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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Testemunho

Coimbra, 10 de Junho de 1954.

DEPOIMENTO

Ah, sim, bom cidadão quotidiano!

É consultar o rol

Dos moradores honrados da cidade...

Como eles, sofro e mourejo

Sem vontade

A luz do mesmo sol

De que nem vejo

A claridade.

Mas quando já eu próprio sinto gosto

Nas mataduras do selim do tempo,

E acarinho a marca

Das vergastadas mansas

Da rotina,

Então fujo de mim, como as crianças

Fogem da escola onde o mestre ensina.

Torga, Diário VII

TRÍPTICO

Nazaré, 9 e 10 de Junho de 1945.

            

            MITO

Mar...

Velha inquietação

A lutar

Contra os muros do próprio coração.

É um cavalo de crina aberta ao vento

Cada onda a correr...

Movimento,

Ou a força a morrer?

 

MARINHA

A noite desce como sobe o fumo

Do navio que parte.

Nenhum rumo!

Nenhum profundo amor a procurar-te!

Líquido e só, mastigas

O teu sal de amargura!

Porque não queres ternura,

Látego azul, que tanto te fustigas?

Olha os homens na praia

A namorar o acaso

Que passa numa saia

Sem volúpia e sem prazo!...

FAINA

Dia!

E o sol futuro que responda.

Charrua alada, o barco rasga a onda,

Leiva salgada e fria.

Mansa, semeia a rede

A mão do pescador.

Água que só tem cor!

Mar que não mata a sede!

Misturada com limos,

A semente do sonho assim se perde...

Azul, vermelha, verde...

Paira, gaivota, nos lavados cimos!

Torga, Diário III

Raízes

 
 

  S. Martinho de Anta, 8 de Junho de 1946 — As raízes começam a secar. Minha Mãe está no fim, meu Pai ensurdece, a beleza das giestas floridas não resiste ao espectáculo lancinante de ver crianças famintas a pastar ervas como animais. Só o Marao. ao longe, conserva a majestade de sempre e a sua pureza habitual de deus. Mas nem a olhá-lo pude esquecer por muito tempo a miséria desta gente. Uma fibra humana que me repuxa a alma cada vez com mais força desenhou-me cruamente naquele azul de ilusão e de evasão a legenda que conheço desde menino:

- Bem grande é o Marão, e não dá palha nem grão...

É um ferrete de esterilidade que a tradição pôs naquelas pe-dras deslumbradoras, e que eu, ao fim e ao cabo, tenho de aceitar como justo. A beleza é o ornamento da vida, mas a necessidade de comer é o seu suporte. Se eu andasse como estes garotos a roer leitugas pelas valetas, teria olhos para contemplar por um momento sequer aqueles cumes maravilhosos? Certamente que não.

   Por serem tão nobres e tão altos, e também porque estou bem jantado, demorei neles a atenção algum tempo transportado em tanta cor e relevo. Mas a urgência doutros valores acordou-me, a avisar-me peremptoriamente de que é preciso casar de uma vez para sempre o espírito com a matéria, tornar unidade o que nasceu para ser uno. O lume tem a sua lenha. Não somos anjos, e é preciso ter a lealdade de o reconhecer. De resto, espírito, espírito, e por detrás desta fachada esconde-se quase sempre uma cloaca sórdida de interesses mais grosseiros do que uma natural digestão. É urgente acabar com a hipocrisia do mundo moderno e regressar à sinceridade grega: ser conviva dum banquete universal, e fazer por pensar bem durante ele.

Torga, Diário III

Poesia

Coimbra, 7 de Junho de 1950.

DIA POÉTICO

Que lindo dia

De poesia

Se pôs!

A manha baça,

O jornal carrancudo,

E, de repente, tudo

Cheio de luz e graça!

E que não há milagres!

Há, mas são destes, que não provam nada.

É uma pena

Que a nossa alma seja tão pequena,

Ou já esteja ocupada.

