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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Aquela Canção

 

É tarde e a cidade parece dormir
E eu quero ficar acordado

Perguntas-me o porquê de me estar a rir
Tenho o segredo mais bem guardo

E no abraço apertado
Cantamos aquela canção

Entre a pressa e o desejo
Secreta paixão
Rodamos entre 4 paredes

Com a força de um beijo
Tiras-me o chão
Corpo seco, que mata a sede

E ri-mos como crianças
Talvez já nem haja amanhã

Como a força do mar num porto qualquer
És a calma de um rio nessa pele de mulher
Como chama que arde e se apaga a seguir
És passado, és presente
És futuro que há-de vir
Como o ar que me falta e se aperta no peito
És a palavra certa no poema perfeito
Como brisa que vem numa tarde de Verão
És a voz no silêncio…

És aquela canção…

 

Miguel Gameiro

 

https://www.youtube.com/watch?v=bGw1gntnxic

Cabeço das Fráguas.

fraguas 1.jpg

 [Foto de Ana Isabel Santos]

Os dias da cidade

Cabeço das Fráguas

 

     Diz uma das lendas sobre a origem da nossa cidade que as ferramentas para a sua construção no cimo do cabeço das Fráguas, apareciam na manhã seguinte no sítio onde hoje a cidade está construída. Após várias tentativas goradas e sempre com o mesmo desfecho, a cidade acabou por ser construída no local onde hoje se encontra e o fenómeno foi interpretado como algo sobrenatural.

     As lendas são o que são, ou seja, uma tentativa de explicar o inexplicável racionalmente em determinado tempo e em determinado lugar. Mas por que razão aparece o referido cabeço nesta lenda e neste contexto? Desde 1943, quando o General João de Almeida deu a conhecer uma inscrição, situada numa laje (da Moira) no alto da Fráguas, que o sítio se tornou um ponto histórico e foi objecto, repetidas vezes, de estudos quer históricos, quer geográficos, quer linguísticos. Em 1956, o nosso conterrâneo e historiador, Dr. Adriano Vasco Rodrigues, transcreveu a célebre inscrição para o papel e tentou interpretá-la. Refira-se que é das únicas da península em celtibero e, por isso, é difícil interpretá-la, mas todos os estudiosos concordam que é um voto de um sacrifício chamado suovetaurilius, isto é, de um porco, uma ovelha e um touro em honra de deuses locais. Há vestígios nas imediações de habitação no tempo dos romanos, mas há provas do cume ter sido habitado muito antes (século V a. C.) e teria sido um castro fortificado como provam ainda uns restos de muralhas primitivas. O Dr. Adriano Vasco Rodrigues descobriu numa quinta no sopé do monte múltiplos vestígios pré-romanos.

    A importância do cabeço advém da posição geográfica, dominadora de todo o planalto guardense desde Monsanto até ao Jarmelo e desde a Guarda até à Serra das Mesas. Fica num ponto intermédio e de passagem obrigatória da transumância que da região da Guarda se dirigia para sul e vice-versa. Do cume é possível ver a Guarda, a Covilhã e outras localidades como, bem ao longe, Monsanto. Um dedicado estudioso do Cabeço, o Professor Célio Rolinho Pires, natural de Pega, investigou toda a região e deixou-nos vários livros onde espelhou as suas conclusões. Fazia ele derivar Fráguas, não das forjas romanas como querem os linguistas, mas da palavra Fratria remetendo a importância do local para um culto feminino que dominaria toda a região e que os primitivos habitantes teriam deixado gravado nas pedras que ainda hoje povoam os nossos cabeços. E, à região que vai da Guarda até à Serra da Opa e de Belmonte até ao Sabugal, grosso modo, designou-a de país das pedras. A verdade é que ainda me lembro, quando era gaiato de ouvir dizer que fulano e sicrano tinham ido às Pedras buscar figos e outros bens agrícolas. Na altura não entendia a designação, mas ainda me lembro da existência de uma estrada de terra batida que ligava Panóias (Valcovo) à Bendada e que servia de via da ligação entre a região da Guarda e aquela aldeia do concelho do Sabugal.

