Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Sombra de Fumo

 

 

Fumo, no entanto, alguma coisa é:
Porém sombra de fumo não é nada
Para o olhar que não abranja até
Onde a matéria já não faz jornada...
 

 

Génios subtis (ou de ilusória fé)
Há, para quem a sombra assim gerada
É o irreal a palpitar ao pé
Da ansiedade duma chama ansiada.

 

Esses, quando uma acha se incendeia,
Vêem no fumo leve que se ateia
E na sombra que dele se produz,
 
As falas duma língua mal sabida,
A conversa do nada com a vida,
O diálogo do caos com a luz...

 

Augusto Gil, Sombra de Fumo

Fumo

 

 

 

O fumo é a grafia com que escreve
A mão devaneadora da quimera
No seu estilo curvilíneo, leve,
E vário como um céu de Primavera.
 
Eu dela (quem melhor a compreendera!)
Entendo só algum dizer mais breve...
Gente há que a compreende e a considera
Clara como o luar em chão de neve:
 
São os alheados, os que vão sonhando
Ininterruptamente, mesmo quando
Os chicoteia o máximo tormento;
 
Os que, já sem remédio, ainda esperam;
Os felizes da desgraça —, os que souberam
Pôr toda a sua fé num sentimento!...
 
Augusto Gil, Sombra de Fumo

 

 

 

 

 

IN PROMPTU PASTORAL

       A

        AMADEU DE FREITA S

 

«Muito vence quem se vence,

Muito diz quem não diz tudo,

Porque a um discreto pertence

A tempo fazer-se mudo.»

 

Copla do Infante D. Luís

Sob este céu criador

De manhã virgiliana,

Apetece ser pastor

E tocar frauta de cana;

 

 

 

Não pastor de autos de amor

De églogas frias e velhas,

Mas verdadeiro pastor

De verdadeiras ovelhas...

 

 

 

Não conhecer o talento

Nem nada do que se ensina.

Esta dor do entendimento

É pior que se imagina...

 

 

Guiar o meu coração

Num ingénuo cristianismo.

Esta civilização

É cheia de pessimismo.

 

 

 

Comer pão negro, pão duro,

Beber o leite das piaras.

Pão de centeio é escuro

— Mas põe as almas às claras...

 

 

 

Amar alguma pastora

Com palavras e com obras.

Estas senhoras de agora

São mais falsas de que as cobras...

 

 

 

E ver criar com carinho,

Com cuidados infinitos,

À companheira, um filhinho...

E às ovelhas, borreguitos...

 

 Augusto Gil, Luar de Janeiro

 

 

Manhã no campo

Manhã no campo. O som, a luz, o aroma, a cor,
Fundem-se alegremente em galas festivais.
A luz por todo o espaço, o aroma em cada ílor,
O som na passarada, a cor nos vegetais.


É toda a natureza um êxtase de amor.
Por sob o céu, do tom das rosas outonais,
Concebe o lírio branco, a laranjeira em flor,
A abelha delicada, a pomba dos pombais.


O vento sul dissipa as brumas do nascente,
E como tem chovido a Primavera inteira,
Vai quase a transbordar o leito da ribeira.


O sol envolve o azul num longo beijo ardente
E pelo espaço vão, em fantasiosas linhas,
As boémias de além-mar, as meigas andorinhas.

 

 

Augusto Gil, Musa Cérula

QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM


 Boca talhada em milagrosas linhas,
 A luz aumenta com o seu falar.


 Esta manhã, um bando de andorinhas
 Ia-se embora, atravessava o mar.
 

Chegou-lhes às alturas, pela aragem,   
 Um adeus suave que ela lhes dissera,

— E suspenderam todas a viagem,
Julgando que voltara a Primavera...

 


Augusto GilLuar de Janeiro.
 

A MINHA MÃE

 

 

 As ilusões semelham-se a um colar
 De pérolas alvíssimas, de espuma.
 Se o fio que as segura se quebrar,
 Caem no chão, dispersas, uma a uma.

 

 Caem no chão, dispersas, uma a uma,
 Se o fio que as segura se quebrar;
 Mas entre tantas sempre fica alguma,
 Sempre alguma, suspensa, há-de ficar.

 

 Das minhas ilusões, dos meus afectos,
 Longo colar de amores predilectos,
 Muitos rolaram já no pó também.

 

 Um só dentre eles não cairá jamais:
 Aquele que eu mais prezo entre os demais,
 — O teu amor santíssimo de Mãe.

 

                             Augusto GilMusa Cérula.