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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Natal na nossa Literatura

A memória das palavras

 

 Natal na nossa Literatura.

 

     A literatura recolhe muitos temas da vida real e das festas quer religiosas, quer profanas. Entre as festas religiosas o Natal é uma das que mais vezes foi glosada nos textos literários desde que a literatura se iniciou. Já alguns autores fizeram a recolha desses textos e enumeraram os principais escritores a glosar o tema. Entre os mais citados estão com certeza Camões com vários sonetos e outros tipos de poemas dedicados a esta festa e, no século XX, nomes grandes da nossa literatura também o trataram em composições ou textos, desde logo, Fernando Pessoa, Miguel Torga, José Régio, David Mourão-Ferreira entre tantos outros que poderiam ser citados. Como há muitos textos disponíveis para consulta, vou falar do tema em três escritores ligados à Guarda.

1. Das várias obras de Augusto Gil, relembro e restrinjo-me aqui a Alba Plena, livro de poemas em que faz o percurso de vida de Nossa Senhora e, por arrasto, de seu Filho. Um dos primeiros poemas “Natividade” (A natividade da Virgem é a última noite do mundo antigo. Abade Lemman – frase que surge como pórtico do livro.) é o percurso a quatro andamentos do nascimento da Virgem: o primeiro andamento é a história do lobo que na sua toca, no Líbano, sente o instinto selvagem de matar, mas inexplicavelmente, perante uma pequena ovelha indefesa, não é capaz de saciar os seus apetites e interroga-se: “que milagroso bem me tornou bom / – a mim que sou um lobo e tenho fome?!...; no segundo andamento, um mercador, bom e simples, que tantas vezes passara em caravana por certas terras, vê o cume de um monte, que sempre estivera coberto de neve, reluzente de uma luz estranha e interroga-se:   « … Senhor! Senhor! / mudou o céu e a terra e tudo o que há... / Que doce aviso é este? O que será?!...»; no terceiro andamento, um romano exilado que nunca encontrara a paz em terra estranha, sente de repente uma súbita sensação de calma e pergunta “À terra, ao mar, ao céu, a tudo o que há: / “Que facto estranho, admirativo, ingente / se passa neste instante? O que será?!...”; e, no quarto andamento, Joaquim, velho profeta, cansado da vida, pede a Deus que lhe dê o descanso e, finalmente, encontra-o num berço de criança juntamente com as respostas às questões anteriores: “… Naquela tarde, e àquela mesma hora, / Nascia, em Nazaré, Nossa Senhora.” É, pois, uma “epopeia” ao nascimento de Nossa Senhora o que Augusto Gil faz neste poema a quatro tempos, ao Natal que possibilitou o posterior Natal do seu Filho. Não é uma maneira de celebrar o nascimento de Cristo, exaltando e alongando a história do nascimento da sua Santa Mãe? Que melhor elogio se podia esperar? E, nos poemas seguintes, vai construindo o “Evangelho de Nossa Senhora”, percorrendo as diversas fases da Sua vida: a infância, juventude, o casamento, a Anunciação, com a Avé Maria, a Visitação, com o seu Magnificat (“ A página mais linda e a maior / que a Bíblia tem e que a igreja reza...”). E, neste percurso, aparece, então, um poema intitulado “Natal”, bastante conhecido e que se baseia num presépio de ceramista (“Este Natal de Jesus / Há dois séculos que o fez, / Com barro mole, um oleiro. / Verdade não a traduz; / Mas, por ser tão português / - É para nós verdadeiro …”) E ali vemos depois desfilar as figuras tradicionais do presépio com realce para a Sagrada Família, para o enlevo com que São José e Nossa Senhora contemplam o Menino. Seguem-se os anjos e os Reis Magos e um desfile de pobrezinhos: dois cegos, um coxo a atirar as muletas fora, uma pastora, um petiz a fazer palhaçadas. E tudo isto porque: “É que estão próximas já, / É que já estão vizinhas / As tardinhas comoventes / Em que às turbas pregará / O amigo das criancinhas / Dos corações inocentes ….” Desta maneira o poeta não retira protagonismo à figura central do livro e faz uma releitura do presépio aportuguesando-o com algumas figuras humanamente reais. (Porque aparecerá o coxo?)