     Hoje o cabeço pertence à freguesia da Benespera e faz limite com Santana da Azinha e Pousafoles do Bispo. Como possível lugar mais antigo a ter sido habitado e como referência histórico-linguística dos lusitanos, devia ser visitado por todos os guardenses, quase local de peregrinação às origens. A verdade é que é um sítio bastante esquecido em termos históricos e só de vez em quando é lembrada a sua importância para a história local. Em 2012, houve uma romagem teatral promovida pela Culturguarda que levou até lá muitos guardenses e o Museu da Guarda já promoveu também algumas iniciativas relativas à referida inscrição.

     Mas sendo o local tão importante para nós guardenses, não seria de sinalizá-lo convenientemente e promover algumas visitas guiadas de modo a conhecermos melhor a sua importância e assim relevarmos as nossas origens ancestrais? Há o óbice de os terrenos pertencerem a privados, mas se houvesse colaboração entre as Câmaras da Guarda e do Sabugal para pôr o local no mapa cultural não seria difícil, acho eu, traçar um percurso que respeitasse a natureza e preservasse o sítio arqueológico de possíveis vandalismos. No mês passado desloquei-me lá com os meus alunos numa caminhada de fim de ano e foi-nos difícil encontrar o acesso pelo lado da Demoura – que é o que tem menor inclinação – pois as mariolas que balizam as veredas estão um pouco dispersas e escondidas pelas ervas. 

 

José Monteiro

 

[Texto publicado no jornal A Guarda na quinta feira 05.07.2018]

Eduardo Lourenço

A memória das palavras

Eduardo Lourenço

“… namoro com tudo o que acho belo …”, Eduardo Lourenço

     95 anos são mais que uma vida, são uma quantidade enorme de experiência refletida numa série de publicações que foram pensando o mundo, a própria vida e, fugazmente, até a nossa cidade. São resmas de páginas intensas de um homem que viveu a vida a “pensar”. Literalmente.

     Desde 1923, ano em que nasceu na humilde e raiana aldeia de São Pedro de Rio Seco, o labirinto lourenciano foi-se construindo na humildade, na solidão e, quiçá, na saudade. É nesse livro emblemático que ainda hoje continua atual, o Labirinto da Saudade, publicado em 1978, que o seu pensamento emerge e nele inicia a sua visão sobre a portugalidade: o que somos face à Europa e ao mundo. O que fomos, o que somos, o que poderemos ser como povo? É necessário encontrar um caminho, uma identidade. E é, no contexto do pós 25 de abril, que Eduardo Lourenço (EL) inicia a sua meditação sobre essa identidade. Difícil de definir como povo, o português deve ser visto pela sua obra e essa revela um povo de poucos brandos costumes e de emigrantes. Ele próprio um emigrante que nunca saiu da pátria.

     Cedo sai da sua aldeia, primeiro para a Guarda e depois para Lisboa, porque o pai, feito militar para fugir às condicionantes de pobreza do Portugal de então, lhe pode oferecer uma educação libertadora. E, segundo o irmão, sendo um rapaz curioso, depressa começou a questionar-se e a questionar. A segunda fuga é para França, em 1949, com uma bolsa de estudos para aprofundar o conhecimento de Malebranche. Aí conhece o sorriso de Annie Salomon e se apaixona, talvez pelo seu sorriso, porque tudo o que é belo é para namorar (EL). Às suas custas e em dição de autor publica Heterodoxias (1949). É um livro marcante de posições: longe do salazarismo, mas também das ortodoxias comunistas. E entra nos domínios literários estudando exaustivamente Fernando Pessoa e afirmando que O Livro do Desassossego, é uma das obras que melhor reflete o ser português e os seus traumas a par de Os Lusíadas, da Mensagem e de A Arte de Ser Português de Pascoaes. Mas, no primeiro, está o Portugal presente e futuro, “Pela sua capacidade de mostrar todas as contradições do homem moderno, a dissolução do sujeito, a fragmentação do discurso, a crise da experiência moderna.” Sabendo que também o Padre António Vieira é um dos seus ícones preferidos o que pensará EL da tentativa de retirar a sua estátua de Lisboa? “Tirar a estátua do Vieira? Era só o que faltava! Ele que foi um génio literário ímpar, que teve uma visão cristã fora dos padrões da época e da nossa tradição, que percebeu o lado inumano da escravidão e que fez o possível, no seu ponto de vista, por pregar aos brancos dominadores que eles eram uns maus cristãos. Naquele tempo ninguém foi tão longe.”

