerdote e publicou o seu primeiro livro de poesia: Os Dias Contados. Foi então para Roma estudar Ciências Bíblicas completando o seu percurso académico na Universidade Católica de Lisboa com o Doutoramento em Teologia Bíblica. È professor de teologia e atualmente Vice-Reitor da Universidade Católica. É também consultor do Conselho Pontifício da Cultura, desde 2011. Como biblista afirmou: “A Bíblia é um grande poema. Tem uma dimensão literária. Isso também lhe dá uma grande carga revelatória. Torna-a um livro intemporal. A Bíblia não é um catecismo. Não acho que se deva entender literalmente a Bíblia. A Bíblia precisa de interpretação.” (Público)

     Afinal este escritor é Padre ou Poeta? É um HOMEM de cultura integrado no seu tempo e com uma mensagem inovadora em termos da Igreja. Como disse Francisco José Viegas, “O discurso dele é inovador para muita gente que não é católica, nem sequer cristã”. E, afinal, o que pregou ao Papa? Na primeira meditação citou Fernando pessoa e Lev Tolstoi para dizer que devemos aprender a desaprender; na segunda citou Clarice Lispector e Simone Weil sublinhando a importância de ter presentes os poetas no estudo da teologia. No último dia o Papa agradeceu as suas intervenções dizendo:

“Obrigado, padre, por nos falar da Igreja, este pequeno rebanho. E também por nos ter avisado para não nos encolhermos no nosso mundanismo burocrático e também por nos lembrar que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito também voa e trabalha fora dela, Com as citações e com as coisas que nos contou, mostrou-nos como ele [o Espírito Santo] trabalha nos não crentes, nos pagãos e em pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o Espírito de Deus, e é para todos.”

     A sua obra tem sido distinguida com vários prémios, entre eles o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998), o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE (2016). Contudo o melhor prémio é sem dúvida a unanimidade da crítica e os milhares de leitores da obra deste Padre que é também professor, poeta e ensaísta.

 

Texto publicado no jornal "A Guarda"  de 29.03.2018

Vergílio Ferreira - Jornal "A Guarda" (25.02.2016)

A memória das palavras

 

Vergílio Ferreira II – “Aparição”

 

“Sento-me nesta sala vazia e relembro.” Assim começa e acaba a narrativa circular desse romance marcante na obra de Vergílio Ferreira: a Aparição. É, para mim, o seu romance mais atrativo e mais perfeito na meditação sobre o ser humano. Outros há mais expressivos de toda a sua escrita. Uma das temáticas gratas ao autor é o simbolismo que imprime à presença da música. Releio:
“Oiço o Nocturno nº 20, de Chopin e recordo-te, Cristina, na tua mágica aparição: tocavas Chopin esforçando-te por chegar aos pedais do piano, mas isso não perturbava a tua fantástica personagem. “Toca, Cristina; Cristina, toca”. Assim se resume foneticamente a tua aparição em Aparição. E vemos-te na tua ingenuidade de 7 anos, madura na tua interpretação, presságio do teu destino trágico. E o simbolismo do teu nome: a sua relação com Cristo. Daí o Nocturno. (E de ver assim presente a uma inocência o mundo do prodígio e da grandeza, de ver que uma criança era bastante para erguer o mundo nas mãos. cap. III) E cais tragicamente numa curva da estrada, regressando do carnaval no Redondo. Porquê? Para expiar os pecados dos outros? Para seres uma revelação do eu inocente e pleno na tua perfeição da música? Porque afinal a música era a tua motivação para existires. Por isso continuavas a tocar depois de morta nas dobras do lençol. E assim cumpriste a tua missão: apareceste, tocaste a tua música e deslumbraste!
E depois surges tu, Sofia! Irmã na vida e na música. Mas, Sofia, tu não tocavas! Pois não, cantavas: tinhas uma voz de contralto deslumbrante (Porque o canto não era nela senão o anúncio de que estava viva, de que estava presente na terra. cap. III) e cantavas maravilhosamente bem. Eras a sabedoria rebelde. Eras a demonstração de que o eu se assumia em plenitude. Eras o milagre da vida exposto perante o cantar da Beira Baixa, nascido da terra, do fundo dos tempos, de uma memória de origens. (Era um cantar da Beira Baixa, escuro, antiquíssimo ou com um sabor a isso, ali, na grande noite lunar. cap. XXIII) E assim prenuncias a tua trágica morte, necessária para explicar a grandeza e o milagre da vida.
Por fim, a completar o trio da perfeição feminina, discretamente, apareces tu, Ana. Onde está a tua música? A tua harmonia está na harmonia das palavras. Tu pensas, Ana! Tu tens a ousadia de enfrentar o profeta e mostrar que a mensagem pode ser lida noutro sentido. Mas primeiro fazes o caminho da busca, procuras a resposta nas palavras evangélicas de Alberto! E descobres a fragilidade das palavras que o Carolino conta na sua experiência de as mastigar. Afinal, as palavras podem harmonizar-se desde que a harmonia venha do interior. Daí teres, Ana, a irregularidade de um dente: és humana, não fora essa irregularidade, serias perfeita. Tu descobres, na grandeza da tua irmã Cristina, na estranha cumplicidade, a maravilhosa realização da vida. E és, assim, a síntese da feminilidade, a realização do milagre da vida, não no sentido daquilo que o Alberto pregava, mas na realização de uma missão que assumiste como tua: ser mãe!”


