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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

PRENÚNCIO

Coimbra, 10 de Novembro de 1952.

PRENÚNCIO

Aqui estou como um vidente

À espera que chegue a hora...

Doente

Que na sua fé pressente

O milagre que o melhora.

São versos que eu adivinho

Antes da alucinação.

Versos que saem com força,

Num alto salto de corça,

De dentro da inspiração.

 

Torga, Diário VI

Inutilidades

Coimbra, 9 de Novembro de 1955.

ENTREGA

Inúteis como as flores tingidas de saudade

Que os vivos dão aos mortos;

Inúteis como as lágrimas que chora

A criança

Que se magoa;

Inúteis, simplesmente,

Aqui ficam meus versos

No regaço do tempo.

Preito,

Queixume,

Enfeite,

São tudo quanto havia

De mais puro

Dentro de mim.

E de mim os desprendo

E deponho

No colo do imundo feiticeiro

Que não vê,

Que não sente,

E que por fim mistura

A cruciante angústia do presente

Com a náusea futura.

 

Torga, Diário VIII

CINQUENTA ANOS

Coimbra, 15 de Julho de 1957.

MADRIGAL DOS CINQUENTA ANOS

Com as mesmas palavras do passado,

Digo que te desejo, vida!

E como um namorado

Que desmede a paixão, já desmedida,

Prometo

Ser-te fiel sem esperança.

Fiel à consciente

Temeridade

De amar intensamente

Sem mocidade...

 

Torga, Diário VIII

 Para quê dizer mais se não sou capaz de dizer melhor que o grande mestre; que melhor hino à vida e aos cinquenta anos que esse célebre madrigal feito poucos meses antes de eu nascer? Aí fica para o recordar e a sua importância na minha vida. E para também todos aqueles que contribuiram para o meu enriquecimento ao longo destes anos todos: uns desde que nasci, outros de "aquisição" mais recente, a todos o meu doce obrigado por aquilo em que me foram tornando. E porque não, se a música é uma grande ajuda na vida, recordar também uma excelsa canção que já foi cantada tanta vez e que continuará eternamente imorredoura na voz da sua autora Violeta Parra, mas que é igualmente bonita nas vozes de mulheres fabulosas como Joan Baez, Elis Regina ou Nana Mouskouri. AÍ fica também um pouco da letra.
.
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida, que me ha dado tanto.
 OBRIGADO À VIDA!!!!

Miuzela

(http://www.associacaoprofessorjpintopeixoto.org)

 

Miuzela, 7 de Novembro de 1971.

MANHÃ

Largo sorriso da terra

A festejar o sol nado;

Um arado

Aguça a ponta de ferro

Na luz macia,

Antes de começar o dia

De trabalho;

Por um atalho,

Vestido de lã churra,

Rola um rebanho, à frente

Do pastor paciente

Que o empurra.

 

Torga, Diário XI

 

...

Coimbra, 6 de Novembro de 1956.

PROCURA

Perdi-me tanto, que já não me encontro.

Agulha humana que se foi sumindo

No palheiro do tempo,

Hoje, amanhã, depois

— Aqui a meninice,

Ali a mocidade —,

Não houve sombra que me não cobrisse,

Nem sol que me trouxesse a claridade.

Mas não posso, nem quero conformar-me.

E como um cão fiel que escava a sepultura

Do dono,

Assim, desesperado,

Eu tento

Desenterrar

A imagem do que sou, de não sei que momento

Ou que lugar...

 

Torga, Diário VIII

Solidão?!

Assedasse, serra da Estrela, 5 de Novembro de 1961 — O que eu dava para ser o guarda-florestal que há pouco me recebeu como se estivesse em Marte e lhe aparecesse milagrosamente um semelhante! Encarava-me pela primeira vez, e nenhum amigo me olhou até hoje com tanta cordialidade e alegria. Desfaz-se a gente em sorrisos, abraços e mãozadas a vida inteira, para chegar à conclusão de que nunca sentiu na alma o contentamento simples de ver alguém.

 

Torga, Diário IX

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Coimbra, 5 de Novembro de 1965.

CAUDAL

Ergo a voz no silêncio hostil do mundo,

Como um galo que canta a horas mortas.

Nem me posso calar,

Nem posso amortecer

A força que faz dela um desafio.

A fonte brota, e tem logo ao nascer

O ímpeto dum rio.

E o rio não tem foz dentro de mim.

Some-se às vezes, não sei como e onde,

Mas reaparece.

E retoma de novo o curso desabrido,

Mais largo, mais barrento

E violento,

E sem que eu lhe descubra o íntimo sentido.

 

Torga, Diário X

Praia de Mira

(http://p.vtourist.com/)

Praia de Mira, 4 de Novembro de 1962.

INCITAMENTO

Remenda a tua rede, pescador!

Remenda as ilusões!

No maninho areal é que é sonhar!..

Ata e refaz a teia

Onde, queira ou não queira o mar,

Hás-de prender o corpo da sereia!

 

Torga, Diário IX

TERMO

 

Coimbra, 3 de Novembro de 1993.

TERMO

Pára, imaginação!

Não há mais aventura, nem poesia.

A hora é de finados,

Com versos apagados

Na lareira onde a fogueira ardia.

Pára, é da lei.

Agora é só cansaço desiludido

E memória teimosa que entristece

O nada que acontece

E o muito acontecido.

Pára, porque findou

O tempo intemporal

Do amor e da graça concedida

A quem nele, no seu barro original,

Modela a própria vida.

 

Torga, Diário XVI

Finados

Coimbra, 2 de Novembro de 1984 — Dia de mortos. E deixo voar a memória enlutada em várias direcções do país. S. Martinho, Espinhosa, Fajâo... É uma ronda calada, contida e pacificadora. Um encontro antecipado, grave e comungante, com as sombras que esperam por mim, acolhedoras, no reino do esquecimento. Somos mais dos que se foram do que dos que ficaram. Eles é que nos afiançam na vida, responsabilizando e inscrevendo na eternidade a natureza circunstancial dos nossos actos e dos nossos pensamentos. Condicionando pela força do seu mandato uma liberdade só aparentemente incondicionável.

 

Torga, Diário XIV

Novembro

Coimbra, 1 de Novembro de 1983

MEMÓRIA

 

De todos os cilícios, um, apenas,

Me foi grato sofrer:

Cinquenta anos de desassossego

A ver correr

Serenas,

As águas do Mondego.

 

 

Pínzio, l de Novembro de 1971 — Almoço numa tasca, depois de cinco horas de monte. Entra um casal de turistas a refrescar a garganta das securas de Castela, o homem reconhece-me e segreda à companheira:

— Sabes quem é o do canto?

A senhora olhou-me severamente, numa incredulidade ofendida, e eu, sem poder ocultar a minha própria realidade humana, correspondi-lhe com um débil sorriso culpado. E muito sinceramente. Sem querer, sujeitara a criatura a duas desilusões: a de me ver ali, e naquela figura. Em vez dum perfil para a eternidade, a imagem promíscua dum sujeito sujo e a matar a fome. E invejei a candura de uma velha amiga minha que durante a meninice viveu na mítica convicção de que todos os poetas, semideuses canoros, tinham morrido.

Torga, Diário

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