Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Está alguém em casa?

Resultado de imagem para natal presepio

 

     E ali estavam. Sentados à lareira, olhando o vazio ou um programa estúpido que passava na televisão e que não se adequava à solenidade da noite! Esperavam, talvez um milagre, que outra coisa já não havia que esperar. A desesperança instalara-se.

Antigamente não era assim. A casa estava cheia. Primeiro com os filhos. Depois veio o reboliço dos netos: ninguém parava sossegado. A mesa era posta na sala grande e sempre cheia de acepipes. E, à sua volta, a correria do costume. Os homens refastelados nas cadeiras iam petiscando e bebericando qualquer coisita e as mulheres atarefadas com os últimos preparativos preparavam cuidadosamente o bacalhau e as couves, o polvo, quando o dinheiro já dava para uns extras, no arroz da tradição, trazida das grandes cidades e as sobremesas onde pontificava o excelente arroz doce feito pelo carinho extremoso da dona de casa. Aproveitava-se o tempo de pausas para pôr a conversa em dia especialmente sobre aqueles que tinham vindo de mais longe e para trocar impressões sobre o futuro que aparecia no limiar da porta.

     Aos poucos, no entanto, os netos foram crescendo e ganhando a sua autonomia. Apareciam raras vezes, de fugida, e corriam novamente para os seus lugares, que a aldeia não tinha futuro para eles. E assim, paulatinamente, a solidão foi tomando conta das suas vidas. Nem nesta noite de Natal já voltavam para confraternizar com os velhotes. Parecia que o mundo se tinha esquecido deles e até os filhos, entregues às suas vidas absorventes, primavam pela ausência. Que sociedade esta! E lá estava a televisão a noticiar que abriu uma creche para animais ali bem perto, na grande cidade. E um deputado qualquer, dum partido dispensável, como mais dois ou três, defendia convictamente a existência de cuidados paliativos para animais. Santo Deus-Menino!

     - Já viste, Tó Maria, como está tudo ao contrário? Os animais têm quem cuide deles e quem os acompanhe e nós para aqui sozinhos!

    - Tens razão, Mizé, já nada é como dantes! Vê como os nossos filhos nos deixaram aqui sozinhos! Será que ao menos o Tó Mané, que está separado, não nos podia ter feito companhia?

     - Deixa-o lá, homem! Ele ainda não superou o que lhe fez aquela doida! E, se tivesse vindo, também não seria boa companhia. Era capaz de exagerar na bebida e ainda ficávamos mais preocupados.

     - Tens razão, mulher! Lá ficou com aquele amigo leal e com os filhos. Oxalá tudo lhe corra bem!

       Como era possível, pensaram eles, embora não o dissessem, dar-se tanto valor aos animais e desprezar tantíssimo os seres humanos! Não é que não gostassem dos animais: não dispensavam a companhia do seu Farrusco, cão de guarda mais fiel que a guarda pretoriana, e do seu Ronrom, aninhado ali no colo, tornando a solidão menos cruel. Mas se fosse preciso optar entre os animais da casa e os filhos, logicamente estes estariam em primeiro lugar. E lá vinha à memória o verso do poeta ouvido algures: “que mundo, coitadinha!”

     E a televisão, depois duns cabeceamentos de sono invasivo, voltava ao ataque com uma reportagem sobre os sem-abrigo mostrando o Presidente a comer a ceia de Natal, no meio de uma série de seres com marcas de uma vida amargurada, todo sorridente e afável para os repórteres de imagem. E devia ser mesmo só para a imagem! E nos outros 364 dias do ano onde estava o Presidente e a sua solidariedade? Onde estão as decisões do Governo para melhorar a vida daqueles que tiveram a infelicidade de ficar sem nada? Se não fosse o voluntariado de meia dúzia de cidadãos conscientes, nem nesta noite teriam apoio. Mas afinal não era o que se passava com eles para ali sozinhos, na noite de Consoada? E aquela pergunta reabriu a ferida do abandono. Com tantos filhos e netos, nem um sequer tinha aparecido para estar com eles.

     - Olha, Tó, para o ano convidamos o Presidente, pode ser que ele traga o bacalhau branquinho da Noruega. E nos faça companhia.

     - Tens razão, Mizé! Pelo menos, com o jeito que ele tem, contava-nos umas histórias para alegrar a noite. Ao menos isso ele sabe fazer bem!

     Ainda se entretiveram durante alguns minutos a fazer as orações da época, aprendidas com os Pais e que tinham ficado na memória de uma religião transmitida através de fórmulas papagueadas na catequese. Sempre foram pessoas cumpridoras das obrigações eclesiais. Se ao menos houvesse ali, na igreja da terra, a missa do Galo, ainda fariam o esforço de lá ir, bem agasalhados, pois o frio da meia-noite não era bom conselheiro e uma constipação, numa altura destas, seria inconveniente. Já tinham tomado a vacina há um mesito atrás, mas mais valia prevenir!

     - Ó Tó, não ouviste? Anda alguém lá fora!

     - Deves estar a ouvir coisas. Deve ter sido o vizinho a deitar de comer ao cão. Além disso o Farrusco não ladrou.

     - Ná, o Ti Manel não fazia aquele barulho! De certeza que anda aí alguém a rondar. Pode ser alguém conhecido!

     - Foi impressão tua. Há poucochinho estavas para aí a cabecear, foi sonho.

     De repente, ouviram-se umas pancadas na porta e uma voz conhecida inquiriu:

     - Está alguém em casa?

 

José Manuel Monteiro

 

[Texto publicado no jornal "A Guarda", de 20.12.2018]

Pai

pai.jpg

 

As tuas mãos morenas

calosas do saibro da serra,

amansadas na solidão

da luta com inculta terra...