      De referir que este trio de personagens femininas completam aquilo que poderíamos considerar um desmembramento de uma personagem só: o eterno feminino. Na inocência de Cristina, na rebeldia de Sofia e na inquietação de Ana, temos representadas três facetas do mundo da mulher. A criança, a adolescente e a mulher que quer ser mãe completam-se. Isto tudo se passa no espaço da planície, da horizontalidade que é Évora. No outro espaço da obra, a Beira, onde domina a montanha e a presença da Lua é constante, temos o trio masculino constituído pelo narrador, Alberto Soares, e seus irmãos Evaristo e Tomás. Se o Evaristo não tem um simbolismo relevante na economia da narrativa, já Alberto e Tomás têm bastante peso. (Mas isso levar-nos-ia longe e pode ficar para outra reflexão.)
O milagre da vida, o absurdo da morte, o facto extraordinário de estar vivo, são os temas base deste magnífico romance vergiliano que nos leva pelos percursos interiores da descoberta de nós próprios, na linha do existencialismo europeu do pós-guerra. O autor atrai-nos para esta introspeção, recorrendo a uma bela prosa poética. A obra é de 1959 e valeu ao autor o seu primeiro prémio literário, em 1960, da Sociedade Portuguesa de Escritores. Outros viriam posteriormente.
Termino relembrando que, no próximo dia 1 de Março, passam vinte anos sobre a morte de Vergílio Ferreira.

José Manuel Monteiro

[Texto publicado na edição de hoje do jornal A Guarda]

Vergílio Ferreira - "A Guarda" (28.01.2016)

