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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Busca da perfeição

Coimbra, 21 de Maio de 1982.

META

Falta-me ainda um verso.

O mais rebelde, lírico e sincero.

Um verso exacto, que não desespero

De cantar um dia.

Um verso de magia

E de verdade.

Um verso que na sua brevidade

Iluminada

Seja a eterna alvorada

Da minha humanidade.

Torga, Diário XIV

Passagem

Coimbra, 20 de Maio de 1982.

VIÁTICO

Levarei um poema.

Não quero outra bagagem.

E com ele pagarei

A passagem

Na barca de Caronte.

Um poema que conte,

Sem contar,

O derradeiro olhar

Que der ao mundo.

Um soluço de luz, paralisado

No fundo

Da retina.

Um relance de pânico, cantado

Por quem já desde a infância o imagina.

Torga, Diário XIII

P. S. E o FCP lá voltou a ser campeão!

Pacto!

Coimbra, 18 de Maio de 1944.

PACTO

Juro e assino a jura:

O nosso amor há-de florir

À tona da mais funda sepultura

Que a vida nos abrir.

Coimbra, 19 de Maio de 1944 — Tirei hoje da vida de Cristo esta novidade: uma lição de preguiça. Reparei que não se encontra naquele passeio divino por este mundo um passo em direcção ao esforço do animal a tirar água de uma nora.

Olhai os lírios dos campos...

Estava-se mesmo a ver o que era isto: deixar correr, e não forçar a transitória natureza à degradação do jugo. Estava-se mesmo a ver, mas eu não vi. E trabalhei até agora como um jumento. (E a miséria é que vou continuar.)

Torga, Diário III

Imperfeições

Coimbra, 18 de Maio de 1958.

SALMO

Abro-te o coração.

É um santuário humano.

Uma nave de intensa claridade

Que leva o sol da vida à tua imagem,

E laterais recantos de penumbra

Que discretas presenças

Povoam de secreta

Melancolia.

Entra, e vê por teus olhos

O templo onde moras

E onde mora a traição

Ao culto ilimitado que mereces.

Deusa do amor, sei que tudo perdoas

A quem ama,

Olhando a própria chama

Da heresia

Como indirecta luz que te alumia...

Torga, Diário VIII

Nem de propósito...

 Coimbra, 17 de Maio de 1973.

                VIAGEM

É o vento que me leva.

O vento lusitano.

É este sopro humano

Universal

Que enfuna a inquietação de Portugal.

É esta fúria de loucura mansa

Que tudo alcança

Sem alcançar.

Que vai de céu em céu,

De mar em mar,

Até nunca chegar.

É esta tentação de me encontrar

Mais rico de amargura

Nas pausas da aventura

De me procurar...

Torga, Diário XII

Ser poeta!

Coimbra, 16 de Maio de 1977.

ESTERTOR

Meu jeito de cantar, minha fortuna!

A única que tive...

Vai-me roubar a morte, qualquer dia,

Esta imensa riqueza que aumentava

Quanto mais a gastava

E repartia...

Meu condão de poeta!

Meu carisma!

Minha chama divina!

E terei de perder

Este dom de criar a claridade

Na densa opacidade

Do meu ser!

 

Torga, Diário XII

Poema

Coimbra, 15 de Maio de 1979.

UM POEMA DE AMOR

É um poema de amor.

Começa num sorriso promissor

E acaba num soluço

De saudade.

Entre essas duas margens,

Um rio de silêncio.

Um rio largo, onde se espelha, baça,

A paisagem severa de uma vida,

A que faltou a graça

Dessa remota hora repetida.

Torga, Diário XIII

Poetas

Este é só meu, foi-me oferecido, mas como é belo quero partilhá-lo para que se saiba que ainda há poetas verdadeiros: 
 
                Psiu!,
                Não ouves o vento?
                A chuva não tarda...
                Não fiques triste se hoje não surgir o sol,
                Fui eu que o escondi...
                Pedi à chuva que viesse
                Forte
                Intensa
                Sonante, na tua janela
                E te despertasse com gotículas de
                Saudade...
                      (14.05.07 - PA)

Coimbra, 14 de Maio de 1981.

REMEMORAÇÃO

Sim, a vida não presta.

Mas foi bonita a festa

Da mocidade.

O corpo são, a alma sã, e todos os sentidos

Na sua virgindade

Castamente despidos.

Lembrá-lo, agora, dá não sei que paz.

Esta paz medular

De já ter sido,

E ter sido capaz

De uma hora solar

Gravada a fogo no tempo perdido.

Torga, Diário XIII

Bênção das pastas

 

 Sem tempo para escritas, registo memória das minhas afilhadas, uma finalista, na bênção das pastas do Politécnico. Parabéns pelo trabalho desenvolvido nestes anos de luta, dificultados pelo estudo e trabalho ao mesmo tempo. O mais difícil de conseguir tem mais valor. Força!!!!

 

 

 

Nota: Parece estranho, mas o ateu Torga não tem registos diarísticos no dia de hoje!! E porque é que as fotografias desaparecem!

 

 

poema

O dia esteve cinzento, grisalho. A ausência de ser passou a estado de saudade e o sol escondeu-se em raios de cinza desmaiado na inocência duma amizade alongada por bibes e ternuras de mãe. Como diz Torga no texto de hoje.

Coimbra, 12 de Maio de 1947.

POEMA

Foi um poema casto que eu pedi

à minha Musa.

Um poema com bibes e meninas,

e ternura no meio.

Mas quando a imagem veio,

e eu, deslumbrado, a olhava,

a menina mais velha namorava,

e as outras, ao lado, aprendiam

a instintiva lição...

- Minha Musa, o poema?

- Este é o mesmo poema,

numa outra versão.

Diário IV