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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Pai

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As tuas mãos morenas

calosas do saibro da serra,

amansadas na solidão

da luta com inculta terra...

 

O teu rosto escurecido

de vigílias e de cargas,

sempre sereno e lúcido,

em horas doces e amargas...

 

O teu suor destilado

em seiva, húmus do corpo teu

é alimento para os filhos

que agradeces ao Céu.

 

E, no fim dos duros dias,

no secreto do teu lar,

mesmo exausto e sonolento

carinho ainda sabes dar.

 

Pela vida, pelo amor,

pelo carinho, pela ternura,

pelo tempo, pelo suor,

pelas letras, pela cultura,

por tudo o que de ti sai

tudo te agradeço, PAI!

 

J M

Aldeia (ou Ensaio para uma elegia maior)

     As casas estão semeadas aos lados das ruas caindo de repente sobre a lama que encharca o caminho. De pedras velhas, gastas pelos anos e pelo feroz vento norte, fazem cara feia a quem chega, mas sorriem a quem veem todos os dias. Ariscas para uns, amáveis para outros, retribuem o bem que receberam ao longo dos séculos, embora sejam também o espelho de quem as habita e da sua peculiar maneira de ser.

     Quem chega do lado da cidade, bate de repente ao fundo da descida com o muro recuperado de uma habitação quase secular, guardiã da aldeia e dos seus medos escorregadios dos invernos rigorosos. Depois a rua desce e bifurca-se. Para baixo fica o chafariz velho que até secava no verão. E tinha um largo onde as brincadeiras de fim de tarde juntavam a garotada para as escondidas ou qualquer outra gaiatada que desanuviasse quer da escola quer dos trabalhos agrícolas pesados para aquelas costas débeis. E havia ainda o pereiro com frutos doces e breves atração das barrigas mais famintas nas manhãs quase frias de uns setembros pouco promissores. Lá para o fundo os lameiros esperavam com o gado impaciente que a brincadeira não se prolongasse muito para poderem recuperar alguma erva para o dia seguinte. E quando a demora era persistente lá vinha o berro estridente a lembrar as obrigações familiares que a pouca idade fazia esquecer.

     A outra rua crescia para as bandas do comboio, apitando ao longe nas tardes em que o vento soprava dos cumes anatómicos do Jarmelo. E lá no fim a quinta. Onde se precisavam braços para os duros trabalhos agrícolas, remunerados com pouco dinheiro e algum alimento que não chegava para matar a fome às barrigas numerosas das famílias da aldeia. Respirava fartura e as vacas e as ovelhas abundavam pelos campos. Depois vinha a descida para os lados do comboio: primeiro suave e a seguir mais acentuada terminando no ribeiro exíguo do fundo do vale.

 

J M, Fevereiro 2018

[Ensaio para uma elegia maior]

Se ...

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Se eu já não estiver amanhã

O mundo continuará a girar,

Os dias seguirão iguais

E talvez alguém se alegre!

 

Mas isso que importa?

A manhã baterá à tua porta;

 Os rios correrão para o mar;

Haverá alegrias ou tristezas

Súplicas, lágrimas e rezas;

As aves levantar-se-ão a cantar;

O tempo beberá das mesmas fontes

E o fogo devorará ainda os montes, …

 

Se eu já não estiver cá amanhã,

Simplesmente não farei falta:

terei cumprido o meu destino!

 

J M 15.11.2017

Meu país ...

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Meu país vestido de negro e vermelho,

Quem te destrói assim indecentemente?

Quem devora tua riqueza natural?

 

Quem arde teu Interior tão velho?

Quem diz que ajuda mas só mente?

Quem lucra com a morte, afinal?

 

Quem queima os nossos corpos?

Quem devora a simples alma?

Quem é o coveiro da esperança?

 

Ficamos amargos, feios e tortos

Foge-nos aos poucos a calma

E roubam-nos a paterna herança!

 

Meu país de luto e dor,

Viraste, acaso, país de rancor?

 

J M - 16.10.2017

Memórias

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Estás connosco cada dia:
no sorriso peculiar
nas flores que tratavas
com carinho 
(e que ainda lá estão)
na expressão atenta
da vida em alegria;

na defesa do teu lar
nas carícias que "espelhavas"
no teu querido "ninho"
no centro do coração
na palavra sempre isenta:
no ser que em ti vivia!

J M

(Difíceis as palavras para recordar a partida!)

08.10.2017

Lugares

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Regresso devagar aos lugares da minha infância

Lentamente para poder saborear

Os aromas, as brincadeiras, a abundância

De carinhos, as paixões e o luar!

 

J M

Diária

Há perfumes matutinos

no ar fresco da manhã

há chilreios e há trinos

na voz dos passarinhos

bela, alegre e louçã.

 

Traz gravada, lá no fundo,

a beleza de dias de primavera,

os sonhos de um sono profundo

com alguns desejos imersos

no começo de uma nova era.

Caducidade

torre de menagem - Carlos Adaixo.jpg

 

Está serena a tarde:

desprendem-se-lhe frias

as palavras

que se acomodam

nos lábios simpáticos

do vento nordeste.

 

Lá para o alto, no castelo,

luzem ainda os raios preguiçosos

da lua nascente,

mas breve virá o gélido nevoeiro

e destruirá a lucidez da incipiente noite .

 

E as palavras, afinal, dirão apenas

aquilo que o ouvinte distraído

com o ecrã cintilante

do sedutor telemóvel,

o deixar perceber: as palavras humilhadas

fugirão com o gélido nevoeiro

na ignorância imposta

pelas novas seduções.

 

J M – 2.1.2017

Lendo Cesário

Ela passa "aromática e normal"

diz Cesário em "Deslumbramentos":

só pode ser ela, a magnífica, a tal

que traz ao poeta milhares de tormentos!

 

Ela é a cidade destruidora

que obsidia o poeta e o prende

mas é também a dominadora

a quem masoquisticamente se rende!

 

E lá está ainda o café devasso

e a actriz em ligeiros pés de cabra

por detrás de um vidro ténue e baço

à espera que a porta se lhe abra.

 

JM