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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

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POEMAS DE AMOR E MELODIA - CRISTINO CORTES (recensão -PraçaVelha, nº27)

Poemas de amor e melodia, Cristino Cortes

 

“Há poetas que quase naturalmente nos vão servir para

Imitar, …”

(Poetas em negativo I, p. 79)

“E um poema basta, pode dar a medida que persiste.”

(Poetas em negativo II, p. 80)

 

    Os poemas novos deste livro confirmam aquilo que já sabíamos do autor: a sua poesia é adulta e exprime uma sábia simbiose entre o clássico e o moderno. Podemos mesmo arriscar que são estas as duas principais marcas destes poemas.

    Assim, em primeiro lugar, em quase todos eles encontramos influências dos grandes poetas nacionais no plano temático. Se nalguns poemas essa influência vem explícita nas dedicatórias iniciais, noutros ela aparece dispersa ao longo do desenvolvimento dos temas em si. No primeiro caso, encontramos referências a Jorge de Sena (p.23), Vitorino Nemésio (p. 66 e 67), Ruy Belo (p.29), Herberto Hélder (46), Augusto Gil (p. 80), Sá-Carneiro (p.73), Fernando Pessoa(p. 88), etc..  Ora esta enumeração vem confirmar as intertextualidades patentes ao longo de todo o livro com autores da nossa literatura. Mas, como referimos acima, há outros poemas cujos versos nos lembram indirectamente esses clássicos, como é o caso do poema “Do amor adulto” (p.21), onde é visível a presença de Camões. Ou então aqueles onde sentimos a presença de Pessoa e seus heterónimos (que é aliás o autor mais frequentemente encontrado): por exemplo no poema “Jamais” (p. 71), logo o primeiro verso nos remete para Ricardo Reis – “Jamais dão os inocentes deuses seja o que for” – e para a sua filosofia estóica; ou no poema “Ode vespertina” onde há uma referência explícita ao heterónimo pessoano logo a abrir – “Meu bom Ricardo Reis na tua companhia” – passando a tratar o carpe diem tão ao gosto ricardiano; podemos referir ainda o poema “Ode à Cafeína” (p. 30)  cujo título nos remete para Álvaro de Campos e em que o estilo utilizado é precisamente o esfusiante torrencial do engenheiro naval.

    A faceta clássica pode também ser observada na parte formal. Nas estrofes, o autor usa a regularidade com preferência pela quadra complementada muitas vezes com o dístico a terminar os poemas e, como noutros livros, amiúde encontramos o soneto shakespeariano. Já em relação ao verso, a frequência maior é de versos longos quer decassílabos, quer alexandrinos o que permite poemas reflexivos e narrativos, alternando com poemas de versos octossílabos mais leves e mais modernos também. De salientar ainda, na parte formal, a utilização da rima um pouco de modo intermitente e variando entre a consoante e a toante, como podemos observar na primeira quadra do poema “A beleza feminina II” (p.17): a rima entre o primeiro e o quarto versos é toante – tonalidade / tarde – enquanto que a do segundo e terceiro versos é consoante. Encontramos também rimas em eco ou internas [intervaladas / espaçadas – verso 2 do poema “O fim do Verão” (p. 52)] ou mesmo rima encadeada – dão / infracção: fim do verso 3 e meio do verso 4 da segunda estrofe ( poema da página 46).

    Em segundo lugar, a poesia deste livro é moderna, não só porque radica na contemporaneidade, mas porque gere as influências recebidas com estilo próprio onde se destacam a espontaneidade, a oralidade e o quotidiano. Já acima referimos a “Ode à cafeína” (p. 30) cujo tema é evidentemente moderno e porque retrata no estilo o frenético efeito da mesma; ou a actualidade do “Solta e livre a imaginação” (p. 36); ou o quotidiano de “Delícias de pai” (p. 41), “Melancólico moralista” (p. 43), “Segunda-feira” (p. 51) e tantos outros. Embora não sendo algo moderno, destaca-se também a presença da ironia que perpassa em muitos versos e que é um topos da poesia portuguesa em geral, mas que Garrett reforçou na modernidade poética nacional: por exemplo no poema “O tema do namorado” (p. 14) aquele “colofon” dos últimos sete versos é delicioso na suave ironia que nos lembra o pícaro Veloso de “Os Lusíadas”. Podíamos ainda referir a espontaneidade e naturalidade quer do dístico final do “Do Amor adulto I” (p. 20), quer do “Quem dormir na minha cama” (p. 24) e reforçar a reflexão valorativa do “Os filhos da televisão” (p. 75).

    Retomando o início e à laia de conclusão, diríamos que os poemas quer reeditados quer novos deste livro vêm confirmar a poética exímia deste autor misturando com mestria o clássico retomado e o moderno vivido. E é esta conjunção de duas forças aparentemente antagónicas, mas que afinal se complementam que reside a grandeza desta poesia “firme, fértil e universalista” no dizer crítico de João Barroso da Fonte.

 

 

Guarda, 17 de Novembro de 2009

José Monteiro

 

 

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