Torga, Diário V

Beira

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Bobadela, 6 de Junho de 1943 — Um arco romano por onde se deve entrar na Beira. A não ser que se tenha a alma tão limpa de culturas que se prefira vê-la com os olhos selvagens e castos de Viriato... Nesse caso, é preciso descalçar a sandália invasora, cortar a direito pela serra fora, e chegar ao Piódao embrulhado numa pele de reixelo, com os olhos cheios de uma solidão onde não branqueje nenhuma ermida, nem abra os braços nenhuma cruz.

Torga, Diário III

Adeus

Coimbra, 5 de Junho de 1978.

ADEUS

É um adeus...

Não vale a pena sofismar a hora!

É tarde nos meus olhos e nos teus...

Agora,

O remédio é partir discretamente,

Sem palavras,

Sem lágrimas,

Sem gestos.

De que servem lamentos e protestos

Contra o destino?

Cego assassino

A que nenhum poder

Limita a crueldade,

Só o pode vencer

A humanidade

Da nossa lucidez desencantada.

Antes da iniquidade

Consumada,

Um poema de lírico pudor,

Um sorriso de amor,

E mais nada.

Torga, Diário XIII

Inspiração

Coimbra, 4 de Junho de 1949.

REIVINDICAÇÃO

 

Inspiração

Ou não,

Dá-me o que já é meu.

Entrega-me a canção

Que te dei a guardar.

Ou cuidarás que é teu

O lume da fogueira

Que acendi?

Eu já era poeta

Quando te conheci.

Torga, Diário V

Amor

Coimbra, 3 de Junho de 1988.

AMOR

Enches a noite e o sonho.

E, quando abre o dia,

Um fresco orvalho de melancolia

Humedece a memória.

Dorme quem esquece a vida

Longas horas,

E não sabe que moras

Neste mundo e em todos os momentos,

E acorda vazio

E recomeça

Com pressa

A caminhada,

Sem nunca te encontrar,

Sem nunca te lembrar.

Torga, Diário XV

Emoções

Hoje era para postar um registo diarístico sobre a Beira, Moçambique mas razões imperativas impedem esse registo. O fim de tarde enegreceu subitamente e tumultuosas nuvens abateram-se tempestuosas sobre a serra. A lua que aparecia cintilante no céu toldou-se e tudo ficou opaco. Tal procela leva-me a recuperar um poema de Março e a formular desejos intensíssimos que tudo passe em águas de Junho: quentes, rápidas e efémeras para que a Lua de novo brilhe em todo o seu esplendor cristalino.

Diário II

CHUVA

Chove uma grossa chuva inesperada,

Que a tarde não pediu mas agradece.

Chove na rua, já de si molhada

Duma vida que é chuva e não parece.

 

          Chove, grossa e constante,

          Uma paz que há-de ser

          Uma gota invisível e distante

          Na janela, a escorrer...

Serra da Boa Viagem, 2 de Junho de 1952.

CONTEMPLAÇÃO

Mar, seara sem ninhos!

Ave de fantasia, a inspiração

Olha a rama das ondas, e não pousa...

Escrever o quê, na movediça lousa

Onde se muda em espuma o giz dos versos?

Voar entre os azuis da inexpressão...

Por caminhos diversos,

Nunca chegar ao fim da imensidão!

Torga, Diário VI

Mãe

Ainda hesitei em pôr este poema de Torga no dia da Criança, mas decidi-me a colocá-lo por duas razões: primeiro, porque é uma homenagem à mãe e as crianças não existiriam sem ela; segundo, porque é um dos poemas mais sentimentais do poeta que normalmente é granítico, distante , superior e este poema ressuma emoção em todos os versos. Afinal ospoetas também choram nem que seja pelas palavras!

S. Martinho de Anta, l de Junho de 1948.

Mãe:

Que desgraça na vida aconteceu,

Que ficaste insensível e gelada?

Que todo o teu perfil se endureceu

Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa

Cansada de palavras e ternura,

Assim tu me pareces no teu leito.

Presença cinzelada em pedra dura,

Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.

Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.

Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes

Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:

Abre os olhos ao menos, diz que sim!

Diz que me vês ainda, que me queres.

Que és a eterna mulher entre as mulheres.

Que nem a morte te afastou de mim!

Diário IV

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