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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

O Beijo e a Lágrima

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Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiasmado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.

.

Mia Couto

Palavras

"As palavras são imperfeitas quando tentam dizer aquilo que é maior do que elas. São imperfeitas também quando tentam dizer aquilo que parece infinito, dependendo da proporção. Nesse caso, as palavras são dedos que tentam apanhar uma migalha, fazem a forma de beliscá-la, mas deixam-na lá, como se fossem inúteis."

 

José Luís Peixoto, Em teu ventre

Lugares da Infância

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Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

Manuel Pina, Um Sítio onde Pousar a Cabeça

Pequeno Poema

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Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouquceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, Serra-mãe

[Este poema anda pela net erradamente atribuído a José Régio.]

Ícaro

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 (1901-1969)

 

A minha Dor, vesti-a de brocado, 
Fi-la cantar um choro em melopeia, 
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado, 
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a. 

Por longo tempo, assim fiquei prostrado, 
Moendo os joelhos sobre lodo e areia. 
E as multidões desceram do povoado, 
Que a minha dor cantava de sereia... 

Depois, ruflaram alto asas de agoiro! 
Um silêncio gelou em derredor... 
E eu levantei a face, a tremer todo: 

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro! 
E, misérrima e nua, a minha Dor 
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo. 

José Régio, Poemas de Deus e do Diabo

Chove...

 

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(1900-1985)

 

Chove...


Mas isso que importa!, 
se estou aqui abrigado nesta porta 
a ouvir a chuva que cai do céu 
uma melodia de silêncio 
que ninguém mais ouve 
senão eu?


Chove...


Mas é do destino 
de quem ama 
ouvir um violino 
até na lama.

 

José Gomes Ferreira

“A poesia é a arte de resistir ao tempo.”

 

“Sinto-me uma obra dos outros no sentido em que sou construído pela ternura, pela confiança, pela esperança dos outros.” (José Tolentino Mendonça)

 

     Conheço este poeta há algum tempo e, desde que comecei a ler a sua poesia, senti que nela havia algo de diferente. Uma poesia de cariz humano, refletindo sobre as angústias do homem, mas de um modo positivo e optimista. Nos seus poemas há uma síntese de vários poetas do século XX, começando pelo inevitável Pessoa, mas também a procura persistente da palavra exacta como Eugénio de Andrade, ou uma espécie de saudosismo à Teixeira de Pascoaes e ainda uma tenacidade perante a vida e os valores cristãos mais relevantes na linha de Ruy Belo. Rigorosa e sintética será então a sua poesia. Ou nas suas palavras: a poesia é a arte de resistir ao tempo.

      Quem é afinal este poeta pensador que o Papa quis como pregador para fazer o seu retiro quaresmal? Nascido na Madeira, em 1965, entrou para o Seminário aos 11 anos, por vocação: “A questão vocacional colocou-se muito cedo. Era uma questão relevante para mim desde miúdo”.Aos 16 anos escreveu o seu primeiro poema, A Infância de Herberto Hélder, poeta com quem partilhava a naturalidade madeirense e que admirava profundamente. “Aos 16 anos não sabia nada. Só sabia que amava o Herberto Hélder”, disse numa entrevista ao Público (11.12.2012).

     Em 1990 foi ordenado sacerdote e publicou o seu primeiro livro de poesia: Os Dias Contados. Foi então para Roma estudar Ciências Bíblicas completando o seu percurso académico na Universidade Católica de Lisboa com o Doutoramento em Teologia Bíblica. È professor de teologia e atualmente Vice-Reitor da Universidade Católica. É também consultor do Conselho Pontifício da Cultura, desde 2011. Como biblista afirmou: “A Bíblia é um grande poema. Tem uma dimensão literária. Isso também lhe dá uma grande carga revelatória. Torna-a um livro intemporal. A Bíblia não é um catecismo. Não acho que se deva entender literalmente a Bíblia. A Bíblia precisa de interpretação.” (Público)

     Afinal este escritor é Padre ou Poeta? É um HOMEM de cultura integrado no seu tempo e com uma mensagem inovadora em termos da Igreja. Como disse Francisco José Viegas, “O discurso dele é inovador para muita gente que não é católica, nem sequer cristã”. E, afinal, o que pregou ao Papa? Na primeira meditação citou Fernando pessoa e Lev Tolstoi para dizer que devemos aprender a desaprender; na segunda citou Clarice Lispector e Simone Weil sublinhando a importância de ter presentes os poetas no estudo da teologia. No último dia o Papa agradeceu as suas intervenções dizendo:

“Obrigado, padre, por nos falar da Igreja, este pequeno rebanho. E também por nos ter avisado para não nos encolhermos no nosso mundanismo burocrático e também por nos lembrar que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito também voa e trabalha fora dela, Com as citações e com as coisas que nos contou, mostrou-nos como ele [o Espírito Santo] trabalha nos não crentes, nos pagãos e em pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o Espírito de Deus, e é para todos.”

     A sua obra tem sido distinguida com vários prémios, entre eles o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998), o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE (2016). Contudo o melhor prémio é sem dúvida a unanimidade da crítica e os milhares de leitores da obra deste Padre que é também professor, poeta e ensaísta.

 

Texto publicado no jornal "A Guarda"  de 29.03.2018

LUA CHEIA

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nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.
.
sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
- é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canções ao acordar do ano.
.
vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
- vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.
.
hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.

 

Vasco Gato, Um Mover de Mão

PÁSCOA

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Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.

Miguel Torga, in Diário XVI

Calvário

 

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[VASCO FERNANDES (1501-1542)] 


Jesus expira sobre a montanha sagrada
Pregados ao Madeiro, os braços magros, nus.
Treme o solo, e do céu cai a noite fechada.
O Sol não manda à Terra uma réstia de luz.

Tremendo em convulsões, de lágrimas banhada,
Madalena soluça, abraçando-se à cruz,
Enquanto a Mãe de Deus, muda, petrificada,
Hirta de dor, contempla o corpo de Jesus.

Ante a morte de um Deus, em fúria os elementos
Rasgam raios o espaço e ribomba o trovão,
E um clamor de vingança ecoa aos quatro ventos.

E entre tanta revolta e tanta maldição,
Jesus lança em redor, sem ódio e sem lamentos,
Seu compassivo olhar de infinito perdão!

 

Bastos Tigre - poeta brasileiro (1882-1957)