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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Em Abril

 

Em Abril floriu a liberdade

com cravos de vermelha cor;

em Abril por toda a cidade

se expandiu a reprimida dor

para festejar a pujante idade

de uma revolução em flor.

 

Um mar de gente saiu à rua

todo alvoroçado nas vontades

unido num sólido coração

capaz de ir buscar a Lua

para iluminar as verdades

ocultas na longa opressão.

 

O grito soltou-se bem alto

das bocas como uma só;

tremeu o Carmo e a Trindade

e foi tão grande o sobressalto

que sem piedade nem dó

se ouviu em uníssono: LIBERDADE!

 

E a cidade foi um espanto

de esperança e alegria:

as ruas engalanaram-se

os tanques abrilaram-se

a noite converteu-se em dia

e Grândola fez-se CANTO.

 

24.04.2014

 

JM

A Rapariga do País de Abril


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Qaundo vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.


Manuel Alegre, 30 Anos de Poesia, Publicações Dom Quixote

Noite de Abril

Hoje, noite de Abril, sem lua,
A minha rua
É outra rua.

 

Talvez por ser mais que nenhuma escura
E bailar o vento leste
A noite de hoje veste
As coisas conhecidas de aventura.

 

Uma rua nova destruiu a rua do costume.
Como se sempre nela houvesse este perfume
De vento leste e Primavera,
A sombra dos muros espera

 

Alguém que ela conhece.
E às vezes, o silêncio estremece
Como se fosse a hora de passar alguém
Que só hoje não vem.

.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética I

ABRIL

[http://animaleja.no.sapo.pt/cravo.gif]

 

"Somos filhos da madrugada"

não queremos voltar à noite escura,

e na luz clara de Abril

gritaremos até que a voz nos doa:

nem opressão, nem ditadura!

 

Já que tanto custou construir

a estrada da liberdade

não voltaremos a deixar surgir

os vampiros sedentos na cidade,

enrouqueceremos a gritar:

"somos livres de voar"!

 

24.04.09 - JM

 

É bom também irmos recordando Zeca Afonso, sabe-se lá o que nos espera!

 

VAMPIROS

 

No céu cinzento

sob o astro mudo
Batendo as asas

Pela noite calada
Vêm em bandos

Com pés veludo
Chupar o sangue

Fresco da manada

Se alguém se engana

com seu ar sisudo
E lhes franqueia

As portas à chegada
Eles comem tudo

Eles comem tudo
Eles comem tudo

E não deixam nada 

A toda a parte

Chegam os vampiros
Poisam nos prédios

Poisam nas calçadas
Trazem no ventre

Despojos antigos
Mas nada os prende

Às vidas acabadas

São os mordomos

Do universo todo
Senhores à força

Mandadores sem lei
Enchem as tulhas

Bebem vinho novo
Dançam a ronda

No pinhal do rei

Eles comem tudo

Eles comem tudo
Eles comem tudo

E não deixam nada

No chão do medo

Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos

Na noite abafada
Jazem nos fossos

Vítimas dum credo
E não se esgota

O sangue da manada

Se alguém se engana

Com seu ar sisudo
E lhe franqueia

As portas à chegada
Eles comem tudo

Eles comem tudo
Eles comem tudo

E não deixam nada

Eles comem tudo

Eles comem tudo
Eles comem tudo

E não deixam nada

http://www.youtube.com/watch?v=ZUEeBhhuUos