A memória das palavras


Vergílio Ferreira


Celebram-se hoje, exactamente, os 100 anos do nascimento de Vergílio Ferreira. Escritor maior da literatura portuguesa será recordado enquanto houver um ser humano pensante neste planeta Terra e enquanto houver um português também ele pensante. Não se gosta facilmente da obra vergiliana pois ela obriga a pensar e este acto, como lembrava o poeta, “incomoda como andar à chuva.” Em Vergílio Ferreira não podemos apenas ler, temos de entrar na escrita e aí o escritor arrasta-nos consigo para o mundo do pensamento. Viver é, pois, pensar. Ele próprio não era de fácil convivência com os seus semelhantes, cultivava um pouco o distanciamento para assim criticar livremente os actos sociais. Testemunhos desta crítica são os vários volumes do seu diário: “Conta-corrente” (9 volumes) e as obras “Pensar” e “Escrever”. Nas suas páginas encontramos amiúde desabafos sobre o que se passa no país e qual o seu ponto de vista acerca de determinados temas recorrentes na sociedade em que vivia. Relevantes nesta linha são também os seus livros de ensaios ou de reflexões como “O espaço do invisível”.
Podemos afirmar que em Vergílio Ferreira há duas seduções: a da vida e a da escrita. A primeira é mais subjectiva, a segunda mais objectiva. A sua vida foi de facto um percurso singular de Homem íntegro, professor dedicado e pensador livre. A infância passada na sua terra natal, Melo, Gouveia, deu-lhe matéria a muitas páginas dos seus livros. Com os pais emigrados esteve entregue aos cuidados das tias que lhe traçaram o caminho do Seminário do Fundão. Frequentou depois o Liceu da Guarda e a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Recusada uma entrada para Assistente na Faculdade enveredou pelo professorado e exercendo o seu múnus em várias localidades acabando por efectivar no Liceu Camões em Lisboa.
Na escrita, a sedução é a da palavra, semente do pensar, da reflexão e da vivência. Os romances vergilianos são, normalmente, actos de pensar. Na linha existencialista viver implica reflectir e cada texto é pois um acto de reflexão introspectiva feita no espaço interior de cada indivíduo. Mas este espaço é constituído não só pelas vivências pessoais que cada um de nós experiencia, como também pelas vivências que vêm de trás, apreendidas pela educação e até pela hereditariedade. Cedo começou a escrever e iniciou o seu percurso de escritor com preferência pelo romance inserido na corrente do neo-realismo. Dessa época são os primeiros livros: O caminho fica longe, Onde tudo foi morrendo e Vagão J. A partir de Mudança entra na linha do existencialismo cristão bebendo inspiração em André Malraux e Karl Jaspers. Mais tarde enveredará por uma escrita mais pessoal e nessa linha se manterá até à morte. Da narrativa destacam-se dois romances que marcaram a sua vida de escritor: Aparição, publicado em 1959 e Para sempre, publicado em 1983. O primeiro é um livro de referência do século XX português porque não só releva o nome do autor para a ribalta da literatura portuguesa, mas acima de tudo porque é uma reflexão sobre os grandes problemas que preocupavam a Europa do pós-guerra. O segundo é uma epopeia do sofrimento humano, da dor, da vida e sobretudo da morte. É um livro, por isso, difícil de ler não pelo vocabulário empregue, mas pela agudeza das afirmações e da reflexão constante em que somos imersos. Os dois são, de facto, obras primas da literatura portuguesa e Vergílio Ferreira é um dos maiores autores do século. Agora que a Quetzal vai reeditar as obras do autor é uma ocasião propícia para relermos ou lermos os seus livros.
Em relação à nossa cidade, onde estudou e voltou algumas vezes, ela está presente em várias obras quer pela menção directa que lhe é feita, quer pelo topónimo Penalva. É no romance Estrela Polar que Penalva surge aos olhos do leitor como uma réplica da Guarda. Aí vemos muitas descrições de espaços citadinos, identificamos os nomes das ruas e das praças e movimentamo-nos pela ideologia inerente ao pensamento citadino da época. (A este propósito no próximo sábado haverá uma visita guiada pela cidade, organizada pela BMEL, para conhecermos melhor os espaços referidos nas obras de Vergílio Ferreira.)

José Manuel Monteiro

A memória das palavras

A memória das palavras

 

1.Vasco Graça Moura (1942 – 2014) – Para ele “a poesia é a minha forma verbal de estar no mundo.” Mas era, acima de tudo, um tradutor. Traduziu muito e sobretudo literatura do tempo do renascimento. “Poeta e tradutor de grandes poetas, romancista, ensaísta, dramaturgo, cronista, antologiador, historiador honoris causa, advogado, político, gestor cultural – e podiam acrescentar-se várias outras actividades –, Graça Moura foi um improvável espírito renascentista encarnado neste presente um pouco caótico de mais para o seu assumido gosto pela ordem e pela disciplina.” Mas não só. Traduziu do espanhol, do francês, do italiano, do inglês e do alemão. Mas a maior tradução está registada nos inúmeros livros que escreveu: aí traduziu o seu pensamento, a sua literatura. Muitos textos têm reminiscências das traduções realizadas. Mas a tradução dos seus pensamentos realizou-a com paixão e sem compaixão. As ideias políticas valeram-lhe alguns inimigos, mas isso não o perturbou. O caminho interiorizou-o integralmente. Escrita de lucidez e independência feita de perfeição quase atingível, mas também, nalguns poemas, geométrica.