     Hoje, aos 95 anos, o que pensa de Portugal e da nossa identidade? Hoje somos um país que foi levado pelo movimento europeu e mundial, que perdeu as matrizes cristãs e iluministas. No entanto, os traumas da nossa história mantêm-se latentes e podem emergir a qualquer momento. Mudámos porque a Europa mudou e “Como todo o Ocidente tornámo-nos todo o mundo e ninguém.”

     Para imortalizar o pensador, Miguel Gonçalves Mendes realizou um filme/documentário cujo nome é precisamente o livro de referência de EL, O Labirinto da Saudade. Inicialmente nos cinemas, durante uma semana, terá depois como destinatários os alunos de escolas e universidades portuguesas e lusófonas. É uma maneira de Portugal dar a conhecer um dos seus maiores pensadores e a sua realização partiu da iniciativa do General Luís Sequeira e do General Ramalho Eanes que convenceu EL a participar. E a Guarda?

José Manuel Monteiro

(* As citações foram retiradas da entrevista, dada por Eduardo Lourenço, ao jornal Observador, do dia 23.05.2018)

 

[Texto no jornal "A Guarda" de 31.05.2018]

RIP

Há dias em que sentimos que o mundo está a acabar. Quando desaparece o último elemento de uma geração da família, sabemos que estamos a ficar velhos. O mundo fica mais pequeno. O tempo surge de repente limitado. Uma geração fenece e quem fica? Nós. Somos os próximos na linha geracional. Isso não quer dizer necessariamente que é para amanhã. Pode ser já para hoje.

Mas a memória mantém-se e essa geração que nos alimentou a alma e o coração, que deixou marcas, que nos ensinou valores, que nos transmitiu a vida, ficará com lugar marcado em nós. Cabe-nos não os esquecer. Assim viverão connosco e com as gerações vindouras ad aeternum!

Descanse em paz!

Da Cultura

Os dias da cidade

Da Cultura

 

"Toda a cultura real trabalha para a libertação do homem e por isso é, na sua raiz, revolucionária."

(Sophia de Mello Breyner)

 

     Numa altura em que se celebra o Dia da Liberdade, vieram-me à memória estas palavras de uma das maiores poetisas do século XX português e, ao mesmo tempo, uma das grandes lutadoras contra o estado novo. A cultura deve ser sempre revolucionária e os políticos, porque sabem isso, tentam dominar esses espíritos criadores de ideias e textos capazes de mudar algumas mentalidades. É por demais sabido que os ditadores tentaram e tentam acabar com os pensadores e com as ideias novas porque, como diz a frase, elas libertam o homem.

     Liberdade é o anseio do homem instruído pela leitura. É a própria respiração que nos exige esse amor à liberdade: se não lermos não respiramos. A grandeza da república romana foi construída por homens que souberam valorizar e dar importância à cultura, com Marco Túlio Cícero à cabeça. Este homem foi o primeiro a defender a riqueza que é ter ideias próprias e pensar por si. No célebre discurso – não pela importância do caso jurídico em si, mas pelo tema tratado – “Em defesa do poeta Árquias”, faz a apologia da poesia e da cultura para exaltar a consciência de ser romano, mesmo não tendo nascido em Roma. Por isso também, a partir de certa altura, começou a ser perseguido pelo poder político da velha cidade. Precisamente porque, como disse Sofia, foi um revolucionário. As cidades tornam-se grandes quando os seus dirigentes respeitam e acolhem os escritores e pensadores. Também a produção literária dos cidadãos de uma cidade a enaltece e divulga fora de portas.

