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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Cabeço das Fráguas.

fraguas 1.jpg

 [Foto de Ana Isabel Santos]

Os dias da cidade

Cabeço das Fráguas

 

     Diz uma das lendas sobre a origem da nossa cidade que as ferramentas para a sua construção no cimo do cabeço das Fráguas, apareciam na manhã seguinte no sítio onde hoje a cidade está construída. Após várias tentativas goradas e sempre com o mesmo desfecho, a cidade acabou por ser construída no local onde hoje se encontra e o fenómeno foi interpretado como algo sobrenatural.

     As lendas são o que são, ou seja, uma tentativa de explicar o inexplicável racionalmente em determinado tempo e em determinado lugar. Mas por que razão aparece o referido cabeço nesta lenda e neste contexto? Desde 1943, quando o General João de Almeida deu a conhecer uma inscrição, situada numa laje (da Moira) no alto da Fráguas, que o sítio se tornou um ponto histórico e foi objecto, repetidas vezes, de estudos quer históricos, quer geográficos, quer linguísticos. Em 1956, o nosso conterrâneo e historiador, Dr. Adriano Vasco Rodrigues, transcreveu a célebre inscrição para o papel e tentou interpretá-la. Refira-se que é das únicas da península em celtibero e, por isso, é difícil interpretá-la, mas todos os estudiosos concordam que é um voto de um sacrifício chamado suovetaurilius, isto é, de um porco, uma ovelha e um touro em honra de deuses locais. Há vestígios nas imediações de habitação no tempo dos romanos, mas há provas do cume ter sido habitado muito antes (século V a. C.) e teria sido um castro fortificado como provam ainda uns restos de muralhas primitivas. O Dr. Adriano Vasco Rodrigues descobriu numa quinta no sopé do monte múltiplos vestígios pré-romanos.

    A importância do cabeço advém da posição geográfica, dominadora de todo o planalto guardense desde Monsanto até ao Jarmelo e desde a Guarda até à Serra das Mesas. Fica num ponto intermédio e de passagem obrigatória da transumância que da região da Guarda se dirigia para sul e vice-versa. Do cume é possível ver a Guarda, a Covilhã e outras localidades como, bem ao longe, Monsanto. Um dedicado estudioso do Cabeço, o Professor Célio Rolinho Pires, natural de Pega, investigou toda a região e deixou-nos vários livros onde espelhou as suas conclusões. Fazia ele derivar Fráguas, não das forjas romanas como querem os linguistas, mas da palavra Fratria remetendo a importância do local para um culto feminino que dominaria toda a região e que os primitivos habitantes teriam deixado gravado nas pedras que ainda hoje povoam os nossos cabeços. E, à região que vai da Guarda até à Serra da Opa e de Belmonte até ao Sabugal, grosso modo, designou-a de país das pedras. A verdade é que ainda me lembro, quando era gaiato de ouvir dizer que fulano e sicrano tinham ido às Pedras buscar figos e outros bens agrícolas. Na altura não entendia a designação, mas ainda me lembro da existência de uma estrada de terra batida que ligava Panóias (Valcovo) à Bendada e que servia de via da ligação entre a região da Guarda e aquela aldeia do concelho do Sabugal.

     Hoje o cabeço pertence à freguesia da Benespera e faz limite com Santana da Azinha e Pousafoles do Bispo. Como possível lugar mais antigo a ter sido habitado e como referência histórico-linguística dos lusitanos, devia ser visitado por todos os guardenses, quase local de peregrinação às origens. A verdade é que é um sítio bastante esquecido em termos históricos e só de vez em quando é lembrada a sua importância para a história local. Em 2012, houve uma romagem teatral promovida pela Culturguarda que levou até lá muitos guardenses e o Museu da Guarda já promoveu também algumas iniciativas relativas à referida inscrição.

     Mas sendo o local tão importante para nós guardenses, não seria de sinalizá-lo convenientemente e promover algumas visitas guiadas de modo a conhecermos melhor a sua importância e assim relevarmos as nossas origens ancestrais? Há o óbice de os terrenos pertencerem a privados, mas se houvesse colaboração entre as Câmaras da Guarda e do Sabugal para pôr o local no mapa cultural não seria difícil, acho eu, traçar um percurso que respeitasse a natureza e preservasse o sítio arqueológico de possíveis vandalismos. No mês passado desloquei-me lá com os meus alunos numa caminhada de fim de ano e foi-nos difícil encontrar o acesso pelo lado da Demoura – que é o que tem menor inclinação – pois as mariolas que balizam as veredas estão um pouco dispersas e escondidas pelas ervas. 

 

José Monteiro

 

[Texto publicado no jornal A Guarda na quinta feira 05.07.2018]

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