     Foi um poeta único. "Eu cá transformo tudo em literatura", afirma-se num conhecido verso denunciador da poética alquímica, simultaneamente irónica e classicizante de Vasco Graça Moura. Essa tendência para a autodefinição transparece em alguns dos seus textos poéticos, mas também em escritos que ocasionalmente os acompanham, como acontece em "Poesia e autobiografia", onde podemos ler: "Para mim essas coisas são naturais. Escrevo poemas quando uma certa disponibilidade, uma certa informação e uma certa tensão agudizam a minha percepção do mundo e me permitem operar, por via da palavra poética, uma manipulação dele" (Modo Mudando). Neste sentido de recriação artística, não escandaliza ninguém que o poeta afirme, longe de biografismo ingénuos, que toda a sua poesia é modulada por uma "dimensão autobiográfica". Na sua refinada e aparentemente prosaica captação (re)criativa do efémero quotidiano, não esquece a moderna lição de O'Neill ou de Cesário, dois dos seus assumidos mestres. É justamente à luz da concepção simultaneamente lúdica e ética, orientadora do seu trabalho oficinal, que lemos com enorme prazer poemas como o lamento para a língua portuguesa ou os sentidos poemas com pessoas. (Cândido Martins, Letras & Letras).

     Intransigente defensor da língua portuguesa, lutou persistentemente contra a aplicação do acordo ortográfico. A sua paixão pela nossa língua ficou registada no poema “lamento para a língua portuguesa” : “não és mais do que as outras, mas és nossa, / e crescemos em ti. nem se imagina  / que alguma vez uma outra língua possa / pôr-te incolor, ou inodora, insossa, / ser remédio brutal, mera aspirina, / ou tirar-nos de vez de alguma fossa, / ou dar-nos vida nova e repentina. / mas é o teu país que te destroça, / o teu próprio país quer-te esquecer / e a sua condição te contamina / e no seu dia-a-dia te assassina.  "Antologia dos Sessenta Anos"

 

2.      Alberto da Costa e Silva – Prémio Camões 2014. Este ano o prémio foi para o Brasil. É um autor pouco conhecido entre nós – confesso que nunca li nada dele – e é poeta, memorialista, ensaísta e historiador especialista em África. É pois um autor a descobri,r uma vez que o prémio foi atribuído por unanimidade o que revela a sua importância. Numa primeira reação, Mia Couto, seu antecessor no galardão, disse que ao autor “fez o trabalho de resgatar a memória de África "com arte e elegância". "É um poeta que está a escrever e o que se está a premiar aqui não é só o trabalho de alguém que caminha pela história e pela reconstituição do passado mas que faz isso com qualidade literária". Alberto Costa e Silva, nasceu em São Paulo, em 1931, e foi embaixador do Brasil em Portugal. Um dos representantes de Portugal no júri, José Carlos de Vasconcelos, disse que o autor nos seus volumes de memórias tem uma parte substancial dedicada ao tempo que passou no nosso país sendo por isso um excelente testemunho sobre um período da história de Portugal. Acima de tudo é um historiador e esta faceta da sua obra é a mais conhecida. Dos anos de Lisboa deixamos o seu testemunho: “Três anos mais tarde, voltei a Lisboa, como embaixador. A cidade era outra. Não se podia mais estacionar um carro no Chiado, por exemplo, o que dantes se fazia facilmente. E os amigos estavam mais velhos. Alguns haviam morrido, como Botelho, e outros partiriam pouco depois de nosso retorno, como João Gaspar Simões e Alexandre O'Neill. Mudara Lisboa e mudáramos nós. Mas não se alterara o essencial: 20 anos depois, o ambiente de afeto era o mesmo. E ganhamos mais amigos.” (Autobiografia escrita em 2006 e publicado no Jornal de Letras).

    Como aperitivo para uma leitura mais demorada fica um soneto da sua obra “As Linhas da Mão” que foi um livro premiado no Brasil:

Respiro e vejo. A noite e cada sol 
vão rompendo de mim a todo o instante, 
tarde e manhã que são tecido tempo, 
chuva e colheita. O céu, repouso e vento. 

Vergel de aves. Vou entre viveiros, 
a caçar com o olhar, passarinhagem 
dos pequeninos sóis e das estrelas 
que emigram neste céu de goiabeiras. 

mas sigo a jardinagem, podo o tempo, 
o desgosto do espaço, a sombra e o fogo, 
as florações da luz e da cegueira. 

E, no dia, suspensa cachoeira, 
neste jogo sagrado, vivo e vejo 
o que veio em meus olhos desenhado. 

 

Gonçalves Monteiro

 

[Texto no jornal A Guarda desta semana.]

