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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Mãe


Dantes, quando a deixava, 
As férias já no fim, 
Ela vinha à janela 
Despedir-se de mim. 

Depois, quando na estrada, 
Olhava para trás, 
Deitava-me ainda a bênção 
Para que eu fosse em paz. 

Dali não se movia, 
À vidraça encostada, 
Até que eu me perdia 
Já na curva da estrada. 

Hoje, se olho, calo-me 
E baixo os olhos meus! 
Já não vem à janela 
Para dizer-me adeus!

 

 

Alfredo Brochado

 

 

[Há 97 anos - obrigado!]

À Chegada do Inverno


Nem sempre 
a vida acolhe ou alimenta 
os nomes do passado, o seu abismo 
repetido num sonho, na mais lenta 
assombração, no mais íntimo sismo 

Do que chamamos alma. Não existo 
sem essa febre mansa que relembro 
enquanto as nuvens cobrem tudo isto 
com o frio escuro de um dezembro 

Longe de mim, de ti, de qualquer lei 
ou juízo a que dêmos um sentido: 
o que finjo saber é o que não sei 
e as palavras colam-se ao ouvido. 

 

Fernando Pinto do Amaral

Aviso a um navegador de jardins feio! - Daniel Rocha

 (a Manuel António Pina)


Alimenta-te da rosa!
Busca-a incessantemente
Perscrutando montes
E ribeiros
E até algumas
Lixeiras.

Coloca-a na grosa
Afinando as suas
Curvas petalares
E multiplicando
Os seus ais.

Relembra-lhe a
Infância, semente
De tempos perdidos
Envolta em manto
Morto e
Nauseabundo.

Então, talvez...
Nota que a sua beleza
Passa, rápida e mutável,
E a tua solidifica,
Onde ninguém a vê!

(20/01/2010)

LONDRES - manuel a. domingos


 

nunca cheguei a escrever um poema sobre

a cidade ser à noite um carrossel

de luzes. nem outro sobre

a fotografia onde fiquei com ar

envergonhado. ou sobre o frio e

o passeio por Hyde Park, onde

pássaros vieram comer às tuas mãos

e eu deixei fugir alguns versos

só para te poder fotografar. ou sobre

a casa estilo vitoriano, que prometeu

ocultar todas as palavras que dissemos

um ao outro, quando ao deitar

nos encolhíamos debaixo de

vários cobertores e mesmo assim

tínhamos frio. ou o definitivo,

aquele que falaria sobre Greenwich

e o meridiano que me ensinou a importância

do tempo que sempre falta, principalmente

quando numa das pontes quis dizer amo-te,

mas havia um autocarro para

apanhar. e era já o último.

 

 

manuel a. domingos in mapa

A curva

Alguém tem de aparecer naquela curva
mesmo que se não saiba o que é depois
se estrada larga ou morte ou água turva
se solidão ou um a ser já dois.

A vida toda em sonho e esperar sempre
naquela curva não importa quem
alguém que diga o quê e saia ou entre
ainda que depois não mais ninguém.

Alguém há-de aparecer alguém que aponte
quem sabe se um aquém ou se um além
que nada mais senão o horizonte
daquela curva onde se espera alguém.

(Manuel Alegre, Doze Naus)

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