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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

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Padre António Vieira

A memória das palavras

Padre António Vieira

 

Amar a quem me aborrece, é ser humano com quem o não é comigo: aborrecer a quem me ama, é ser cruel com quem mo não merece: o ser humano é ser homem; o ser cruel é ser fera: logo aborrecer a quem nos ama, tanto mais dificultoso é, quanto mais repugnante à natureza. (P.e António Vieira, “Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma “)

 

    A literatura, embora não devesse, também está sujeita a modas, a vagas de fundo. Os escritores que muitas vezes andam esquecidos, voltam à ribalta quando se faz uma edição das suas obras ou quando se assinala uma efeméride. Não que isto seja mau. O mau é que autores essenciais andem muito tempo arredados do grande público e só nessas ocasiões apareçam novamente. Vem isto a talho de foice pela reedição das obras completas do Padre António Vieira.

     A publicidade, as campanhas de promoção vêm repor este “imperador da língua portuguesa” (no palavrar de Fernando Pessoa) no lugar que lhe compete em termos da literatura portuguesa. A sua prosa é sem dúvida o apogeu da nossa escrita e isto - lembremos -  durante o século XVII. A sua arte do domínio da língua foi excelente e aquilo que ele foi capaz de fazer dizer à língua nunca mais ninguém o conseguiu com tamanha plenitude. Deveria ser um autor de leitura obrigatória no ensino secundário não limitado ao “Sermão de Santo António aos Peixes”, mas com mais dois ou três exemplos de argumentação. E se os nossos políticos lessem e assimilassem os seus textos oratórios não fariam discursos tão balofos e sem ideias, nem tão vazios de sentido. A sua grandeza é comprovada pelos testemunhos que lemos muitas vezes de autores que confessadamente se dizem ateus. José Saramago no seu amor à língua portuguesa (o mesmo não se poderá dizer em relação a Portugal) afirmou sobre o Padre Vieira: “A língua portuguesa nunca foi mais bela que quando a escreveu esse jesuíta.” E outro confesso ateu e grande poeta do século XX, Ary dos Santos, tem a melhor declamação do “Sermão de Santo António aos Peixes” de todos os tempos. Servem estes dois exemplos para corroborar o valor unânime à volta desta grande figura das nossas letras e o maior português do século XVII. A sua figura é ímpar pois além de “sermoeiro” reconhecido internacionalmente (recorde-se a sua fama em Roma) com os dotes excelsos de maior orador da época, foi também ecologista, pacifista, embaixador de Portugal, político, economista e defensor dos índios entre outros atributos e atividades. Mas o que atrai mais na sua figura é a verticalidade que sempre mostrou perante os poderosos e que lhe valeu a passagem pelos cárceres da Inquisição, por acaso ainda bem, pois lhe permitiu rever os seus sermões e prepará-los para a publicação posterior. A atualidade dos seus escritos é gritante. Veja-se este exemplo: “O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república, são os imoderados impostos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa; porque é tributo de todos.” (Sermão de Santo António, Lisboa, na Igreja das Chagas). Ou este: A mais poderosa inclinação, e o maior apetite do homem, é desejar ser. […] Não está o erro em desejarem os homens ser; mas está em não desejarem ser o que importa. (Sermão de Todos os Santos, no Convento de Odivelas).

Para José Eduardo Franco, diretor da edição acima referida com Pedro Calafate, o Padre António Vieira é «…um homem atual que lutou contra a escravatura pela reforma da Inquisição um crítico das más práticas políticas da divisão da sociedade entre cidadãos de primeira e de segunda defensor da abolição da diferença de direitos dos chamados cristãos novos e cristãos velhos capaz de fazer um diagnóstico de Portugal e da mentalidade portuguesa do seu tempo e que dizia que a verdadeira fidalguia estava na ação. Ele faz muito sentido neste tempo de crise em que vivemos.»

 

Gonçalves Monteiro

 

[texto publicado no jornal "A Guarda" - 16.05.2013 que também pode ser lido aqui.]

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