     A nossa cidade orgulha-se e bem de ter uma série de escritores ilustres que a exaltaram e que levaram o seu nome bem longe. Hoje, a Guarda continua a ter um grupo razoável de escritores. Não está em causa a sua valia literária ou a sua importância nacional. Alguns têm-na, outros podem vir a tê-la no futuro. Importa, sim, acarinhar e continuar a divulgar esses autores e esse foi o papel da BMEL durante algum tempo que, espero, sinceramente, continue a exercer. Recordo brevemente e a título exemplificativo alguns nomes que publicaram recentemente. Maria Afonso, Carlos Adaixo, Jorge Margarido, Odete Ferreira, Daniel Rocha, Manuel A Domingos, Alexandre Gonçalves, Rodrigo Santos, António Godinho e o mais produtivo e “internacional”, Américo Rodrigues. Peço desculpa se fica algum nome por referir, mas são alguns mais e que exigem uma atualização do livro “Antologia de Escritores da Guarda (séc. XII a XX)” dos também escritores António José Dias de Almeida e José Manuel Mota da Romana.

     Voltando ao ponto de partida, nada melhor para celebrar a liberdade de 74, do que promover a divulgação destes autores, para que a cidade possa ser referência para todo aquele que quer ser culto e assim levar à consciência de uma cidadania ativa. Só seremos livres se tivermos a possibilidade de conhecer, de interpretar, de sonhar como dizia Fernando Pessoa. Só o sonho liberta o ser humano. Se ficarmos apegados àquilo que as televisões nos impingem apenas seremos escravos das ideias de um grupo de financeiros que querem que o mundo pense à maneira deles para não os perturbar. Podemos não ser livres, mas devemos ter essa ânsia dentro de nós, como bem disse Miguel Torga: "Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Ou então, para terminar em grande, dizer com Sophia:

Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo 

   Celebremos a Liberdade!

 

[Texto publicado em "A Guarda", de 26.04.2018]

PUDESSE EU VIVER

maria-teresa-horta.jpg

 

Pudesse eu viver
no interior da poesia
cada palavra um rigor

 

cada maneira de amor
que eu descrevesse
cada verso do corpo

 

e do despir, cada rima
de beleza e de fragor

 

cada poema de paixão
e liberdade
de tristeza e solidão

 

Maria Teresa Horta

Primeiro Amor

Poeta João de Deus - Caricatura de Rafael Bordalo

 

Ó Mãe... de minha mãe! 
Explica-me o segredo 
Que eu mesmo a Deus sem medo 
Não ia confessar: 
Aquele seu olhar 
Persegue-me, e receio, 
Pressinto no meu seio 
Ergue-se-me outro altar! 

Eu em o vendo aspiro 
Um ar mais puro, e tremo... 
Não sei que abismo temo 
Ou que inefável bem... 
Oh! e como eu suspiro 
Em êxtase o seu nome!... 
Que enigma me consome, 
Ó Mãe de minha mãe! 

João de Deus, in 'Campo de Flores' 

Ninguém Meu Amor

sebastião alba.jpg

 

Ninguém meu amor 
ninguém como nós conhece o sol 
Podem utilizá-lo nos espelhos 
apagar com ele 
os barcos de papel dos nossos lagos 
podem obrigá-lo a parar 
à entrada das casas mais baixas 
podem ainda fazer 
com que a noite gravite 
hoje do mesmo lado 
Mas ninguém meu amor 
ninguém como nós conhece o sol 
Até que o sol degole 
o horizonte em que um a um 
nos deitam 
vendando-nos os olhos 

Sebastião Alba, in 'A Noite Dividida' 

Paisagens

teixeira de pascoaes.jpg

 

Num pálido desmaio a luz do dia afrouxa

E põe, na face triste, um véu de seda roxa...

Nuvens, a escorrer sangue, esvoaçam, no poente.

E num ermo, que o outono adora eternamente,

Vê-se velhinha casa, em ruínas de tristeza,

Onde o espectro do vento, às horas mortas, reza

E o luar se condensa em vultos de segredo...

Almas da solidão, sombras que fazem medo,

Vidas que o sol antigo, um outro sol, doirou,

Fumo ainda a subir dum lar que se apagou.

 

Teixeira de Pascoaes