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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Spes


 



A noite ri pálida e transparente

por trás de uma vidraça de loucuras

onde os anjos brincam de crianças

e os homens de tristezas e venturas.

 



O lume das estrelas cai oblíquo

na praça das canções por inventar

e, nas ruas da cidade, o orvalho

escorre entre as gotas do luar.

 



O sonho das crianças surge ingente

no ar límpido da madrugada

e sente-se pairar um quase-tudo

onde a noite nasce já realizada.

 



Um novo dia, nova primavera,

aprimora-se forte no alvorecer

e se as promessas não forem vãs

o mundo vai voltar a amanhecer.

 



J M

silêncio
















 



tenho comigo um silêncio

repousante

um silêncio quente e frio

ansiante

 



tenho-o no centro de mim

anquilosado

mesmo que o procure não o sei

em qualquer lado

 



gosto dele assim contraditório?

talvez não

pode estar no centro da cabeça

mas fugiu do coração

 



triste tempo triste sina triste lua

onde a alegria?

nem paz nem furor nem alma

onde o sol onde o dia?

 



J M











 





 
























 




 













Quem?


 



“ - É simples, é bela, é pura,

é a mais santa criatura

que entrou na minha vida.

 



Ela é a minha loucura,

na dor e na ventura

é-me igualmente querida.”

 



" – Quem é ? – quiseste saber,

mas eu não quis dizer

porque é só meu o segredo.

 



“ – É trigueira, é morena?”

“ – Não, não é!” “ – Pois é pena,

- respondeste quase a medo –

porque se fosse morena

ou da cor da açucena

seria muito melhor.”

 



“ – Não te dê isso cuidado. –

respondi – pois, com ela ao lado,

fica-se moreno de amor.”

 



J M 

Dias sem glória


 



Há dias em que o sol, quando nasce, não nos acorda;

há dias em que as horas são angústias nascidas na alma;

há dias em que os nervos em franja rebentam facilmente;

dias em que os outros nos fazem sombra e nos desestabilizam;

há dias em que o bom humor é um mito inatingível;

há dias em que o nevoeiro destrói qualquer alegria mesmo passageira;

há dias em que os ossos doem até à medula;

há dias em que as ideias nos deixam paralisados;



há dias ....



hoje é um desses dias.

 



JM

Gládio


 



Momentos críticos, horas amargas

há sempre na vida de qualquer ser,

mesmo quando nos ferem as ilhargas

precisamos ter força para vencer.

 



Homens, mulheres – que importa? – pessoas

(bem no fundo somos todos iguais!)

umas vezes más, outras vezes boas,

umas vezes simpáticas, outras infernais.

 



Encara de frente a vida. Ergue-te! Luta!

Sê forte, animoso e terás a vitória …

Dos tristes e fracos não reza a história!

 



E, se no mais aceso da disputa,

fraquejar, vacilando, tua conduta,

continua, persiste e verás a glória!

 



J M

Sensações 6

 

Caía a tarde lentamente

e as sensações oblíquas de sol

inundavam o poente

da minha alma quase girassol.

 

Procurei a explicação da noite,

na paixão, na sensação vivida,

mas nada há em mim que se afoite

a redigir uma resposta sentida.

 

Finjo calma na minha mente

mas na alma só bulícios e agitação

a tarde breve me consente.

 

E assim me embalo na ilusão

e não encontro realmente

respostas para o coração.

 

JM

Precário

 
 

Tudo é tão precário

que a nuvem passageira

ora passando no céu outonal

é todavia mais lenta

que o ser humano em si.

 

Casmurro e otário

sentado no precipício, à beira

da vertigem de ser banal,

o ser humano sustenta

a sensação de ser sem fim.

 

Mesmo vendo o rio correr

sem cessar para o seu fim

não consegue entender

que o destino é sempre assim:

 

Estéril vida sem sentido,

corre-corre continuado,

intervalo de nascer prometido

com a morte sempre a seu lado!

 

JM

Terra-mãe


 



A paisagem deslumbrante dos teus olhos

refletia a luz juvenil da alvorada

e a fecundidade fértil sem abrolhos

rescendendo aos aromas da terra molhada.

 



A seara dos teus cabelos ondulantes

meio madura num junho primaveril

refletia as luzes matutinas coruscantes

e lembrava a pujança de ufano abril.

 



O repouso do teu corpo ternurento

deitado numa realidade refrescante

semiadormecido no amparo do relento

refletia uma serenidade ambulante.

 



No teu ser, tua beleza, tua paixão

corre um rio de águas cristalinas

da terra mãe a insaciável sedução

e todas as manhas e artes femininas.

 



J M

Sensações


 



Deito-me no rio do tempo

E vogo ao sabor das sensações.

 



Deixo-me ir na corrente

Navego sem destino nem razões

 



Perfaço dias de ternura

Antes de ter a exacta noção

 



De que a vida é madraça

E nos rouba … o perfeito coração.

 



JM

Dias


 



Aponta a hora final,

O horizonte oblíquo da vida;

Raiando surge a manhã

Acima da matéria definida.

 



Os limites são de espaço concreto

Na imaginação oca de sentido

E as partes loucas de nós

Trazem a ilusão de um ócio vivido.

 



Criação de mim para mim

Parte integrante de nós,

Sublimites de um rio sem foz

Abstração de meta sem fim.

 



Loucura … onde existe?

Sai às vezes, por engano, um chiste

De inteligência baça e banal

E nas folhas das flores dos fenos

Passa voando o vento veloz.

 



Dispersos na pressa louçã

Corremos cortando a vida

Suportamos o sussurro nas sebes

E a amargura mágica da manhã.

 



…………………………..

 



Magia esfarrapada no sol

Do dia que a meio vai

Borboleta morta no arrebol

Que no chão desfeita cai.

 



J M