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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ecos da sessão de 21.03, Dia Mundial da Poesia.

 

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A ler:

 

Inopinadamente
a tarde deixou-se dominar
pelos gatos selvagens;
inadvertidamente
a andorinha poisou
no resto do fio telefónico
que corta os ares dos subúrbios
da cidade descansada;

 

quando o gato saltou
apanhou apenas a cidade
pois a andorinha exímia
acordara a tempo
avisada pela chamada do destino
na inopinada linha telefónica.

 

J M

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NATAL DOS HOMENS

 

 

 

Todos os anos, Jesus

Feito criança, menino,

Transforma a terra em flor.

E em poucos dias, no mundo,

Os homens vivem unidos,

Falando apenas de amor.

 

Mas, quando o Natal acaba

E os dias são como os outros

Nas cidades e na serra,

Durante o resto do ano

Os homens, já desavindos,

Apenas falam da guerra.

 

E assim decorrem os anos

Nesta atroz contradição:

 – Os homens, podendo amar-se,

Morrem de armas na mão!..

 

 

João Patrício


[Aproveito para desejar a todos os frequentadores deste recanto pessoal umas óptimas Festas de Natal e um 2013 cheio de poesia e saúde. Que nunca falte a vontade de mudar o mundo!]

In Memoriam

Hoje, quase à beira do fim de um maio qualquer

fico à espera que a noite te devolva a vida

roubada num dia final como hoje.

 

Busco em mim as memórias de ti

e vejo-te 

no tempo da aldeia

dominante no espírito honesto

de quem doma a terra

dando exemplos pelo exemplo.

 

Anoiteceste um dia como hoje.

 

As memórias de ti espalharam-se 

pelos espaços que são teus:

a casa, o chão, os cômaros,

os lameiros, os pinhais, ...

sei lá, os espaços marcados

pela tua ternura paterna.

 

A lua continua lá, mas já não é a mesma.

E a noite opaca só te revive na memória dos gestos.

 

Fazes-me falta!

 

JM - 31.05.2012

O Poema Original - Dia Mundial da Poesia


Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta 
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

Ary dos Santos, in 'Resumo'

não me acordes

não me acordes

estou no lado de dentro

das pedras
no sítio húmido
da noite
nos interstícios da pele
ferida
no avesso do verso
adverso
não me acordes
mais
não me acordes
tanto

Américo Rodrigues
23/9/11

 

Foi ontem à tarde a apesentação do "acidente poético fatal" na BMEL. Foi tempo de amizades e aprendizagens. Foi tempo de ouvir e assimilar. Foi tempo de palavras. Essas entidades dotadas de vida própria e que nunca estão completas enquanto houver alguém que as aprecie e as tente desvendar. Como faz o Américo. E bem! 

Transcrevo acima o poema de que mais gosto (também eu!). Além de outros. 

Parabéns à poesia e ao autor.

 

 

[Quem tiver curiosidade - e vale a pena satisfazê-la - pode seguir a sugestão do próprio autor: 

"A partir de agora, o livro vai à sua vida. Vende-se, na Guarda, no Quiosque Moinho (ao lado deste Café Mondego), no centro da cidade. Pode também pedir-se por mail: americo.j.rodrigues@sapo.pt"]

POR AÍ

Se me quiserem encontrar

ando perdido por aí

muito afastado de mim;

vagueio na rua do tempo

cruzo a esquina da saudade

e deambulo pela cidade

da lua.

 

Apanho os raios do sol

como quem bebe copos de areia

e não me sai da ideia

que tenho de agarrar

os pedaços de lua cheia

perdidos na fímbria do mar

que é tua.

 

Encontro em cada beco

mais um indício da morte

e vou jogando com a sorte

(feito mero badameco)

os minutos preciosos

desta vida.

 

Assim duro e me arrasto

neste caminho lento e triste.

E, se por acaso me viste,

não era eu, mas um lastro

do que fui outrora

completamente diferente

do que possa ser agora.

Nunca fui inteligente

nesta vida!

 

JM

 

POEMAS DE AMOR E MELODIA - CRISTINO CORTES (recensão -PraçaVelha, nº27)

Poemas de amor e melodia, Cristino Cortes

 

“Há poetas que quase naturalmente nos vão servir para

Imitar, …”

(Poetas em negativo I, p. 79)

“E um poema basta, pode dar a medida que persiste.”

(Poetas em negativo II, p. 80)

 

    Os poemas novos deste livro confirmam aquilo que já sabíamos do autor: a sua poesia é adulta e exprime uma sábia simbiose entre o clássico e o moderno. Podemos mesmo arriscar que são estas as duas principais marcas destes poemas.

