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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

MUSA e ANTEU

Chaves, 20 de Setembro de 1963.

MUSA AUSENTE

Falta a luz dos teus olhos na paisagem:

O oiro dos restolhos não fulgura.

Os caminhos tropeçam, à procura

Da recta claridade dos teus passos.

Os horizontes, baços,

Muram a tua ausência.

Sem transparência,

O mesmo rio que te reflectiu

Afoga, agora, o teu perfil perdido.

Por te não ver, a vida anoiteceu

À hora em que teria amanhecido...

 

Torga, Diário XI

S. Martinho de Anta, 20 de Setembro de 1968 — De todos os mitos de que tenho notícia, é o de Anteu que mais admiro e mais vezes ponho à prova, sem me esquecer, evidentemente, de reduzir o tamanho do gigante à escala humana, e o corpo divino da Terra olímpica ao chão natural de Trás-os-Montes. E não há dúvida deque os resultados obtidos confirmam a sua veracidade. Sempre que, prestes a sucumbir ao morbo do desalento, toco uma destas fragas, todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias. É como se recebesse instantaneamente uma transfusão de seiva. Sei, contudo, que o prodígio não aconteceria sem a força amorosa do meu apelo, que as virtudes terapêuticas da fonte estão  ambém na certeza da sede de quem bebe. A fé que no Evangelho move montanhas, é, claramente, a mesma que na Grécia, de uma maneira mais bela e profunda, permitia a cada mortal ressuscitar no seio da própria matriz. Por isso, à medida que repito o gesto salutar, vou conferindo o grau da minha crença nele. E quando chegar o dia em que a debilidade do ânimo seja tanta que já não consiga sequer confiar no valor do condão? Finos, os antigos entenderam logo de entrada que o fabuloso não é mais do que a realidade aureolada. Que basta um homem ficar com a vontade tolhida para que Héracles — um dos muitos disfarces da morte — o vença irremediavelmente. Mas como compreenderam ao mesmo tempo que convinha em todas as circunstâncias preservar a beleza das alegorias, o carrasco só levanta a vítima nos ombros, e torna assim impossível o contacto miraculoso, no preciso momento em que ela não é mais do que a encarnação da indiferença.
    Devotado de corpo e alma a estes montes, não concebo desgraça maior do que deixá-los para sempre na sombra de uma saudade desiludida. E tento viver na esperança de que o Héracles que tenha de me suspender impiedosamente nos braços fatídicos se antecipe à hora marcada no relógio do destino, e ganhe a partida a custo, comigo ainda a espernear e a ver a salvação a dois palmos, sem conseguir atingi-la de maneira nenhuma, por mais desesperadamente que estenda a mão confiada...
Diário XI