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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

O Poema


O poema me levará no tempo 
Quando eu já não for eu 
E passarei sozinha 
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá 
Às searas 

Sua passagem se confundirá 
Com o rumor do mar com o passar do vento 

O poema habitará 
O espaço mais concreto e mais atento
 
No ar claro nas tardes transparentes
 Suas sílabas redondas 

(Ó antigas ó longas 
Eternas tardes lisas) 

Mesmo que eu morra o poema encontrará 
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas 
De funda e devorada solidão 
Alguém seu próprio ser confundirá 
Com o poema no tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto

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