    Assim, em primeiro lugar, em quase todos eles encontramos influências dos grandes poetas nacionais no plano temático. Se nalguns poemas essa influência vem explícita nas dedicatórias iniciais, noutros ela aparece dispersa ao longo do desenvolvimento dos temas em si. No primeiro caso, encontramos referências a Jorge de Sena (p.23), Vitorino Nemésio (p. 66 e 67), Ruy Belo (p.29), Herberto Hélder (46), Augusto Gil (p. 80), Sá-Carneiro (p.73), Fernando Pessoa(p. 88), etc..  Ora esta enumeração vem confirmar as intertextualidades patentes ao longo de todo o livro com autores da nossa literatura. Mas, como referimos acima, há outros poemas cujos versos nos lembram indirectamente esses clássicos, como é o caso do poema “Do amor adulto” (p.21), onde é visível a presença de Camões. Ou então aqueles onde sentimos a presença de Pessoa e seus heterónimos (que é aliás o autor mais frequentemente encontrado): por exemplo no poema “Jamais” (p. 71), logo o primeiro verso nos remete para Ricardo Reis – “Jamais dão os inocentes deuses seja o que for” – e para a sua filosofia estóica; ou no poema “Ode vespertina” onde há uma referência explícita ao heterónimo pessoano logo a abrir – “Meu bom Ricardo Reis na tua companhia” – passando a tratar o carpe diem tão ao gosto ricardiano; podemos referir ainda o poema “Ode à Cafeína” (p. 30)  cujo título nos remete para Álvaro de Campos e em que o estilo utilizado é precisamente o esfusiante torrencial do engenheiro naval.

    A faceta clássica pode também ser observada na parte formal. Nas estrofes, o autor usa a regularidade com preferência pela quadra complementada muitas vezes com o dístico a terminar os poemas e, como noutros livros, amiúde encontramos o soneto shakespeariano. Já em relação ao verso, a frequência maior é de versos longos quer decassílabos, quer alexandrinos o que permite poemas reflexivos e narrativos, alternando com poemas de versos octossílabos mais leves e mais modernos também. De salientar ainda, na parte formal, a utilização da rima um pouco de modo intermitente e variando entre a consoante e a toante, como podemos observar na primeira quadra do poema “A beleza feminina II” (p.17): a rima entre o primeiro e o quarto versos é toante – tonalidade / tarde – enquanto que a do segundo e terceiro versos é consoante. Encontramos também rimas em eco ou internas [intervaladas / espaçadas – verso 2 do poema “O fim do Verão” (p. 52)] ou mesmo rima encadeada – dão / infracção: fim do verso 3 e meio do verso 4 da segunda estrofe ( poema da página 46).

    Em segundo lugar, a poesia deste livro é moderna, não só porque radica na contemporaneidade, mas porque gere as influências recebidas com estilo próprio onde se destacam a espontaneidade, a oralidade e o quotidiano. Já acima referimos a “Ode à cafeína” (p. 30) cujo tema é evidentemente moderno e porque retrata no estilo o frenético efeito da mesma; ou a actualidade do “Solta e livre a imaginação” (p. 36); ou o quotidiano de “Delícias de pai” (p. 41), “Melancólico moralista” (p. 43), “Segunda-feira” (p. 51) e tantos outros. Embora não sendo algo moderno, destaca-se também a presença da ironia que perpassa em muitos versos e que é um topos da poesia portuguesa em geral, mas que Garrett reforçou na modernidade poética nacional: por exemplo no poema “O tema do namorado” (p. 14) aquele “colofon” dos últimos sete versos é delicioso na suave ironia que nos lembra o pícaro Veloso de “Os Lusíadas”. Podíamos ainda referir a espontaneidade e naturalidade quer do dístico final do “Do Amor adulto I” (p. 20), quer do “Quem dormir na minha cama” (p. 24) e reforçar a reflexão valorativa do “Os filhos da televisão” (p. 75).

    Retomando o início e à laia de conclusão, diríamos que os poemas quer reeditados quer novos deste livro vêm confirmar a poética exímia deste autor misturando com mestria o clássico retomado e o moderno vivido. E é esta conjunção de duas forças aparentemente antagónicas, mas que afinal se complementam que reside a grandeza desta poesia “firme, fértil e universalista” no dizer crítico de João Barroso da Fonte.

 

 

Guarda, 17 de Novembro de 2009

José Monteiro