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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Exuberante!

  Este Torga do nosso contentamento, quando a euforia parece despontar, tem sempre um travão para desancar e refrear esta pobre humanidade sedenta de emoção e alegria. Hoje apetecia-me um poema alegre, exuberante (como por exemplo o de 8 de Junho!), mas não: aparece uma solidão que nos vem lembrar os riscos que corremos se os deuses tiverem ciúmes da nossa felicidade. Ficar isolados, sós, será um destino inevitável? Perdoe-se-lhe este desalento e gozemos o momento com, por exemplo, essa música e letra romanticamente arrepiante de Bryan Adams!

Coimbra, 20 de Julho de 1992.

SOLIDÃO

Pouco a pouco, vamos ficando sós,

Esquecidos ou lembrados

Como nomes de ruas secundárias

Que a custo recordamos

Para subscritar

A urgência dum beijo epistolar

Ainda inutilmente apetecido.

Mortos sem ter morrido,

Lúcidos defuntos,

Vemos a vida pertencer aos outros.

E descobrimos, na maneira deles,

Que nada somos

Para além do seu dissimulado

Enfado

Paciente.

E que lá fora, diariamente,

Conforme arde no céu,

O sol aquece

Ou arrefece

Os versáteis e alheios sentimentos.

E que fomos riscados

No rol da humanidade

A que já não pertencemos

De maneira nenhuma.

E que tudo o que em nós era claridade

Se transformou em bruma.

.Torga, Diário XVI

Nascer poeta

Coimbra, 19 de Julho de 1984.

CRÓNICA

Um preito de meus Pais

A mais

À natureza,

E eu nasci

Como um cabrito

Ou como um pé de milho.

Mas minha Mãe adivinhou no filho

Um futuro poeta. Secreta,

Não o disse a ninguém.

Eu é que em vez de me calar também,

Quando cresci,

Cedi

À tentação

De erguer na solidão

A voz dorida.

E chamei sobre mim a maldição

Da própria vida.

 

Torga, Diário XIV

REQUIEM

Barragem de Vilarinho da Furna, 18 de Julho de 1976.

REQUIEM

Viam a luz nas palhas de um curral,

Criavam-se na serra a guardar gado.

À rabiça do arado,

A perseguir a sombra nas lavradas,

Aprendiam a ler

O alfabeto do suor honrado.

Até que se cansavam

De tudo o que sabiam,

E, gratos, recebiam

Sete palmos de paz num cemitério

E visitas e flores no dia de finados.

Mas, de repente, um muro de cimento

Interrompeu o canto

De um rio que corria

Nos ouvidos de todos.

E um Letes de silêncio represado

Cobre de esquecimento

Esse mundo sagrado

Onde a vida era um rito demorado

E a morte um segundo nascimento.

.Torga, Diário XII

...

Gerês, 17 de Julho de 1975.

DISSONÂNCIA

É o mesmo rio a cantar contente,

E o mesmo ócio vegetal a ouvi-lo.

É o mesmo céu tranquilo

A reflectir-se na sua pureza.

E sou eu, na incerteza

Destes dias traídos,

A caminhar ao lado,

Sem ócio, sem pureza  e sem ouvidos.

Torga, Diário XII

Desatento, alheado,

Sobrenatural!

Coimbra, 16 de Julho de 1953.

PRESENÇA

Por palavras te chamo e te conheço,

E por tristes palavras te defino:

Eras Deus no começo,

És agora Destino,

E amanha serás Medo ou Covardia...

Mas tão sozinho aqui me encontro e sinto,

Que preciso, no instinto,

De companhia.

E um nome basta a quem não tem mais nada.

Com ele, ao menos, pode a mão fechada

Abrir-se e tactear o pesadelo...

Ninguém, ainda; mas o som povoa

O silêncio que aperta e que magoa

As almas que não sabem recebê-lo.

.

Torga, Diário VII

Saudade

Coimbra, 15 de Julho de 1958.

PRESENÇA

Cheio da tua ausência,

Nem sinto a solidão.

Vida, mulher ou mãe,

Feminina saudade,

Enche-me a paz que tem

A morte, a viuvez e a orfandade.

Negativo do amor,

E sua face ainda,

O já não ser amado

É uma pena suspensa

Que liga eternamente o condenado

Ao juiz da sentença.

Triste convívio, basta-me, contudo.

