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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Sonhos

Coimbra, 20 de Junho de 1993.

ARMADILHA

Vivo preso nas malhas dos meus sonhos

Desfeitos,

A lembrá-los.

E, quanto mais esbracejo,

Mais me enredo na trança

Da ratoeira.

É que todos eram a maneira

Airosa

De me salvar.

E nenhum consegui realizar,

Nem consigo esquecer.

Virados do avesso, são agora

Uma negra masmorra

De condenado,

Até onde não pude!

Até onde não sou!

A que alturas celestes quis subir!

A que lonjuras ir!

E não subi, nem fui, nem certamente vou.

Torga, Diário XVI

...

Coimbra, 19 de Junho de 1946.

A CIGANA

Lia a sina a cada um

Na palma de cada mão;

Não desgraçava nenhum,

Nem lhe tirava a ilusão.

Toda a donzela paria,

Todo o homem navegava;

E nem a moça sofria,

Nem o rapaz naufragava.

Um amigo em cada linha,

Um triunfo em cada dedo;

Nos seus lábios ia e vinha

A reserva dum segredo.

Não se mostra uma paixão

Tal e qual, à luz do dia:

Cobre-se-lhe o coração

Da rede duma ironia.

Mas quem tem penas no peito,

Entende acenos discretos;

Sabe ficar satisfeito

Com afagos indirectos.

E em toda a grande praça

A multidão que a enchia

Vivia daquela graça

E do bem que repartia.

Porque nascera cigana,

Sem fronteiras no sorriso

A sua palavra humana

Conhecia o paraíso.

E ali, mulher, o mostrava

A quem, faminto, o pedia:

A quem, crédulo, o comprava

Pelo preço que valia.

Torga, Diário III

poeta

Porto, 18 de Junho de 1950Não há dúvida nenhuma que sou um poeta de paredes lisas. No escritório dum camarada que visitei hoje, coberto de fotografias assinadas, tive a impressão de estar no gabinete dum caçador de feras, que mandasse curtir as peles das vítimas e as exibisse como trofeus. A do leão com uma dedicatória majestática, a do hipopótamo com os olhos na posteridade, a do chacal ainda a sonhar cadáveres... Tudo enternecedor e autêntico. Mas cruel como todos os embalsamamentos.

     Homem de ar livre, a minha poesia não é de autógrafos nem de gavetas. É um golpe de vento no alto duma serrania, onde subo a ver se consigo oxigenar o sangue e a vida. Não, quando eu morrer queimem quanto escrevi e não publiquei. Renego todas as cartas, todos os manuscritos, todos os retratos, todas as anedotas, todas as recordações e todo o rol da minha roupa suja. O legado são os livros que deixar impressos. Esses rilhem-nos à vontade.

Torga, Diário V

Pureza original

Carvalhelhos, Barroso, 17 de Junho de 1956— A doença tem-me dado muitas horas amargas, mas devo-lhe também uma intimidade com a pátria de que poucos portugueses se podem gabar. Obrigado a procurar a esperança em cada fonte, passo a vida de terra em terra, com as tripas na mão. E até a este Barroso vim parar! O problema, agora, é estar à altura das alturas onde me encontro. O escrúpulo dos tempos em que comungava, tenho-o presentemente quando me aproximo do povo. Estarei puro para lhe ouvir a voz?

Torga, Diário VIII

Arte

Coimbra, 16 de Junho de 1952.

SECURA

Cai a chuva nos campos ressequidos,

E a verdura desperta.

Água que desce em regos paralelos,

Repartida no crivo da igualdade.

Toda a sede de amor pode beber

Da grande fonte maternal do céu.

Todas as ervas, todas as culturas,

Todas as criaturas,

Menos eu.

Diário VI

Coimbra, 16 de Junho de 1938 — De quantos ofícios há no mundo, o mais belo e o mais trágico é o de criar arte. E ele o único onde um dia não pode ser igual ao que passou. O artista tem a condenação e o dom de nunca poder automatizar a mão, o gosto, os olhos, a enxada. Quando deixa de descobrir, de sofrer a dúvida, de caminhar na incerteza e no desespero — está perdido.

Diário I

Enigma?

Coimbra, 15 de Junho de 1988.

ENIGMA

Guarda.

Guarda o segredo

Do meu amor.

Que nem por sombras possam suspeitar

Que todos os poemas que escrevi

os soubeste primeiro.

Que fiz da tua imagem

A imagem do mundo.

E que nunca te vi ao natural,

Musa irreal,

Mulher incerta da minha certeza,

bela como a beleza.

Torga, Diário XV

Gomes Leal

Coimbra, 14 de Junho de 1948.

GOMES LEAL

Eis o Cristo dos versos

No seu calvário!

Eis o poeta Hilário

Três dias antes da Ressurreição.

Puro como nasceu,

Assim morreu,

E assim há-de sair da podridão.

A túnica de linho que o cobria,

Rico lençol de imagens,

Foi dividida pela soldadesca.

Nu e branco na cruz,

Já não precisa dela.

Agora, veste-o a luz

Duma estrela.

Torga, Diário IV

Vilar Formoso

Vilar Formoso - Castelo Bom

Vilar Formoso, 13 de Junho de 1960.

REGRESSO

Pátria magra — meu corpo figurado..

Meu pobre Portugal de pele e osso!

Nada na tua imagem se alterou:

A casca e o caroço

Dum sonho que mirrou...

Torga, Diário IX

Bonança

Ceira, 12 de Junho de 1946.

BONANÇA

Morta a voz da tempestade,

A terra, estendida ao sol,

Enxuga o corpo molhado.

Nuvens de sonho e humidade,

Tiras de um grande lençol,

Atam a testa dos montes.

Numa alegria futura,

Cantam, felizes, as fontes

Que sedes velhas secavam.

E sorriem na lonjura

Coisas que há pouco choravam.

Torga, Diário III

VIDA

 
 

Coimbra, 11 de Junho de 1959.

CONTRIÇÃO

Semearam meus pais, e eu nasci.

Assim começa a vida.

Mas havia tal força na semente,

Que tenho em mim, crescida,

Uma seara ausente.

Sou muitos sonhos juntos.

E a multidão num só, é sempre um sinal certo

De eleição...

Ah, mísera traição

Do meu caminho nunca descoberto!

Torga, Diário VIII