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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Maceração

A ideia de que a poesia acontece em Torga nunca a encontramos: para ele ela é sempre produto de um trabalho árduo e aturado. Neste e noutros poemas encontramos frequentemente a temática da dificuldade da criação poética, quase maceração contínua e persistente. Seria de facto assim, ou trata-se de uma simulação literária?!

Coimbra, 10 de Abril de 1954.

LABIRINTO

Perdi-me nos teus braços, alamedas

Onde o tempo caminha e descaminha.

Pus a força que tinha

Na instintiva defesa

De encontrar a saída, a liberdade.

Mas agora Teseu era um poeta,

E Ariane a poesia, o labirinto.

Desajudado,

Só me resta cantar, deixar marcado

O pânico que sinto.

Diário VII

Visão de poeta

Chaves, 9 de Abril de 1968.

TRANSPARÊNCIA

Deixo cair a tarde

Nos olhos fatigados.

O dia foi de luz intensa e demorada,

Nevada nas alturas.

Guardei a que podia.

Agora quero a noite

E a brancura das horas

Sem lembrança.

Trevas e claridade

Inconsciente.

Longe daqui, e sempre aqui

Presente,

Quero sonhar apenas o que vi.

Quero ver o que vi mais transparente.

Diário  X

Páscoa

PÁSCOA

Um dia de poemas na lembrança

(Também meus)

Que o passado inspirou.

A natureza inteira a florir

No mais prosaico verso.

Foguetes e folares,

Sinos a repicar,

E a carícia lasciva e paternal

Do sol progenitor

Da primavera.

Ali, quem pudera

Ser de novo

Um dos felizes

Desta aleluia!

Sentir no corpo a ressurreição.

O coração,

Milagre do milagre da energia,

A irradiar saúde e alegria

Em cada pulsação.

Diário XVI

Exame

Nada mais adequado em Sábado Santo, quando o "corpo morto de Deus / vivo e desnudo" repousa na sepultura a aguardar a manhã gloriosa da ressurreição, que um exame de consciência para nos revermos por dentro. Assim também o do poeta: tomar consciência dapquenez e da precaridade da obra de arte.

Coimbra, 7 de Abril de 1949.

EXAME DE CONSCIÊNCIA

Por tudo passa o artista:

Primeiro, pela alegria

De se julgar criador

No seio da natureza;

Depois, por esta tristeza

De ver morrer o que fez,

Sem ter nas mãos a certeza

De erguer o sonho outra vez.

Diário V

Poeta

 

Coimbra, 6 de Abril de 1973.

MISSÃO

«Deixem passar...»

Havia sentinelas a guardar

A fronteira do sonho proibido.

Mas ergui, atrevido,

A voz de sonhador,

E passei

Como um rei,

Sem dar mostras do íntimo terror.

E cá vou, a passar,

Aterrado e sozinho,

A lembrar

O santo-e-senha com que abri caminho...

Diário XI

Liberdade interior

É bem verdade o que o poeta diz: quando há restos mal apagados fica sempre a cicatriz para nos recordar, manter viva essa estrénua marca! Quanto ao segundo excerto parece que de 54 para cá não mudou grande coisa: felizmente continuamos senhoes do nosso próprio interior! Ao menos isso.....

Coimbra, 5 de Abril de 1952.

PONTA SECA

Remendo o coração, como a andorinha

Remenda o ninho onde foi feliz.

Artes que o instinto sabe ou adivinha...

Mas fico a olhar depois a cicatriz.

Coimbra, 5 de Abril de 1954— Liberdade interior... Sim, essa ao menos. Mas que falta nos faz a outra, a de fora! O pensamento é dialéctico, necessita de dialogar, de agir. Só assim medra, caminha, progride. E por terem a plena consciência disso é que os governantes o refreiam. Se a parte importante da liberdade não fosse a comunicação, o exercício activo do espírito, para quê tantas censuras, tantos entraves à expressão? A liberdade interior é o derradeiro viático dos condenados. A última ilusão de que vivem ainda. E vivem, realmente, mas emparedados.

Diário VII

Macieira

Vila Nova, 4 de Abril de 1936.

IMAGEM

Este é o poema duma macieira.

Quem quiser lê-lo,

Quem quiser vê-lo,

Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.

Floriu assim pela primeira vez.

Deu-lhe um sol de noivado,

E toda a virgindade se desfez

Neste lirismo fecundado.

São dois braços abertos de brancura;

Mas em redor

Não há coisa mais pura,

Nem promessa maior.

Diário I

Insatisfação

Foz, 3 de Abril de 1950.

VAZANTE

Maré baixa, com lodo e penedias.

Quando a fúria abandona o criador,

Que vazias

As formas!

Que diluída, a cor!

Porque não vem a onda que avassala

E traz o azul à praia, a melodia

Dum coração que bate sem sossego?

Maré cheia — um poema que se lesse

Numa folha espalmada de horizonte,

E fosse a sede e a fonte

De não sei que amargura se sofresse...

Génio!

Vento do céu, anónimo, invisível,

Porque não sopras sobre o corpo morto

Do gigante cansado?

Que triste é o mar despido e adormecido!

E estes ossos sem carne, que pecado!

Diário V

Primavera

S. Martinho de Anta, 2 de Abril de 1961.

CONVITE

Vamos, ressuscitados, colher flores!

Flores de giesta e tojo, oiro sem preço.

Vamos àquele cabeço

Engrinaldar a esperança!

Temos a primavera na lembrança;

Temos calor no corpo entorpecido;

Vamos! Depressa!

A vida recomeça!

A seiva acorda, nada está perdido!

Diário IX

Alentejo II

 

Arraiolos, l de Abril de 1946A diferença que existe entre o

Alentejo e o resto de Portugal é que aqui o homem é dono da

terra, e lá a terra é dona do homem.

      Évora, l de Abril de 1946.

CANÇÃO A ÉVORA

Évora que não és minha

E que eu gostava de ter:

Moira cativa e rainha,

Que não pude converter!

Não tenho nas minhas veias

Nem o templo de Diana,

Nem a praça de Geraldo.

Nem a brancura redonda

Da água das tuas fontes...

Tenho montes,

Vinho maduro e granito,

E esta certeza de ser

Filho de Cristo e de Judas.

Ah! Se eu pudesse mudar,

Já que tu, moira, não mudas!..

 

Diário III

 

 
    

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