 

O teu rosto escurecido

de vigílias e de cargas,

sempre sereno e lúcido,

em horas doces e amargas...

 

O teu suor destilado

em seiva, húmus do corpo teu

é alimento para os filhos

que agradeces ao Céu.

 

E, no fim dos duros dias,

no secreto do teu lar,

mesmo exausto e sonolento

carinho ainda sabes dar.

 

Pela vida, pelo amor,

pelo carinho, pela ternura,

pelo tempo, pelo suor,

pelas letras, pela cultura,

por tudo o que de ti sai

tudo te agradeço, PAI!

 

J M

Aldeia (ou Ensaio para uma elegia maior)

     As casas estão semeadas aos lados das ruas caindo de repente sobre a lama que encharca o caminho. De pedras velhas, gastas pelos anos e pelo feroz vento norte, fazem cara feia a quem chega, mas sorriem a quem veem todos os dias. Ariscas para uns, amáveis para outros, retribuem o bem que receberam ao longo dos séculos, embora sejam também o espelho de quem as habita e da sua peculiar maneira de ser.

     Quem chega do lado da cidade, bate de repente ao fundo da descida com o muro recuperado de uma habitação quase secular, guardiã da aldeia e dos seus medos escorregadios dos invernos rigorosos. Depois a rua desce e bifurca-se. Para baixo fica o chafariz velho que até secava no verão. E tinha um largo onde as brincadeiras de fim de tarde juntavam a garotada para as escondidas ou qualquer outra gaiatada que desanuviasse quer da escola quer dos trabalhos agrícolas pesados para aquelas costas débeis. E havia ainda o pereiro com frutos doces e breves atração das barrigas mais famintas nas manhãs quase frias de uns setembros pouco promissores. Lá para o fundo os lameiros esperavam com o gado impaciente que a brincadeira não se prolongasse muito para poderem recuperar alguma erva para o dia seguinte. E quando a demora era persistente lá vinha o berro estridente a lembrar as obrigações familiares que a pouca idade fazia esquecer.

     A outra rua crescia para as bandas do comboio, apitando ao longe nas tardes em que o vento soprava dos cumes anatómicos do Jarmelo. E lá no fim a quinta. Onde se precisavam braços para os duros trabalhos agrícolas, remunerados com pouco dinheiro e algum alimento que não chegava para matar a fome às barrigas numerosas das famílias da aldeia. Respirava fartura e as vacas e as ovelhas abundavam pelos campos. Depois vinha a descida para os lados do comboio: primeiro suave e a seguir mais acentuada terminando no ribeiro exíguo do fundo do vale.

 

J M, Fevereiro 2018

[Ensaio para uma elegia maior]

Se ...

se ....jpg

 

Se eu já não estiver amanhã

O mundo continuará a girar,

Os dias seguirão iguais

E talvez alguém se alegre!

 

Mas isso que importa?

A manhã baterá à tua porta;

 Os rios correrão para o mar;

Haverá alegrias ou tristezas

Súplicas, lágrimas e rezas;

As aves levantar-se-ão a cantar;

O tempo beberá das mesmas fontes

E o fogo devorará ainda os montes, …

 

Se eu já não estiver cá amanhã,

Simplesmente não farei falta:

terei cumprido o meu destino!

 

J M 15.11.2017

Meu país ...

panoias.jpg

Meu país vestido de negro e vermelho,

Quem te destrói assim indecentemente?

Quem devora tua riqueza natural?

 

Quem arde teu Interior tão velho?

Quem diz que ajuda mas só mente?

Quem lucra com a morte, afinal?

 

Quem queima os nossos corpos?

Quem devora a simples alma?

Quem é o coveiro da esperança?

 

Ficamos amargos, feios e tortos

Foge-nos aos poucos a calma

E roubam-nos a paterna herança!

 

Meu país de luto e dor,

Viraste, acaso, país de rancor?

 

J M - 16.10.2017

Memórias

mae.jpg

 

Estás connosco cada dia:
no sorriso peculiar
nas flores que tratavas
com carinho 
(e que ainda lá estão)
na expressão atenta
da vida em alegria;

na defesa do teu lar
nas carícias que "espelhavas"
no teu querido "ninho"
no centro do coração
na palavra sempre isenta:
no ser que em ti vivia!

J M

(Difíceis as palavras para recordar a partida!)

08.10.2017

Lugares

prados.jpg

 

Regresso devagar aos lugares da minha infância

Lentamente para poder saborear

Os aromas, as brincadeiras, a abundância

De carinhos, as paixões e o luar!

 

J M

Diária

Há perfumes matutinos

no ar fresco da manhã

há chilreios e há trinos

na voz dos passarinhos

bela, alegre e louçã.

 

Traz gravada, lá no fundo,

a beleza de dias de primavera,

os sonhos de um sono profundo

com alguns desejos imersos

no começo de uma nova era.

Caducidade

torre de menagem - Carlos Adaixo.jpg

 

Está serena a tarde:

desprendem-se-lhe frias

as palavras

que se acomodam

nos lábios simpáticos

do vento nordeste.

 

Lá para o alto, no castelo,

luzem ainda os raios preguiçosos

da lua nascente,

mas breve virá o gélido nevoeiro

e destruirá a lucidez da incipiente noite .

 

E as palavras, afinal, dirão apenas

aquilo que o ouvinte distraído

com o ecrã cintilante

do sedutor telemóvel,

o deixar perceber: as palavras humilhadas

fugirão com o gélido nevoeiro

na ignorância imposta

pelas novas seduções.

 

J M – 2.1.2017