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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Sonho

 

Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade
Solto para onde estás, e fico de ti perto!
Como, depois do sonho, é triste a realidade!
Como tudo, sem ti, fica depois deserto!

 

Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.
Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma:
De cada estrela de ouro um anjo se debruça,
E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.

 

Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.
Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.
E, como sobre um leito um alvo cortinado,

Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.

 

 

Porém, subitamente, um relâmpago corta
Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta
E, sorrindo, serena, apareces à porta,

Como numa moldura a imagem de uma Santa...

 

Olavo Bilac

 

[Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu em 1865, no Rio de Janeiro, e faleceu no mesmo local em 1918.]

A lição de poesia . 3

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

 

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis - naturezas vivas.

 

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

 

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

 

João Cabral de Melo Neto

 

[Poema encontrado aqui.]

Lição de poesia.2

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

 

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

 

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

 

João Cabral de Melo Neto

Amor, quantos caminhos - Pablo Neruda

 

Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa cravos.

 

[Nome literário de Neftalí Ricardo Reyes.(1904–1973) Chileno. Prémio Nobel de Literatura em 1971.]

 

O tímpano e a pupila

Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora que o tempo se desossa, que as pedras que piso se me enterram na memória e os caminhos se me aguçam na alma como lâminas, o pão molhado nas feridas, o pão ele próprio já também uma ferida, agora que o tempo, que já tanto compararam a um rio, mais não é do que uma leve exsudação nos muros, nas mãos, agora que o céu se encrespa e que pedaços de mundo arremessados com toda a força aos olhos revolteiam na treva antes de se extinguirem, mais magro do que a neve caminho, a alma aberta como uma ferida, ao longo da memória, onde se fundem o tímpano e a pupila.

 

Luís Miguel Nava,Poesia Completa

 

[Luís Miguel de Oliveira Perry Nava nasceu a 29 de Setembro de 1957 em Viseu e foi brutalmente assassinado a 10 de  Maio de 1995 no seu apartamento de Bruxelas.]

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