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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Fernando Namora (1919-2019)

A memória das palavras

Retalhos da vida de um escritor

     Quando se nomeia Fernando Namora, vem-nos imediatamente à memória o livro ou a série da RTP, “Retalhos da vida de um médico”. É indubitavelmente o livro mais conhecido do autor que tem muita mais produção escrita e até – faceta pouco conhecida – como pintor. Livro de memórias ligado ao exercício da medicina quer nas aldeias do sul de Portugal, quer mesmo na(s) cidade(s). Porém, o centro das narrativas memorialísticas é de facto a aldeia com as suas crendices, as suas superstições e o confronto entre a medicina e os frequentes charlatães que proliferavam por todo o país. Aproveita o narrador para denunciar também as condições infra-humanas em que se vivia na maior parte das aldeias da época de uma maneira irónica, de uma maneira ingénua, de uma maneira frustrada.

   Fernando Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, faz este ano 100 anos (19 de abril de 1919). Integrou-se desde cedo na chamada geração de 40 a que pertenceram Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado ou João José Cochofel. Estreou-se com um livro de poesia, “Relevos”. Funda com outros colegas a revista Altitude e participa nas atividades do Novo Cancioneiro publicando sistematicamente textos ligados ao neorrealismo da época. Apesar dessa ligação, construiu depois uma vertente mais pessoal, denunciando aquilo que se passava na sociedade com laivos de burlesco, de naturalismo e de existencialismo.

     As suas obras, publicadas desde cedo, têm um percurso de evolução significativa sem deixar de ter uma ligação contínua. Assim, desde o romance Fogo na Noite Escura, que decorre em pleno ambiente universitário de Coimbra que integra personagens arrancadas à vida real e provenientes de várias faculdades são caraterizadas à maneira do neorrealismo pois, parecendo serem todos iguais como estudantes, acabam por denunciar um nivelamento falso ou artificial. Temos, nas obras seguintes, um ambiente rural cheio de vivacidade, mas também cheio de desníveis sociais gritantes. São exemplo disso as obras: Casa da Malta, A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio e, o melhor exemplo, Retalhos da Vida de um Médico. Mais tarde quando vai para a cidade, marcado por uma solidão infinda e pelas vivências breves do quotidiano, entra na narrativa de cariz urbano como se poderá verificar em Cidade Solitária e Domingo à Tarde. Já na década de 70 passa por uma fase cosmopolita, marcada pelas viagens que faz por exemplo à Escandinávia e pela sua participação nos encontros de Genebra. Termina o seu percurso literário adentrando-se na ficção contemporânea com Rio Triste e Resposta a Matilde e publicando reflexões intimistas em Jornal sem Data.

     A sua vida profissional – exercício de Medicina – desenrolou-se na província: Tinalhas, Monsanto (Cada manhã em Monsanto nasce o mundo.) e Pavia, fixando-se, em 1951, em Lisboa como Médico assistente do Instituto Português de Oncologia. Figura notável do mundo literário português viria a ser proposto para o Nobel da Literatura em 1981. Várias das suas obras foram transpostas para o cinema e para a rádio. A sua vida literária ficou assinalada, na parte final, pela polémica com Vergílio Ferreira. Luiz Pacheco publicou um panfleto onde acusava Fernando Namora de ter copiado frases de Vergílio Ferreira e a amizade entre os dois escritores que durava há quarenta anos acabou por ali. Disto dá notícia Vergílio Ferreira no seu Conta-Corrente: “Que livro pode ser mais importante do que a amizade entre dois homens? O Namora publicou um livro novo. Não mo mandou. Pela primeira vez em muitos anos. Reflexos da malandrice que lhe pregou o Luiz Pacheco e de que agora me julga responsável…”

    O seu espólio literário e artístico pode ser apreciado na Casa Museu em Condeixa-a-Nova. Além de romancista, como referido acima, o autor escreveu vários livros de poesia. Fica um excerto de Profecia:

Não venham dizer-me 
com frases adocicadas 
(não venham que os não oiço) 
que levo caminho errado, 
que tenho os caminhos cerrados 
à minha febre! 
Hei-de gritar, 
cair, sofrer 
— eu sei. 
Mas não quero ter outra lei, 
outro fado, outro viver. 

 

José Manuel Monteiro

[Texto publicado noa jornal "A Guarda", 04,04,2019]

Fernando Namora (1919-2019)

Balada de Sempre

Espero a tua vinda 
a tua vinda, 
em dia de lua cheia. 

Debruço-me sobre a noite 
a ver a lua a crescer, a crescer... 

Espero o momento da chegada 
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas... 

Rasgarás nuvens de ruas densas, 
Alagarás vielas de bêbados transformadores. 
Saltarás ribeiros, mares, relevos... 
- A tua alma não morre 
aos medos e às sombras!- 

Mas..., 
Enquanto deixo a janela aberta 
para entrares, 
o mar, 
aí além, 
sempre duvidoso, 
desenha interrogações na areia molhada... 

Fernando Namora, Relevos

Fernando Namora (1919-2019)

Por Todos os Caminhos do Mundo

 

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia pelo mundo, 

por todos os caminhos do mundo, 
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho, 
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar num jardim nocturno, 

ora um deserto que o simum veio modificar, 
ora a miragem de se estar perto do oásis, 
ora os pés cansados, sem forças para além. 

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe o rumo e a hora de o atingir, 
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado 
de que a tempestade não lhe abalará o palácio, 
a doçura de quem nada tem a regatear, 
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar. 

Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte. 
Que ninguém me peça nada. Nada. 
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia, 
com a minha noite que nem sempre é noite 
como a alma quer. 

Não sei caminhos de cor. 

Fernando Namora, Mar de Sargaços

Fernando Namora (1919-2019)

Poema da Utopia

A noite caiu sem manchas e sem culpa. 

Os homens tiraram as máscaras de bons actores. 

Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde. 

No alto, a utópica lua, vela comigo 
e sonha inutilmente com a verdade das coisas. 

- Noite! Deixa-nos também dormir... 

Fernando Namora, Relevos

Fernando Namora (1919-2019)

Balada de Sempre

Espero a tua vinda 
a tua vinda, 
em dia de lua cheia. 

Debruço-me sobre a noite 
a ver a lua a crescer, a crescer... 

Espero o momento da chegada 
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas... 

Rasgarás nuvens de ruas densas, 
Alagarás vielas de bêbados transformadores. 
Saltarás ribeiros, mares, relevos... 
- A tua alma não morre 
aos medos e às sombras!- 

Mas..., 
Enquanto deixo a janela aberta 
para entrares, 
o mar, 
aí além, 
sempre duvidoso, 
desenha interrogações na areia molhada... 

Fernando Namora, Relevos

“Poema Cansado de Certos Momentos” - Dia da mãe

Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?

 

Fernando Namora, in “Mar de Sargaços”