Gonçalves Monteiro

Padre António Vieira

A memória das palavras

Padre António Vieira

 

Amar a quem me aborrece, é ser humano com quem o não é comigo: aborrecer a quem me ama, é ser cruel com quem mo não merece: o ser humano é ser homem; o ser cruel é ser fera: logo aborrecer a quem nos ama, tanto mais dificultoso é, quanto mais repugnante à natureza. (P.e António Vieira, “Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma “)

 

    A literatura, embora não devesse, também está sujeita a modas, a vagas de fundo. Os escritores que muitas vezes andam esquecidos, voltam à ribalta quando se faz uma edição das suas obras ou quando se assinala uma efeméride. Não que isto seja mau. O mau é que autores essenciais andem muito tempo arredados do grande público e só nessas ocasiões apareçam novamente. Vem isto a talho de foice pela reedição das obras completas do Padre António Vieira.

     A publicidade, as campanhas de promoção vêm repor este “imperador da língua portuguesa” (no palavrar de Fernando Pessoa) no lugar que lhe compete em termos da literatura portuguesa. A sua prosa é sem dúvida o apogeu da nossa escrita e isto - lembremos -  durante o século XVII. A sua arte do domínio da língua foi excelente e aquilo que ele foi capaz de fazer dizer à língua nunca mais ninguém o conseguiu com tamanha plenitude. Deveria ser um autor de leitura obrigatória no ensino secundário não limitado ao “Sermão de Santo António aos Peixes”, mas com mais dois ou três exemplos de argumentação. E se os nossos políticos lessem e assimilassem os seus textos oratórios não fariam discursos tão balofos e sem ideias, nem tão vazios de sentido. A sua grandeza é comprovada pelos testemunhos que lemos muitas vezes de autores que confessadamente se dizem ateus. José Saramago no seu amor à língua portuguesa (o mesmo não se poderá dizer em relação a Portugal) afirmou sobre o Padre Vieira: “A língua portuguesa nunca foi mais bela que quando a escreveu esse jesuíta.” E outro confesso ateu e grande poeta do século XX, Ary dos Santos, tem a melhor declamação do “Sermão de Santo António aos Peixes” de todos os tempos. Servem estes dois exemplos para corroborar o valor unânime à volta desta grande figura das nossas letras e o maior português do século XVII. A sua figura é ímpar pois além de “sermoeiro” reconhecido internacionalmente (recorde-se a sua fama em Roma) com os dotes excelsos de maior orador da época, foi também ecologista, pacifista, embaixador de Portugal, político, economista e defensor dos índios entre outros atributos e atividades. Mas o que atrai mais na sua figura é a verticalidade que sempre mostrou perante os poderosos e que lhe valeu a passagem pelos cárceres da Inquisição, por acaso ainda bem, pois lhe permitiu rever os seus sermões e prepará-los para a publicação posterior. A atualidade dos seus escritos é gritante. Veja-se este exemplo: “O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república, são os imoderados impostos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa; porque é tributo de todos.” (Sermão de Santo António, Lisboa, na Igreja das Chagas). Ou este: A mais poderosa inclinação, e o maior apetite do homem, é desejar ser. […] Não está o erro em desejarem os homens ser; mas está em não desejarem ser o que importa. (Sermão de Todos os Santos, no Convento de Odivelas).

Para José Eduardo Franco, diretor da edição acima referida com Pedro Calafate, o Padre António Vieira é «…um homem atual que lutou contra a escravatura pela reforma da Inquisição um crítico das más práticas políticas da divisão da sociedade entre cidadãos de primeira e de segunda defensor da abolição da diferença de direitos dos chamados cristãos novos e cristãos velhos capaz de fazer um diagnóstico de Portugal e da mentalidade portuguesa do seu tempo e que dizia que a verdadeira fidalguia estava na ação. Ele faz muito sentido neste tempo de crise em que vivemos.»

 

Gonçalves Monteiro

 

[texto publicado no jornal "A Guarda" - 16.05.2013 que também pode ser lido aqui.]

Prémios literários e Cultura

A memória das palavras

 

Prémios literários e Cultura

 

"A Terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda"

Hélia Correia, "A Terceira Miséria"

 

      Os prémios literários servem para quê? Para fazer conhecer mais e melhor os escritores ou para os escritores serem conhecidos e lidos? Quantos Nobel da literatura foram descobertos depois do prémio e quanto tempo durou a fama? Quantos se tornaram de projeção mundial se não o eram já antes?

