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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

12 de Novembro de 1991

 (Rostros de Timor Leste - www.igadi.org)

 

Quando a terra se tinge de vermelho, e a raiva incontida explode;

Quando a água empalidece de sangue e o mar grita fúrias revoltadas;

Quando  a montanha acolhe humanamente os que os bárbaros escorraçam das cidades;

Quando as árvores abrigam os exilados das casas destroçadas e saqueadas;

Quando a razão já não esconde a emoção e a injustiça brada sempre mais alto;

Quando o dinheiro, as armas e o poder se impõem pela força à razão;

onde estás, humanidade, que não vejo em ti mais que horror, indiferença e barbaridade?!

Onde estás, ó RAZÃO, que não sinto em ti mais que frieza, impiedade e ambição?!

 

 

 

 (JMonteiro / Guarda - 12.11.91)

 

(Porque a memória das nações é curta e as barbaridades são facilmente esquecidas é bom lembrá-las com alguma frequência. Assim recupero este pequeno texto já publicado na imprensa, ad memoriam.)

 

Guarda, o melhor ar... frio!

Castanhas

 

 

Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

 

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

 

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

 

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

 

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.


Letra: Ary dos Santos

 

(Com um dia de atraso, mas elas aí ficam. Falta a jeropiga! Haja imaginação!!!)

 

O silêncio e a dor

  " Há ocasiões na vida em que a opção pelo silêncio é uma maneira de fugirmos de nós próprios, de retomarmos a paz talvez perdida e impossível de recuperar. É também uma maneira de não continuarmos a magoar aqueles que ofendemos, aqueles a quem provocámos sentimentos que não devíamos, aqueles a quem temos de pedir perdão. E, afinal, o silêncio também é uma forma de mostrarmos amizade. Já dizia Mahatma Gandhi:

"O homem arruína mais as coisas com as palavras do que com o silêncio".

  Nos últimos tempos, em que experimentei novas e agudas sensações de dor, o silêncio e a solidão ajudaram-me a repensar a vida. E, nesses momentos de dor, houve a companhia de alguém que sempre me ajudou, me acompanhou e me estendeu uma mão de compreensão, de perdão e de ... amor! Alguém a que nem sempre dei o devido valor; alguém que, apesar dos erros, perdoou esses mesmos erros; alguém que, apesar da perda de emprego, me animou e me ajudou a superar essa mesma dor.

 É no silêncio que se reconhecem as culpas / os pecados e se arranja força para pedir perdão deles, nem que seja através desse mesmo silêncio, embora exista a hipótese de ser visto como uma hipocrisia."      MG

 

 

"Guarda: o melhor ar... frio"

 

Com os mortos!

 (denisealves.wordpress.com)

 

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se páro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

 

Antero de Quental

 

"Guarda: o melhor ar... frio"

 

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