Todo de luto, mudo,

Cumpro os deveres humanos,

Limpo o suor da testa,

E atravesso os anos

Fiel ao desespero que me resta.

Torga, Diário VIII

Vidas

Hoje, com mais tempo, deixo três registos diferentes e três estados de alma diferentes: a vida é assim, feita de tudo, orações, frustrações e, às vezes as necessárias evocações. É Miguel Torga comprometido com a vida em si mesma, na luta de si, quantas vezes contra si mesmo, nas glórias e nas desgraças. Torga pleno!

Coimbra, 14 de Julho de 1974.

ORAÇÃO

Peco-te lucidez, Senhor.

Rogo-te humildemente,

Em nome da terrena condição,

Que me não cegues neste labirinto

De paixões.

Que nele, aos tropeções,

Eu nunca chegue até onde, perdido,

O homem já não pode

Saber até que ponto é consentido

O jugo que sacode.

Coimbra, 14 de Julho de 1985.

FRUSTRAÇÃO

Tarde serena, com versos maduros

A reluzir na rama dos sentidos.

Tento colher os mais apetecidos,

Mas não chego a nenhum.

Anão nas horas cruciais da vida,

Em que o triunfo exige outra medida,

Deixo fugir das mãos os sonhos um a um.

 

Coimbra, 14 de Julho de 1987.

EVOCAÇÃO

Recordar...

Com saudades, lembrar

Os dias de sol claro

E alma clara,

Que passaram.

Ver-te bonita como então eras,

Sempre igual nas diversas primaveras que floriam

A volta do teu pudico sorriso.

Memorar o perdido paraíso

Onde nunca pecámos,

Nem instintivamente,

Nem seduzidos pela serpente,

Na cândida inocência de aprendizes,

E, castos, nos danámos, a sonhar

E a recitar

Poemas de poetas infelizes.

Torga, Diário

Silêncio

Colóquio

 

Duvida das palavras...

Nunca disseram nada.

Palmeiras no deserto

Da expressão,

O que mais dão

E sombra aos sentimentos,

Nos momentos

Em que o sol é uma cruz de expiação.

Ouve o silêncio — a voz universal.

Só ele é o verdadeiro confidente

Do coração de tudo.

Poeta angustiado

E penitente,

Mudo

A teu lado

É que eu sou transparente...

Torga, Câmara Ardente

Universidade

Coimbra, 12 de Julho de 1953 — Esta Universidade única desgraçou-nos. Se fosse obrigada a dialogar, a argumentar, a defender-se, teria de ser subtil, ágil e audaz. Assim, pôs o capelo e a borla, alheou-se da realidade no alto da sua colina dogmática, e o país, rasteiro, em baixo, foi repetindo o cantochâo. E de tal modo se acostumou à sebenta, à mnemónica, ao ritmo do chouto coimbrão, que, apesar dos esforços de Lisboa e do Porto, o humanismo português continua a ter uma andadura de cortejo doutoral, oco, barroco e charameleiro.

De vez em quando, uma ou outra consciência tresmalhada tenta reagir, é certo. Mas ninguém lhe dá crédito. Se tal acontecesse, diante das razões dum Garrett ou dum Eça, cada ouvinte teria de rasgar a sua própria carta de bacharel, ou a do pai, ou a do filho. E não há nada mais sagrado no mundo do que um pergaminho selado a garantir a nossa maioridade intelectual, ou a da família.

Torga, Diário VII

Respigos

Coimbra, 11 de Julho de 1957 — A força da ancestralidade! Publico, publico, mas deixo sempre na gaveta, de reserva, dois ou três poemas, nem piores nem melhores do que os outros. São as espigas de milho que meu Pai guardava para semente... (Diário VIII)

Coimbra, 11 de Julho de 1974 — O ridículo dos sentimentos não compartilhados! Perdem toda a grandeza, toda a força, toda a significação. As lágrimas autênticas parecem de teatro, os gestos dramáticos tornam-se cómicos, sinais de nobreza física cobrem-se de grotesco. Mas a vida é assim. Mais cedo ou mais tarde, pela força da dor ou pela força do riso, acaba por nos pôr diante da nossa irremediável solidão original. Afortunados os que sabem assumi-la, e que, mesmo envolvidos no jogo das paixões, jogam sem paixão. Que descobrem a tempo que a graça da comunhão é uma miragem, e que a lucidez é um acto ímpar. (Diário XII)