   Vêm estas perguntas retóricas a propósito da atribuição de dois prémios literários a uma escritora do nosso país pouco conhecida do grande público, mas com uma obra importante no panorama da literatura nacional. A escritora Hélia Correia foi, numa só semana, distinguida com dois prémios: um pelo conjunto da sua obra, outro pelo seu livro de poesia “A Terceira Miséria”. O primeiro, com o nome de Vergílio Ferreira, foi outorgado pela Universidade de Évora ao conjunto da obra desta escritora; o segundo, Casino da Póvoa”, foi divulgado esta quinta-feira (21.02) no início desse acontecimento literário que cada ano ganha mais interesse e onde acorrem alguns dos principais nomes das letras e que é o “Correntes d’Escritas”. O interessante é que um foi atribuído pela obra de narrativa e ensaio e o outro por uma obra de poesia.

     Hélia Correia é uma professora de Português do ensino secundário, formada em Filologia Românica e que sempre admitiu ter uma predileção especial pela poesia. No entanto, foi a sua obra romanesca que a tornou mais conhecida e representa a geração de 1980 através dos contos e novelas que estão cheios de prosa poética. É uma escritora que utiliza a linearidade narrativa como Gabriel Garcia Marquez ou como a nossa Agustina. Está pois inserida na modernidade narrativa e acompanha a literatura atual embora um dos temas mais recorrentes seja o da ascensão social em meio rural. A sua escrita aproxima-se bastante de um discurso oral em busca do poder encantatório da palavra e próxima da técnica do conto popular. O primeiro livro, “O separar das águas”, é de poesia, mas foi a sua novela Montedemo que a tornou mais conhecida e que realizou de algum modo a sua atração pelo teatro uma vez que foi levada à cena pelo grupo de teatro O Bando. Foi essa sua paixão pelo teatro e pela Grécia antiga que a levaram a participar na representação de Édipo Rei, na Comuna. É o seu amor à Grécia que a leva a escrever os poemas do livro agora premiado “A Terceira Miséria” e ela própria fez questão de o referir ao afirmar que o povo grego está a sofrer uma pressão inaceitável assim como o nosso país. O livro é “uma mensagem muito forte: quase um pedido de socorro, um grito” a reivindicar o direito à liberdade económica. Comparou mesmo o seu livro às canções de intervenção de José Mário Branco. É o regresso à poesia grega e à função didática que Aristóteles defendia para a literatura.

     Já agora e aproveitando a referência ao Correntes d’Escritas, de referir a intervenção do escritor Helder Macedo que, na linha de coerência do seu pensamento, elogiou o papel e a persistência da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim ao organizar esta iniciativa, especialmente perante a situação de contenção que se vive em relação à cultura. “Somos um país que é perdulário como só os países pobres como nós o são e onde há as maiores fortunas e simultaneamente as maiores desigualdades”, lamentou o escritor e criticou o progressivo desinvestimento governamental na cultura, mesmo quando ela é sempre “a coisa mais barata”, e que maior relevo dá ao nosso país, também a nível internacional. Lamentou ainda que Portugal não saiba reconhecer pessoas da área da cultura que são conhecidos no estrangeiro e que podiam dar um contributo grande ao país adiantando que se segue uma política cultural de pedintes porque quer exportar cultura mas não tem bases para o fazer. Nada de muito novo, mas sabe sempre bem ouvi-lo da boca de quem tem autoridade moral e cultural para o fazer.

 

(jornal "A Guarda" de 07.03.2013)

Da Literatura

A memória das palavras

 

Da Literatura

1.    Nobel da Literatura


     Como todos os anos em Outubro caem as folhas das árvores e caem os famosos prémios Nobel. Como todos os anos há surpresas. Em relação à literatura, apostava-se forte num japonês e vence um chinês. Coisas do comité. Perfilava-se a vitória de HaruKi Murakami em quem apostavam as agências internacionais ligadas ao sector e eis que vence Mo Yan. Sinceramente tinha ouvido o seu nome de passagem uma ou duas vezes, mas não me tinha demorado na sua obra. Ao menos esse mérito há que reconhecer aos prémios: fazer-nos conhecer e ler determinados autores pouco divulgados em termos do grande público.

