Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

CORREIO

Coimbra, 3 de Setembro de 1941.

CORREIO

Carta de minha Mãe.

Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,

A sua letra vem

A tremer-lhe nos dedos.

— «Filho»...

E o que a seguir se lê

É de uma tal pureza e de um tal brilho,

Que até da minha escuridão se vê.

 

Torga, Diário II

Pátria

Tourém, Barroso, 2 de Setembro de 1990.

LIMITE

Pátria até que os meus pés

Se magoem no chão.

Até que o coração

Bata descompassado.

Até que eu não entenda

A voz livre do vento

E o silêncio tolhido

Das penedias.

Até que a minha sede

Não reconheça as fontes.

Até que seja outro

E para outros

O aceno ancestral dos horizontes.

 

Torga, Diário XVI

ETERNO FEMININO

 
 

Caldelas, l de Setembro de 1948.

ETERNO FEMININO

Voltei, ninfas amigas!

Quem pode resistir a um fresco aceno

De donzelas despidas?

Fiel devoto da nudez da vida,

Tinha sede de ver-vos distraídas

A correr pela terra ressequida.

Serei criança, mas voltei de novo

Ao vosso altar sagrado.

Ou não fosse eu poeta!

Ou não me desse a imagem do passado

Uma esperança secreta...

Vim, e que o mundo murmure,

Ninfas de cada fonte!

Que me importa que digam que enlouqueço

Junto de vós?

Quero é beijar-vos, é beber,

E sentir-me no fim purificado...

Só deusas verdadeiras podem ter

Um corpo tão perfeito e tão lavado.

 

Torga, Diário IV

Pág. 3/3