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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Beira

Oliveira do Hospital, 22 de Junho de 1944 — Quem quiser ver a Idade Média ao natural, venha aqui, a esta espantosa Capela dos Ferreiros. A cavalaria, a religião e o amor, tudo na sua pureza natural.

A cavalaria, numa pequena pedra maravilhosa, que é um documento único da nossa estatuária guerreira; a religião, num retábulo fantástico, que é toda uma teologia; o amor... Mas o amor prefere talvez uma balada:

ROMANCE

Um cavaleiro e uma dama,

Cada qual na sua cama,

Lado a lado;

Mas voltados,

De modo que ele a não veja

E ela tenha de o ver.

Isto à sombra de uma igreja

Que os há-de absolver!

Traição dela?

Excesso dele?

Segredos que o tempo leva,

Mas deixam mágoas de pedra...

Até numa sepultura

A raiz duma amargura

Encontra o sol de que medra.

Dorme, dorme, cavaleiro,

Com tuas barbas honradas;

Dorme, também, linda dama,

Com tuas contas passadas

E teus véus medievais.

E o pecado

Deixai-o assim acordado

Para exemplo dos mortais.

Torga, Diário III