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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Fernando Namora (1919-2019)

Poema da Utopia

A noite caiu sem manchas e sem culpa. 

Os homens tiraram as máscaras de bons actores. 

Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde. 

No alto, a utópica lua, vela comigo 
e sonha inutilmente com a verdade das coisas. 

- Noite! Deixa-nos também dormir... 

Fernando Namora, Relevos

As lâminas do tempo

sincelo.jpg

 

As lâminas do tempo
rasgam a saudade líquida
do passado

 

afiadas entram na pele da memória
e revivem-nos os rostos
daqueles que amamos e partiram

 

ficam os farrapos das lágrimas
à flor da memória-saudade
assomando às janelas da alma

 

mas o presente é nosso
e nessas lâminas agudas
construímos o futuro do coração.

 


J M – 10.01.2017

SOPHIA (1919-2019)

Resultado de imagem para sophia de mello breyner

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

 

Sophia, Coral

SOPHIA (1919-2019)

"PRANTO PELO DIA DE HOJE"

Nunca choraremos bastante quando vemos 
O gesto criador ser impedido 
Nunca choraremos bastante quando vemos 
Que quem ousa lutar é destruído 
Por troças por insídias por venenos 
E por outras maneiras que sabemos 
Tão sábias tão subtis e tão peritas 
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto

Fernando Namora (1919-2019)

Balada de Sempre

Espero a tua vinda 
a tua vinda, 
em dia de lua cheia. 

Debruço-me sobre a noite 
a ver a lua a crescer, a crescer... 

Espero o momento da chegada 
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas... 

Rasgarás nuvens de ruas densas, 
Alagarás vielas de bêbados transformadores. 
Saltarás ribeiros, mares, relevos... 
- A tua alma não morre 
aos medos e às sombras!- 

Mas..., 
Enquanto deixo a janela aberta 
para entrares, 
o mar, 
aí além, 
sempre duvidoso, 
desenha interrogações na areia molhada... 

Fernando Namora, Relevos

SOPHIA (1919-2019)

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão. 
Porque os outros têm medo mas tu não. 


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não. 

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não.

 

Sophia, Mar Novo

SOPHIA (1919 - 2019)

sophia.jpg

Esta gente

 

Esta gente cujo rosto 
Às vezes luminoso 
E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos 
Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto 
De luta e de combate 
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem 
O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
Um país ocupado 
escreve o seu nome

 

E em frente desta gente 
Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
Dum país liberto 
Duma vida limpa 
E dum tempo justo

 

Sophia, Geografia

SOPHIA (1919 - 2019)

Com fúria e raiva acuso o demagogo 
E o seu capitalismo das palavras 

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada 
Que de longe muito longe um povo a trouxe 
E nela pôs sua alma confiada 

De longe muito longe desde o início 
O homem soube de si pela palavra 
E nomeou a pedra a flor a água 
E tudo emergiu porque ele disse 

Com fúria e raiva acuso o demagogo 
Que se promove à sombra da palavra 
E da palavra faz poder e jogo 
E transforma as palavras em moeda 
Como se fez com o trigo e com a terra 

Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Nome das Coisas" 

Caducidade

Está serena a tarde:
desprendem-se-lhe frias
as palavras
que se acomodam 
nos lábios simpáticos 
do vento nordeste.

 

Lá para o alto, no castelo,
luzem ainda os raios preguiçosos
da lua nascente
mas breve virá o gélido nevoeiro
e destruirá a lucidez da noite incipiente.

 

E as palavras afinal dirão apenas 
aquilo que o ouvinte distraído
com o ecrã cintilante
do sedutor telemóvel
o deixar perceber: as palavras humilhadas
fugirão com o gélido nevoeiro
na ignorância imposta 
pelas novas seduções.

 

J M – 2.1.2017

 

*Foto de Carlos Adaixo!

A imagem pode conter: céu e ar livre

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa 
Nem árvores nem casas existiam 
antes que tu tivesses palavras 
e todo eu fosse um coração para elas 
Invento-te e o céu azula-se sobre esta 
triste condição de ter de receber 
dos choupos onde cantam 
os impossíveis pássaros 
a nova primavera 
Tocam sinos e levantam voo 
todos os cuidados 
Ó meu amor nem minha mãe 
tinha assim um regaço 
como este dia tem 
E eu chego e sento-me ao lado 
da primavera 

Ruy Belo, "Aquele Grande Rio Eufrates" 

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