     Quem é então este senhor quase desconhecido por cá? Nasceu em 1955, na China rural que retrata nos seus romances e a sua escrita enraíza-se no chamado “realismo mágico” de Garcia Marquez e outras correntes ocidentais. É originário do leste da China, província de Shandong, onde nasceu no seio de uma família pobre tendo abandonado os estudos durante a Revolução Cultural. Tornou-se camponês e entrou no Exército aos 20 anos. Começou por escrever um conto, em 1981, enquanto ainda era soldado e seis anos mais tarde publicou a primeira obra de sucesso “Red Sorghum” que foi adaptado ao cinema. Em 2011 foi galardoado com o Prémio Mao Dun, o mais importante do país, sendo também eleito vice-presidente dos escritores da China. O seu mais recente romance, "Frog", aborda um tema delicado no seu país: a prática de abortos forçados devido à drástica política de controlo da natalidade imposta há três décadas sob a fórmula "um casal, um filho". No nosso país só foi editado até ao momento um livro, em 2007, “Peito Grande, ancas largas”, na editora Ulisseia e traduzido por João Martins.

     Mo Yan (significa em chinês “não fale”), que é o pseudónimo de Guan Moye, considera que "um escritor deve enterrar os seus pensamentos e transmiti-los através dos personagens dos seus romances". Confessa-se admirador de Faulkner e Garcia Marquez e disse há pouco tempo que na China como “em todos os países há certas restrições à escrita”. Em declarações públicas diz ter ficado contente com o Prémio e declarou: «Vou concentrar-me na criação de novas obras. Quero aplicar-me mais para agradecer a todos». É um dos escritores chineses contemporâneos mais publicados fora da China, nomeadamente no Japão, França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos.

     Aguardemos a publicação de obras do autor em português para nos podermos pronunciar criticamente sobre elas.

 

2. Penumbra

 

     Saiu recentemente, em edição de autor, - que isto de publicar poesia em editoras foi chão que já deu uvas - mais um livro do poeta Manuel A. Domingos. Natural de Manteigas, fez os estudos secundários e superiores aqui na Guarda, tendo enveredado pelo ensino e encontrando-se neste momento desempregado, vítima, também ele, dos drásticos e irracionais cortes na educação. No seu caso até pode ser útil, se é que nesta situação há algo de útil, pois oferece-lhe a oportunidade de continuar a escrever e publicar poesia. Oxalá! Este é o terceiro livro de poesia, depois de “Mapa”(2008) e “Teorias”(2011), e que vem reforçar o lugar adquirido por mérito próprio no panorama da actual poesia portuguesa. Tem também colaborado em algumas revistas e feito traduções de autores estrangeiros. Ele próprio define a sua poesia como irónica e por vezes até cínica. É, de facto, uma ironia da própria vida a que sobressai de alguns dos seus poemas. Já o escrevi uma vez e este livro vem confirmar que se trata de uma poetização do real quotidiano. Vê a beleza poética das coisas simples convertidas em motivo para a partilha com os outros. Olha e converte. “Há livros na estante / que nunca li / Esperam a sua vez / a ganhar pó // Olho para ti e não sei / que novidade encontro / sempre no teu olhar.” Ou então: “Hoje deu-me / para a melancolia / ficar assombrado / com a realidade das coisas.”

     Mas o melhor é ler mesmo a sua poesia e comprovar que se trata de um bom poeta.  

 

 3.    Manuel António Pina 

 

O texto terminava acima, mas a vida, fértil em surpresas, deu-nos na passada sexta-feira, a súbita notícia da morte deste grande poeta dos nossos dias, natural do Sabugal e que, nos últimos anos, esteve bastante ligado à Guarda, não só pela homenagem que a cidade lhe fez, mas também pelo prémio literário a que deu o nome. Era, hoje, no mundo das letras e do jornalismo, um nome incontornável. Poeta de obra feita e divulgada por esse mundo fora, foi também um cronista dos mais exímios deixando os seus belos e objectivos textos dispersos em vários jornais. Perde-se um grande poeta e a Guarda perde um bom amigo e divulgador do seu nome. Estes verbos no pretérito perfeito são enganadores, pois ele está entre nós e as suas palavras torná-lo-ão sempre presente cada vez que lermos um texto seu. Uma vez disse: “Eu sei lá para quem é que eu escrevo.” a propósito dos seus livros infantis, mas nós hoje sabemos que ele escreveu para nós o lermos, para lhe bebermos o génio da luta que habitava nele e para continuarmos os seus poemas na execução das palavras na vida. Repousa nos teus versos, já que nos deixas o projecto de “Como se desenha uma casa”, nos deixas em “Um país de pessoas de pernas para o ar!”, no entanto, “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”!

 

Gonçalves Monteiro


[Texto publicado hoje no jornal "A Guarda"]