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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

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Padre Manuel Antunes (1918-1985)

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Faz este mês 100 anos (3 de novembro) que nasceu uma figura ímpar da cultura e da filosofia no nosso país e que é considerado hoje unanimemente um dos maiores pensadores do século XX. O seu mérito foi reconhecido em vida e tornou-se um dos mais conceituados e apreciados professores da Universidade Clássica de Lisboa. Terá sido mesmo convidado para ser Ministro da Educação, mas ou por pressão dos colegas, ou devido à sua débil saúde nunca assumiria o cargo.

     Trata-se do Padre Manuel Antunes, nascido na Sertã, de família humilde, em 1918. Frequentou o Seminário Menor da Companhia de Jesus, em Guimarães e aos 18 anos entrou para o noviciado onde fez a sua primeira profissão religiosa. Completou, mais tarde, os estudos humanísticos e aprofundou os conhecimentos em Literatura e Cultura Gregas e Latinas nas quais viria a destacar-se. Concluiu ainda o curso de filosofia em Braga.

    Depois da frequência de várias escolas de ensino superior, quer no país, quer no estrangeiro, devido ao seu brilhantismo, enveredou pela docência no ensino superior tendo lecionado no Curso Superior de Letras, da Companhia de Jesus, mas foi na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que a sua sabedoria e pedagogia se distinguiram. A convite do Prof. Vitorino Nemésio, assumiu várias cadeira no Curso de Letras, desde História da Cultura Clássica e História da Civilização Romana até outras cadeiras de Filosofia Antiga e Ontologia, além de ter orientado diversos seminários. O seu pensamento filosófico não se encontra em tratados, mas soube criar uma linha de pensamento própria ocupando-se em crítica literária, cultura clássica, educação, experiência religiosa, reflexão política. Exibiu, nestes campos, uma atitude crítica partindo de uma perspectiva muito assente na cultura clássica. Criou também um espaço na antropologia, meditando sobre o ser enquanto revelador de verdade, bem, beleza e unidade, sendo esta a base da sua ontologia. Daí a sua meditação constante sobre a condição humana em permanente crise que o leva à reflexão sobre o mundo como totalidade e destino.

     No entanto, foi como professor que mais se viria a destacar. Demonstrou uma competência e saber invulgares reconhecidos pelos seus colegas e alunos. Tanto uns como outros apreciaram a sua vastíssima cultura, o seu poder de síntese, a clareza e o vigor da exposição, mas também a sua atitude modesta, acolhedora, afável e comunicativa. Foi um autêntico pedagogo humanista com uma atitude crítica do passado e do presente e que aplicava sabiamente as lições da história ao seu tempo.

     O reconhecimento do seu talento é visível na atribuição do estatuto de Bolseiro no Instituto de Alta Cultura e da Fundação Gulbenkian; representou o Estado Português em vários congressos internacionais; foi sócio da Academia das Ciências de Lisboa; foi-lhe atribuído por unanimidade o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa; foi condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada na sua residência oficial por o estado de saúde não lhe ter permitido estar presente na cerimónia oficial.

     “Como mestre da história e da vida humana, aliando de forma admirável a teoria e a prática, para Manuel Antunes o ideário de fundo da educação deve ter como meta a entrega do homem a si próprio. A verdadeira educação, aquela que forma integralmente o ser humano, deve ser capaz de conduzir ao pólo oposto da alienação: homem sujeito e não objecto, pessoa em vez de coisa. Deve, portanto, combater o homem serial, que constitui a «multidão solitária», o homem multitudinário. A sua filosofia educativa discerne a educação como um processo de humanização e de regeneração social, o meio certo para fazer face às crises inevitáveis da sociedade humana: “na crise radical que atravessa o mundo e à qual nenhuma nação e mesmo nenhum indivíduo escapam ou sequer, no limite, podem escapar, a educação constitui um dos básicos elementos salvadores”. (José Eduardo Franco et Luís Machado de Abreu)

     Escrevia com frequência artigos para a Brotéria (410) de que foi distinto director, vários para o mesmo número, por isso inventava pseudónimos (conhecem-se-lhe 126). Além desta revista, colaborou ainda na Revista Portuguesa de Filosofia, na Euphrosyne e na Revista da Faculdade de Letras. De destacar as numerosíssimas entradas (250) que redigiu para a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura publicada pela editorial Verbo, onde dirigiu a secção de Literatura.

     Para celebrar o centenário do seu nascimento, decorreu, neste início do mês de novembro, um Congresso Internacional subordinado ao tema: “Repensar Portugal, a Europa e a globalização 100 anos | Padre Manuel Antunes, SJ”. A organização coube conjuntamente à Assembleia da República, Casa da Cultura da Sertã e Fundação Calouste Gulbenkian.

[Texto publicado no jornal "A Guarda", de 08.11.2018]

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