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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Versos

Coimbra, 10 de Julho de 1988.

OFERENDA

Cumpro o que prometi:

Dou-te o melhor que tenho, versos.

Não queiras mais.

O resto

É o lastro reles da minha humanidade.

As doenças do corpo,

As misérias da alma

E o medo da morte,

Sujas negruras de que me envergonho.

Tudo, porém, é limpo e luminoso

Quando o sol radioso

Da poesia

Me visita.

E são esses instantes que deponho

No teu altar.

Instantes em que sonho

Que és a deusa capaz de me salvar.

Torga, Diário XV

Expectação

 

Coimbra, 9 de Julho de 1975.

EXPECTAÇÃO

Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,

E vou entristecendo

O largo,

O rio,

O campo

E, mais além, a linha do horizonte.

Mas repreendo os olhos e regresso

À página vazia

Onde, possesso,

Aguardo que desponte

A luz de um novo dia.

Um dia alegre,

Limpo,

Singular,

De nenhuma semana,

De nenhum mês,

De nenhum ano,

Miraculosamente amanhecido

Nas sílabas de um verso enfeitiçado,

A ressoar, medido e desmedido,

Na concha do ouvido

Deslumbrado.

 

Torga, Diário XII

Poeta / beira

Coimbra, 8 de Julho de 1977.

VOZ ACTIVA

Canta, poeta, canta!

Violenta o silêncio conformado.

Cega com outra luz a luz do dia.

Desassossega o mundo sossegado.

Ensina a cada alma a sua rebeldia.

Penalva do Castelo, 8 de Julho de 1984 — Comprido passeio pela Beira, a surpreender em cada vila e aldeia, e até na própria paisagem, um Portugal domingueiro, alheado da rábica, vestido de lavado, a ouvir missa aqui, a jogar a malha mais adiante, saudável, convivente, senhor da sua humanidade à porta do casebre ou do solar. A diferença que vai da imagem que ele nos dá assim ao natural, da que ressalta do palanfrório oficial! Uma, adulta, consciente, determinada, a lembrar-nos tudo o que fizemos de grande no mundo; outra, infantil, inconsciente, abúlica, a justificar todas as manipulações. Uma, a estuar de virtualidades; outra, mero pretexto demagógico. É com a primeira que sempre me entendi. E quando, na voz dos próceres, a segunda me persegue como um pesadelo, faço orelhas moucas à verborreia e meto-me a caminho. E é uma bebedeira de esperança. Sinto a pátria levedar no silêncio inexpugnável de cada pedra.

Torga, Diário XIII / XIV

Amor

Coimbra, 7 de Julho de 1949.

HORA DE AMOR

Vem.

Adormece encostada a este braço

Mais débil do que o teu.

Entrega-te despida

Nas mãos dum homem solitário

Que a maldição não deixa

Que possa nem sequer lutar por ti

Vem,

Sem que eu te chame, ou te prometa a vida.

E sente que ninguém,

No descampado deste mundo, tem

A alma mais guardada e protegida.

Torga, Diário V

 

Poesia

Coimbra, 6 de Julho de 1963.

POESIA

Não te quero trair

Com palavras cansadas.

Abstracta presença

No seio da concreta natureza,

Voz de pureza

No silêncio imundo,

Luz que nas madrugadas

Anuncias mais luz,

Rigor da imprecisão,

Nenhum verso traduz

Sequer

A doce melodia do teu nome.

Por isso, quando todos os sentidos

Te desejam visível, figurada,

Rasgo dentro de mim o véu

De não sei que lonjura,

E fico a namorar a curvatura

Da linha desenhada

Pelo gume do céu

A cortar a planura

Imaginada...

 

Torga, Diário IX

Afectos

Coimbra, 5 de Julho de 1958 - É uma pena que a gente não possa fazer com os afectos aquilo que as câmaras municipais fazem com os degraus públicos delidos pelo uso: substituí-los de tempos a tempos por outros novos em folha. Porque a verdade é que também eles se gastam, e também neles se escorrega à hora menos pensada.

