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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

A cidade com café no centro

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     A pequena cidade com uns poucos milhares de habitantes era um palco onde se encenavam diariamente retalhos de uma peça de relações humanas. Em poucas palavras, toda a gente se conhecia, todos faziam parte de um pequeno tear de relações mais ou menos próximas. Escapavam um ou outro jovem cujo rosto e corpo em crescimento motivavam o comentário em jeito de pergunta, “e o menino, é filho de quem?”. A rua principal, que no fundo eram duas ruas unidas por um largo, a rua Direita e a rua dos Paços, eram um passadiço e todas estas existências. Ao domingo uma boa parte da população saía para um café após o almoço e uma conversa com aqueles com quem, havia uma semana, não se encontravam. Seguia-se um passeio pelo passadiço que acabava no melhor jardim da cidade, ou na Praça Central. Havia três ou quatro cafés onde a população se reunia. Eram tempos em que não havia máquinas de café domésticas e ficar em casa numa tarde de domingo era uma opção triste. O Café Neves era um desses lugares de reunião diária e também semanal. Aquele onde os mais influentes, as figuras mais proeminentes tomavam o seu café diário. Lopes e outros funcionários, vestindo fatos pretos e camisas impecavelmente brancas, deslizavam pela enorme sala do Neves em passo acelerado, de bandeja em riste, repleta de chávenas aromáticas, doses de cafeína fumegante. Gritavam pedidos para um balcão a fervilhar trabalho e a chocalhar loiças, “saiam quatro, duas são carioca, uma é de limão”, numa linguagem meio codificada. Baforadas de fumo azul e ruído do tagarelar de fundo, misturados com o moinho do café em ação. Na mesa dos doutores, num lugar privilegiado e estratégico junto ao balcão, de onde se contemplava toda a sala, comentava-se as últimas da sociedade e duas ou três notícias de política. Sempre entre dentes. Isto porque na mesa ao lado costumava sentar-se Arnaldo Figueiredo agente da PIDE, sorriso irónico, olhar cortante e pistola debaixo do sovaco do casaco.

Carlos Adaixo, Café no Centro da Cidade