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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

A lição de poesia . 3

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

 

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis - naturezas vivas.

 

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

 

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

 

João Cabral de Melo Neto

 

[Poema encontrado aqui.]

Lição de poesia.2

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

 

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

 

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

 

João Cabral de Melo Neto

Recordo ainda ...

Recordo ainda...
E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa.
Que deixavam, sempre,de lembrança,
algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de desesperança...
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta.
Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui...
Mas,aí,
Embora idade e senso eu aparente,
não vos iluda o velho que aqui vai:
eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino...
Acreditai!
Que envelheceu um dia de repente".

Mário Quintana (poeta brasileiro)