2. A figura do petiz, na descrição do poema “Natal”, trouxe-me à memória outro escritor da Guarda, nascido lá para a raia de Espanha, em terra de contrabandistas. Logicamente, refiro-me a Nuno de Montemor que, no seu livro de contos Encantos Meus, tem um cheio de ternura e humanidade, como aliás em toda a sua obra, ou não fosse ele o fundador do nosso Lactário Dr. Proença. O conto intitula-se “João Manuel” e é a história de um rapazinho que fica órfão de pais muito novo e que a figura tutelar do Padre Domingos entrega aos cuidados de duas tias provincianas que nunca tinham saído de Orjais. Ora estas marafonas, mal se apanham administradoras da fortuna do pobre rapaz, entregam-se a uma vida menos aconselhável e vão negando ao menino aquilo que ele queria dar aos seus amigos da aldeia: carradas de brinquedos. Assim lho promete, mas não pode cumprir porque as tias preferem gastar dinheiro nas comezainas e vestimentas a satisfazer os seus desejos. Quando na altura do Natal vêm à aldeia, João Manuel liberta-se da tutela pressionante das parentas e faz uma série de travessuras que culminam no seu desaparecimento com medo do castigo. Na noite de Natal, toda a gente o procura sem descanso até que desistem de o procurar. Na manhã seguinte, quando o criado da quinta vai à corte deitar de comer às vacas, dá com o petiz escondido na manjedoura, onde se tinha deixado dormir aquecido pelo bafo das mesmas e aos seus gritos de alegria, junta-se o povo e todos contemplam a cena digna do presépio. Uma das tias entra, “enfurecida e de mão alçada, a perguntar alto: - Quem julga que é o menino, para fazer todo este rebuliço?! E o João Manuel, ao ver-se na manjedoura, entre palhas e vacas mansas, respondeu sem atinar com mais desculpas: - Eu sou o menino Jesus!” É ou não uma história de Natal? Desligada da vida? Idealista? Cheia de humanismo, escrita por alguém que toda a vida pregou Cristo compadecido pelos mais fracos e desprotegidos: “os pobrezinhos de Cristo”. Claro que, na sua obra, há outras referências ao Natal e ao presépio, mas uma das grandes lições da sua obra e da sua vida é precisamente a da grandeza dos humildes que sabem dar melhores lições que os grandes e poderosos. É o escritor eivado do “Amor de Deus e da Terra”.

3. Termino com a transcrição dum soneto do poeta Cristino Cortes, nosso contemporâneo e conterrâneo (Fiães, Trancoso), que glosou assim o tema do Natal:

 

POEMA DE NATAL

 

Nos arredores da cidade tenho uma lareira.

Acendo-a e creio que nem seria Natal

Sem a chama avermelhada dum monte de madeira

E o calor de dentro de cada um íntimo sinal

 

Esqueçamos o fumo o acto de fumegar e o cheiro

E a barriga aconchegada o que nos vai custar;

O  menino nasceu, há tempo da Páscoa chegar

Um tempo de repouso um riso ao mudar-lhe o cueiro

 

Nem haveria Natal sem frio e sol e quem me dera

Voltar a um coração de criança neste dia;

Acreditar no que é próprio natural a alegria

De quem nada receia tudo sabe e tudo espera...

 

Assim penso fixando e remexendo as brasas da lareira.

É Natal, sim, é Natal desta e de muita outra maneira.

 

(“Em Lisboa pelo Natal …”, Editora Ulmeiro)

 

Haveria muito mais a dizer de autores locais ou nacionais, mas … boas leituras e BOM NATAL!

 

[Texto publicado no jornal "A Guarda", 23.12.2010

E até mais tarde. Segue-se pequena pausa reflexiva.]

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