A poesia quer-se a horas decentes
para o Luís Filipe Cristóvão
Éramos os últimos
no café quando decidimos
regressar.
Os nossos passos — trocados
pela hora a mais que a lei do tempo
impõe — percorreram as ruas
desertas, onde a qualquer momento
esperei ver um coiote
atravessar-se no caminho,
não perguntes porquê.
No hotel entrámos a rir,
a falar alto.
Evocávamos sem saber
as ninfas desse rio Tago
cujo nome soa melhor
em português.
Até que alguém apareceu
e pediu silêncio.
Por qualquer motivo tínhamos esquecido
que a poesia quer-se
a horas decentes.
manuel a. domingos, em Sulscrito, Revista de Literatura, nº 2, Faro: ARCA – Associação Recreativa e Cultural do Algarve, 2008, p. 12.