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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

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Dia de saudade. Dia de memória.
Hoje seria o centenário. Não, hoje é o teu centenário.
Estás connosco pelo que nos deixaste em herança. O saber de experiências feito. A educação que não te deixaram acabar, mas que nunca descuraste ao longo da vida. O exemplo. Este foi tudo porque é o que nos distingue como teus filhos.
Amaste a terra que chamaste tua e que trabalhaste com esperança. Tu deste-lhe vida e ela recompensou-te com belas colheitas. Trabalhaste com esforço. Arduamente.
Depois, um dia a saúde traiu-te. O esforço tinha sido demasiado. O corpo negou-se a viver mais. Deixaste-nos e a saudade plantou-se-nos na alma. E enraizou e continua a produzir frutos. Em nós, nos teus netos. Na sociedade.
É Março. Parece Primavera. A natureza renasce em pujança.
A saudade mora cá bem dentro da nossa alma. E tu permaneces na memória agradecida.
O dia é teu. Ainda.

J M – 08-03-2015

 

In Memoriam

Hoje, quase à beira do fim de um maio qualquer

fico à espera que a noite te devolva a vida

roubada num dia final como hoje.

 

Busco em mim as memórias de ti

e vejo-te 

no tempo da aldeia

dominante no espírito honesto

de quem doma a terra

dando exemplos pelo exemplo.

 

Anoiteceste um dia como hoje.

 

As memórias de ti espalharam-se 

pelos espaços que são teus:

a casa, o chão, os cômaros,

os lameiros, os pinhais, ...

sei lá, os espaços marcados

pela tua ternura paterna.

 

A lua continua lá, mas já não é a mesma.

E a noite opaca só te revive na memória dos gestos.

 

Fazes-me falta!

 

JM - 31.05.2012

Pai


Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.

 

 

JOSÉ LUIS PEIXOTO, in MORRESTE-ME (Temas e Debates, 2001)

Pai

31 de Maio

 

Dia de sentir saudades, porque dia de perda!

Há anos partiste, pai!

Mas as saudades continuam entre nós

e tu também!

Nos gestos com que trabalhavas a terra

e a fazias produzir frutos;

Nas mãos queimadas pelo sol estival,

mas que geravam esperanças;

Nos sons da tua voz

que as paredes da casa ainda ecoam;

Nas pegadas que gravaste no solo barroso

e dentro de cada um de nós, teus filhos;

 

Saudades de ti que afinal são saudades de nós!

 

E, na distância desses quinze anos, a lembrança

dói na mesma como se fosse ontem!

 

A verdade é que não foi ontem:

foi hoje, porque cada dia estás connosco!

 

JM