Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Sempre distante amor e perto anseio

 
 
Sempre distante amor e perto anseio,
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.

De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.

São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.

Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.



Maria Ângela Alvim

ELE HÁ TANTA MULHER ...

Ele há tanta mulher! mas por que fantasia
Entre tantas, só uma a nossa simpatia
Distingue, escolhe e quer! Uma só avassala,
Nos dulcifica o olhar e nos perturba a fala!
Quando ela passa, o ar tem um perfume casto,
Embriaga o sorrir! Quando nos olha, o vasto
Campo negro do céu, cheio de tanta estrela,
Nenhuma tem, com luz,que imite os olhos dela!
Em tudo nos parece extraordinário ser:
Na graça do andar, no mimo do dizer;
Tudo nela é tão bom, tão engraçado, ilude,
Que a própria imperfeição transforma-se em virtude!
Quando aparece, a alma alegra-se, tão cheia
De luz,como ao domingo o adro duma aldeia!
Quando foge, se afasta, o nosso pensamento
Vai atrás dela louco e carinhoso e atento,
A recordar-lhe o ar, a graça, o todo belo,
O som da sua voz, a cor do seu cabelo,
O que empresta à saudade essa doce tortura...
Quando ela chora, ó céus! que hórrida amargura!
É como se o mar todo, em lágrimas desfeito,
Caísse,sem cessar,dentro do nosso peito!
Ele há tanta mulher! mas por que fantasia
Entre tantas só uma a nossa simpatia
Distingue, escolhe e quer!

 

Marcelino Mesquita

POESIA

A um poeta

                       

 (surge et ambula)

 

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

 

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...

 

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

 

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

 

                                                                 Antero de Quental
 

Manuel António Pina

O Resto é Silêncio ( Que Resto?)

Volto, pois, a casa. Mas a casa,
a existência, não são coisas que li?
E o que encontrarei
se não o que deixo: palavras?

Eu, isto é, palavras falando,
e falando me perdendo
entre estando e sendo.
Alguma vez, quando

havia começo
e não inércia,
quando era cedo
e não parecia,

as minhas palavras puderam estar
onde sempre estiveram:
no apavorado lugar
onde sou silêncio.

 

"Poesia Reunida"


Oiço:  http://www.youtube.com/watch?v=OpExb2hCYTs

 

Amor como em Casa - Manuel António Pina

 

 

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

"Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

NATAL (José Régio)

[retirado de: www.oracaovirtual.com.pt/.../presepio.jpg]

 

Com este poema termino a homenagem que nestes dias fiz ao grande escritor José Régio e aproveito para desejar a todos os amigos e frequentadores deste "sítio" um

Santo Natal

cheio de paz e harmonia.

 

  

 
 
Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.
 
Distância Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.
 
Os que te dizem não,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Senão seu olho cego, ouvido surdo?
 
Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.
 
Da nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade,
Que, Verdade de Sempre, tu nos dês.
 
Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que não te apagas,
Rompe mais uma vez na noite, que não é
Senão o dia de outras plagas.
 
Perpétua Luz, Contínua Oferta
À nossa escuridade interna,
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.
 
Dezembro de 1964
 
Diário de Notícias

Conto - José Régio

 

Vai o menino só na estrada grande,

 

Grande e medonha entre pinhais sombrios,

 

Entre uivos ruivos, roucos e bravios

 

Arranhando o silêncio que se expande...

 

 
A mãe dissera-lhe: - "Ó menino, ande

 

Longe das selvas, dos fundões, dos rios..."

 

E avós, irmãos, amigos, primos, tios:

 

- "Menino, vá por onde a gente o mande!"

 

 
Mas o menino foi desobediente.

 

E andou por vias ínvias ou sem gente,

 

Pela mão de enigmáticos destinos.

 

 
Saltar-lhe-ão lobos vis e cães de el-rei...

 

- Foi pondo o ouvido em terra, que escutei

 

Lobos uivar e soluçar meninos.

 

 
Biografia