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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

NOCTURNO

Coimbra, 20 de Novembro de 1947.

NOCTURNO

Se a noite vem, dorme o teu sono justo.

A noite é como a terra da semente.

Seja qual for o custo,

Compra o teu dia, como toda a gente.

E, de manhã, desperta.

Brota da escuridão

A mesma flor aberta,

Mas com sonho na mão.

A não ser que, poeta e condenado,

Tenhas de noite que guardar a vida.

Então, vela, orvalhado,

Como semente que não tem guarida.

 

Torga,  Diário IV

...

Leiria, 19 de Novembro de 1939.

EXERCÍCIO ESPIRITUAL

Ouço-os de todo o lado.

Eu é que sou assim,

Eu é que sou assado,

Eu é que sou o anjo revoltado,

Eu é que não tenho santidade...

Quando, afinal, ninguém

Põe nos ombros a capa da humildade,

E vem.

 

Torga, Diário I

Chuva

Chuva Fina

Por Vera Abi Saber

Então você chegou...

E devagarzinho,
como chuva fina,
bem de mansinho,
foi inundando todo o meu coração.

E eu fiquei ali... Parada,
assistindo àquela invasão poderosa,
sem qualquer vontade de resistir.

E você...
foi se apoderando
de cada cantinho do meu ser

E foi encharcando
toda secura
do meu coração.

Minhocal

 

Igreja

 

Minhocal, Celorico da Beira, 17 de Novembro de 1962 - Mal dei ordem, de manhã cedo,  para exporem no pretório das montras mais um novo livro, no mesmo pânico de há trinta e seis anos, desarvorei, e vim acalmar o espírito com o único tranquilizante que me faz algum bem: caçar. E aqui estou sozinho, isolado do mundo, a pensar na significação destas fugas, sempre repetidas e sempre pueris — preito humano à esperteza da avestruz, que julga que se oculta a ocultar a cabeça. De que tribunal me escondo? De que sentença tenho medo? Do juízo dos outros ou do meu?

"Diário IX". Miguel Torga

 

Almeida

 
http://www.cm-almeida.pt/index.html

Almeida, 16 de Novembro de 1947 — A evidência dos factos dispensa-me de comentários. Com trigo a nascer-lhe nos fossos, não há praça-forte que resista. Contudo, sempre direi que muito teimosa é esta humanidade, e muito impenetrável à razão! Este monstruoso baluarte serviu tanto para defender a pátria da escravidão, como para escravizar os seus filhos. Nesta sepultura estiveram honrados portugueses enterrados vivos durante anos, ou aguardar a nação, que é uma ideia, ou a morrer por uma causa, que é outra. Lajes de granito, gastas pelas passadas dos sitiados, testemunham ainda um desespero de erosão, como seria o dos ponteiros de um relógio que gastassem o seu próprio mostrador. Soldados, civis, miguelistas, liberais, republicanos e monárquicos, todos estiveram nesta masmorra, sem agora se poder destrinçar ao certo quem foi herói ou criminoso. O tempo comeu-lhes os ossos, deliu-lhes os nomes, e acabou mesmo por ridicularizar a fortaleza. Hoje entra-se por ela de automóvel e há sementeiras nos fossos. Como lição, parece que devia ser o suficiente. Mas nem assim a humanidade aprendeu. E lá anda, afanosa, a construir outras fortalezas noutras fronteiras, que hão-de igualmente defendê-la dos invasores e cercá-la de tirania.

 

"Torga, Diário IV"

 

 

Sina

 

Leiria, 15 de Novembro de 1939.

SINA

O dia amanheceu feliz.

Queria subir aos montes,

Queria beber nas fontes,

Queria perder-se nos largos horizontes.

Mas a vida não quis.

....

Castelo Rodrigo, 15 de Novembro de 1947 — Celorico, Trancoso, Pinhel e, finalmente, este Castelo Rodrigo, desmantelado, onde a vida parou a fazer meia. Um resto de graça manuelina no avental de uma janela, um púlpito rasteiro e humilde numa capelinha de fé tosca, três arados de pau esquecidos no meio da rua, e a grande lição da história, em cima, esquelética e negregada, inscrita nas paredes excomungadas do palácio arrasado do traidor Cristóvão de Moura. Aqui há tempos fui ver o chão do solar dos Távoras, salgado e estéril. Hoje vim ver esta maldição. Gosto de verificar a desenvoltura com que a sociedade se defende, e contemplar em que perigosas linhas de equilíbrio caminha cada memória. Nuno Álvares é o rei dos patriotas, depois de por um triz se não ter bandeado. Este Cristóvão de Moura teve menos sorte. A mão do tempo, porém, resolve quase todas as contradições. A nação anda já a restaurar estas paredes. Qualquer dia, em Távora, saibram aquela terra, e plantam-lhe barbadas.

Torga, Diário

Pessoa ortónimo

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

 

 

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

 

Fernando Pessoa, 5-9-1934.

Caeiro

    Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
    Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
    Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

 

   Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos".

Retorno

Porto, 12 de Novembro de 1957.

RESSURREIÇÃO

Volto a cantar, e voltam-me à memória

As rústicas imagens

Que guardei na retina

De menino:

O repique do sino

Depois das negras horas da Paixão,

E a brejeira

Canção

Que num toco

Já oco

De cerdeira

— Flauta que um pica-pau lhe dera —

A seiva assobiava à primavera...

 

Torga, Diário VIII

EURÍDICE

Coimbra, 11 de Novembro de 1980.

EURÍDICE

Vem pela mão de Orfeu.

Vem, através dos tempos

E da morte,

Realizar, enfim,

O seu noivado eterno.

Do negro inferno

Do esquecimento,

Vem, casta e feminina,

Oculta no seu próprio encantamento.

Vem só em pensamento.

Ele é que a imagina.

 

Torga, Diário XIII