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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

"Nom me posso pagar ..."

   Non me posso pagar tanto    
   do canto
   das aves nen de seu son,
   nen d'amor nen de ambiçom  
   nen d'armas - ca ei espanto, 
   por quanto
   mui perigo[o]sas son, 
   - come dun bon galeon,
   que mi alongue muit' aginha
   deste demo da campinha,   

   u os alacraes son;
   ca dentro no coracon
   senti deles a espinha!


   E juro par Deus lo santo
   que manto 
   non tragerei nen granhon,
   nen terrei d'amor razon
   nen d'armas, por que quebranto
   e chanto
   ven delas toda sazon;  
   mais tragerei un dormon,
   e irei pela marinha
   vendend' azeit' e farinha;
   e fugirei do pocon
   do alacran, ca eu non  
   lhi sei outra meezinha.

   Nen de lançar a tavolado
   pagado
   non soo, se Deus m'ampar
   aqui, nen de bafordar; 
   e andar de noute armado,
   sen grado
   o faço, e a roldar;
   ca mais me pago do mar
   que de seer cavaleiro; 
   ca eu foi ja marinheiro
   e quero-m' oimais guardar
   do alacran, e tornar
   ao que me foi primeiro.

   direi-vos un recado:   
   pecado
   nunca me pod' enganar
   que me faça ja falar
   en armas, ca non m'e dado
   (doado 
   m'e de as eu razoar,
   pois-las non ei a provar);
   ante quer' andar sinlheiro
   e ir como mercadeiro
   algua terra buscar, 
   u me non possan culpar
   alacran negro nem veiro.

 

D. Afonso X, rei de Castela e Leon

 

Aqui deixo a "tradução" da Dr.a Elsa Gonçalves:

 

I. Não posso agradar-me tanto do canto das aves, nem da sua melodia, nem do amor, nem da ambição, nem das armas — pois me causam pavor, porquanto são muito perigosas — como me agrado de um bom galeão que me leve muito depressa para bem longe deste demónio de campina onde há lacraus, pois dentro do coração senti a sua ferroada.

 

II. E juro por Deus santo que não levarei manto, nem barba, nem me ocuparei do amor, nem das armas — pois delas vem sempre quebranto e pranto — mas levarei um bergantim e irei pela beira-mar, vendendo azeite e farinha, e fugirei do veneno do lacrau, pois não conheço outro remédio contra ele.

 

III. Nem me agrada o jogo do tavolado, assim Deus me ajude, nem do bafordo, e se ando de noite armado ou a rondar, faço-o sem prazer; mais me agrada o mar do que ser cavaleiro e daqui em diante quero livrar-me do lacrau e voltar a ser o que fui.

 

IV. E mais vos direi: o demónio já não pode induzir-me em  engano, que me faça falar em armas, pois não me diz respeito (é inútil que eu fale delas, pois não voltarei a usá-las.); antes quero andar solitário e ir como mercador procurar alguma terra onde não me possa picar lacrau negro nem de várias cores.

 

[ Elsa Gonçalves, Maria Ana Ramos, A lírica galego-portuguesa, Editora Comunicação]