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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

REPOUSO

Gerês, 18 de Setembro de 1954.

REPOUSO

Durmo à sombra do tempo.

Ausentei-me da vida algumas horas.

Moro agora onde moras,

Serenidade!

Silêncio pétreo com luar em cima,

E um céu de seda, lá da eternidade,

A olhar um corpo que se reanima.

 

Torga, Diário V

Ut pictura poesis

S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1945.

            DOURO

Cai o sol nas ramadas.

O sol, esse Van Gogh desumano...

E telas amarelas, calcinadas,

Fremem nos olhos como um desengano.

A cor da vida foi além de mais!

Lume e poeira, sem que o verde possa

Refrescar os craveiros e os tendais

De uma paisagem mais secreta e nossa.

Apenas uma fímbria namorada,

Vermelha e roxa, se desenha ao fundo...

O mosto de uma eterna madrugada

Que vem do incêndio refrescar o mundo.

.Torga.Diário III

Maceração

Miramar, 16 de Setembro de 1958.

LAMENTO

Ah, cavalo sem freio a galopar

No prado que só vês quando tens fome!

Ah, pássaro sem nome

Que passeias no céu

E não sentes tonturas sobre o abismo!

Bicho também,

Porque não sei correr,

Voar,

Pisar o pasto

E desprezar do alto a sepultura?

Pus em mim o cabresto que me prende,

Cortei as asas da libertação,

E rente à perdição

De cada hora,

Devoro o próprio chão que me devora.

 

Torga, Diário VIII

Versos

Coimbra, 15 de Setembro de 1951.

CONTÁGIO

Há uma esperança:

A constância optimista da alvorada.

Quando os galos começam,

E o melro, meu vizinho, abre a janela,

Qual desespero, qual desilusão!

Como cadáveres que ressuscitassem,

Os versos endireitam-se, renascem,

E mesmo incertos, a mancar, lá vão...

 

Torga, Diário VI

Regresso!

  Para quê zangarmo-nos com a vida se ela continua indiferente àquilo que nós fazemos ou pensamos? Aprendamos com o mestre a apreciar a natureza e usufrui-la e saibamos adaptar-nos ao mar da vida: ora encapelado, ora manso!

Miramar, 14 de Setembro de 1957.

PRAIA

Nem mar, nem terra — a estrema que os separa.

Esta orla de areia

Onde, feliz, passeia,

Só vestida de sol,

A nudez dos humanos.

Um limbo de brancura e alegria.

O tempo sem poder fazer seus danos,

E nenhum rasto ao fim de cada dia.

 

Torga, Diário VIII

Fim (ou pausa)!

Nem a propósito o poema de Torga falar de crucifixo. Às vezes acontece sermos crucificados sem merecer e isso dói como todas as injustiças do mundo real. Leitor, se é que tive algum, a finalidade do blogue era homenagear e divulgar a poesia de Torga, considero que o objectivo está cumprido por isso fico por aqui, para já. Pode ser que um destes dias retome o bordão de peregrino como disse Garrett e continue a "blogar" neste ou noutros moldes, ou pode mesmo acontecer que seja o fim. Do crucifixo só uma diferença: cada vez mais descrente da vida.

Perpinhão, 7 de Setembro de 1970.

CRUCIFIXO

Havia, como vês, lugar no mundo

Para um Deus ter a paz de ser humano.

E aqui te vejo, belo e repousado

— Chegado

Brumosamente

Do Sul ardente

Ou do gelado Norte

Deitado em pé na sepultura erguida,

Nem vexado na morte,

Nem descrente da vida.

 

Torga, Diário XI

Filipa Leal

[Hoje faço uma pausa nos poemas do grande Torga e dou a voz a gente nova que também tem valor é claro - trata-se de uma poetisa novíssima e que tem poemas bem bonitos: a poesia é eterna e ai da geração que não tenha poetas!]

nos dias tristes não se fala de aves
liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso

nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.


filipa leal

 (http://floresdeinverno.blogspot.com/)

Galiza

Pontevedra, 5 de Setembro de 1951.

MADRIGAL

Minha Galiza de perfil bonito,

Órfã de pátria num asilo austero:

Só por seres portuguesa é que te quero,

E por seres castelhana te acredito.

Torga, Diário VI

Chopin

http://www.suncentre.net/images/majorca/areas/Valdemosa2.jpg

Maiorca, cartuxa de Valdemosa, 4 de Setembro de 1950.

ACTO DE CONTRIÇÃO

Tanta visita inútil!

Tanta grosseira e fútil

Recordação!

Guias,

Palavras,

Fotografias,

E a tua glória cada vez mais pura,

Longe de nós,

Chopin!

Perdoa-nos a todos, por não termos

Outra maneira de te ver.

Somos a humana e vil degradação...

Indignos de colher

No jardim desta cela de amargura,

De romântico amor

E solidão,

A mais humilde flor

Da tua inspiração.

 

Torga, Diário V