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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

NATAL - José Régio

 

Mais uma vez, cá vimos

Festejar o teu novo nascimento,

Nós, que, parece, nos desiludimos

Do teu advento!

 

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!

Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,

Festejar-te, ─ do fundo

Da miséria que somos.

 

Os que à chegada

Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,

Somos ─ não uma vez, mas cada ─

Teus assassinos.

 

À tua mesa nos sentamos:

Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;

Mas por trinta moedas te entregamos;

E por temor, negamos o teu nome.

 

Sob escárnios e ultrajes,

Ao vulgo te exibimos, que te aclame;

Te rojamos nas lajes;

Te cravejamos numa cruz infame.

 

Depois, a mesma cruz, a erguemos,

Como um farol de salvação,

Sobre as cidades em que ferve extremos

A nossa corrupção.

 

Os que em leilão a arrematamos

Como sagrada peça única,

Somos os que jogamos,

Para comércio, a tua túnica.

 

Tais somos, os que, por costume,

Vimos, mais uma vez,

Aquecer-nos ao lume

Que do teu frio e solidão nos dês.

 

Como é que ainda tens a infinita paciência

De voltar, ─ e te esqueces

De que a nossa indigência

Recusa Tudo que lhe ofereces?

 

Mas, se um ano tu deixas de nascer,

Se de vez se nos cala a tua voz,

Se enfim por nós desistes de morrer,

Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

 

 

 

Diário de Notícias, edição nº 33 345, de 25 de Dezembro de 1958 

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