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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

1º de Maio

Coimbra, l de Maio de 1974 — Colossal cortejo pelas ruas da  cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis.

— Mais bonito do que a Rainha Santa... — dizia uma popular.

Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado. Há horas que são de todos. Porque não havia aquela de ser também minha? Mas não. Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: Em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? Que oculta e avisada abnegação estaria pronta para guiar no caminho da história a cegueira daquela confiança? A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez.

                                                                 

S. Martinho de Anta, 1 de Maio de 1975 — Instalado no pátio, vou lavrando prosa. O ar cheira a pólen, a azálea amarela florida é um sol vegetal, o ninho de melro ainda fumega da procriação, a Primavera estala por todas as costuras da vida. Um carreiro que passa atrás do carro carregado leva mais música na batuta da aguilhada do que um maestro a caminho do palco. E paro de escrever. A laboriosa página que me saia da pena mete dó ao lado da página aberta do universo. Voltarei à carga logo à noite, emparedado no quarto, com a natureza a dormir lá fora. Então, a imaginar o que já não posso ver, nem cheirar, nem ouvir, talvez eu consiga dar-lhe no papel o esplendor e a verdade de uma revelação que surpreenda os meus próprios sentidos.

Diário XII

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