Pelo que me diz respeito, tem sido cada tombo de quebrar a espinha. Esqueço-me sempre de que uma velha dedicação, como todas as coisas velhas, já só vive negativamente. Pois que nenhuma das causas que a motivaram persiste — a força emotiva da mocidade, a paralela inquietação das ideias e a santa ignorância de alguns defeitos terríveis que um largo convívio revela —, é apenas à cronicidade da própria duração que vai buscar alento. Por isso, diante de uma tal realidade, a única maneira de não haver desilusões é não haver ilusões. Ora eu, em vez de tomar essa atitude prudente, e arregalar os olhos do juízo, ponho-me cegamente à espera de milagres renovados dessas amizades cadavéricas. E estatelo-me. Às duas por três, dou comigo estendido a todo o comprimento na escadaria dos sentimentos. Situação ao mesmo tempo dolorosa e ridícula. Dolorosa, porque um tombo mal dado magoa sempre; ridícula, porque se fica descomposto e sujo no meio da rua.

Mas a dor e o ridículo misturados é que alimentam o desumano humor negro que caracteriza a vida. E são os paspalhões da minha espécie que se prestam inocentemente à revelação desse lado satânico da sua fisionomia. Caem, erguem-se, sacodem-se, e lá vão a mancar e a gemer, enquanto ela se ri, divertida.

Torga, Diário VIII

Natureza

Coimbra, 4 Julho de 1950 — Chove. Pacificamente, a natureza refresca-se logo de manhã, como se tomasse banho antes de começar o dia. E toda a verdura dos campos reluz de contentamento, certa de que já ninguém lhe poderá destruir os frutos. O poeta é que tem de arder ao sol abrasador da eterna incerteza. Para ele não há um borrifo sequer de confiança. O poema só o é depois de inteiramente criado. Antes, nem flor, nem pólen, nem prefiguração. O nada perfeito, à espera do todo perfeito.

Torga, Diário V

Velas de liberdade

Costa Nova, 3 de Julho de 1949.

UMA BRANCURA AO LONGE.

Vela aberta nas ondas da aventura!

Só a força do sonho te levanta

E no meio do mar te crucifica!

Mas só deitado nos teus braços canta

O coração do vento, que trafica

Na fronteira imprecisa

Que separa a bonança

Da tempestade...

Chama do isolamento!

Corola de uma flor em movimento

Que procura o jardim na imensidade.

 

Torga, Diário V

Maceração e telurismo

Coimbra, 2 de Julho de 1974 — Não tenho paz. Rói-me não sei que desespero avesso a toda a consolação. As únicas horas suportáveis são aquelas em que espalho tinta no papel. Mas quando, à custa de esforços inauditos, acabo por escrever um livro, nem me sinto aliviado, nem o sinto meu. É como se todo aquele articulado fosse doutro entendimento, e todos aqueles gemidos fossem doutro penitente. Duplamente exilado dentro da realidade que sou e do acréscimo de realidade que criei, vejo-me desfigurado e opaco, igualmente fora de mim e da minha imagem estampada.

S. Martinho de Anta, 2 de Julho de 1982 — Chego, e adeus solidão. Fico logo acompanhado por todos os meus penates. Presenças virtuais mas agentes, estimulam-me o entendimento, pacificam-me o coração, corrigem-me a pauta dos versos. Ninguém como eu continua a padecer no mundo mais amparado. Até quando cavo o quintal, e começo a abafar, sinto que as suas mãos invisíveis seguram também o cabo do enxadão.

Torga, Diário XII e XIV

madrugada

Coimbra, 1 de Julho de 1955.

ALBA

Orvalho da manhã, pranto da noite,

Luz que só tinha sombra e clareou.

Como um poema que se derramou

Sobre o corpo da vida

Mal acordada,

Assim és tu, pura emoção vertida,

Voz do silêncio, solidão molhada.

 

Torga, Diário VII

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