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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Natal

Natal é dentro de nós -

o de dentro é que é belo –

Basta sabermos dar voz

A toda verdade e anelo!

 

Natal é dar-se ao semelhante

Seguir o exemplo do Melhor,

Viver sempre cada instante

No seu máximo esplendor.

 

Natal é sermos genuínos

Dar ao próximo alegria

Voltarmos a ser meninos

Não apenas num só dia.

 

Enfim, celebremos com amor

O bom que cada um tem;

Façamos de nossas casas

O presépio humilde de Belém!

 

J M (Natal de 2020)

Sentir

Vi teu olhar preso na lua que ia subindo

a custo a tarde quente de te ver

fiquei expectante à procura duma estrela

que te adornasse o perfil grego

de deusa apanhada na humana condição

 

acabei por perder-me na noite sorrindo

para dentro do meu próprio ser:

ninguém tem dúvidas que és bela

nem sequer se questiona o teu apego

aos sentimentos bonitos do coração.

 

J M

2020.07.27

Onde me me levas rio que cantei.

 

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me leva?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa.
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos.
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra fase na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.

Eugénio de Andrade

...

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser...

Eugénio de Andrade

Dias incertos

"És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças..."

Miguel Torga, Sísifo.

Estes dias que vivemos arrasaram as mentes e danificaram certamente o raciocínio de algumas pessoas. Muitas mesmo. A célebre frase do início "vai ficar tudo bem", está a revelar-se uma mentira fabulosa, sim de fábula. Foi transformada num mito, pois o que hoje em dia verificamos, é que as pessoas em vez de melhorarem no seu humanismo tornaram-se muito mais radicais. Como é possível retirar livros clássicos consagrados pela fruição de milhões de leitores de listas com o argumento falacioso de que são racistas? Então vamos renegar "Os Lusíadas" porque são uma epopeia colonizadora? Ou banir a "Peregrinação" porque ofende os malaios, os indonésios e outros povos maltratados pelos portugueses no Oriente? Sejamos sensatos. Aqueles que se dizem antirracistas e derrubam estátuas por causa de representarem colonizadores ou esclavagistas não estão a cometer um crime de lesa-história? Essa estátuas lembram precisamente o mal que foi feito e podem levar-nos a evitar que volte a suceder. Os livros que representam a história literária de um povo são ficção e por isso são património da humanidade e devem servir-nos de lição para não repetirmos os erros de outras épocas. Não haverá racismo impregnado nas mentes que provocam estes actos? Por detrás das manifestações antirracismo quantas mentes racistas imperam? E os governantes não estarão a tolerar aquilo que pode vir a ser pernicioso para a sociedade? Se somos humanistas não devemos olhar a cor da pele, nem a cor dos olhos, nem a religião professada. Devemos pensar que do outro lado está um ser humano e é por isso que deve ser respeitado nas suas liberdades e nos seus direitos. Quando nos esquecemos disso - e parece que hoje nos esquecemos facilmente disso - nascem os fanatismos, as opressões, a limitação do pensamento. Se as pessoas lessem mais e pensassem por si em vez de se deixarem "lavar mentalmente" pelos programas televisivos de entretenimento reles que só veiculam não-valores e pensassem que as televisões e as redes sociais exploram e transmitem apenas aquilo que interessa ao(s) poder(es) instituído(s), o nosso mundo seria bem melhor. Daí os versos em epígrafe do poeta: "És homem, não te esqueças!"

Daniel Faria

A mão aberta já não liga
E o sol desce tão devagar como o último voo das pombas.
Há nos meus olhos dois poços
Na paisagem
Duas estrelas que ferem como rodas dentadas dentro de máquinas.
E é noite. No meio do escuro peço
Uma pedra incendiada. Pego-a com ambas as mãos
Levo-a à boca e das chamas bebo
Água

Daniel Faria, "Poesia", p. 48

SÚPLICA

 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

 

MIGUEL TORGA, in CÂMARA ARDENTE

Brinca

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás de ser!

Miguel Torga

In Memoriam -1995 / 2020

Há 25 anos não havia trovoada, nem condições para existir, mas a notícia caiu em nós com os efeitos dramáticos da perda. O teu coração parava, depois de uma luta persistente. Deixava-nos a tua essência de pai, orientador da família, de nós. O teu espírito permanece connosco, hoje à distância destes tempos vividos. Continuas vivo porque te lembramos, porque estás em nós, porque estás connosco. Ainda. Enquanto houver memória. 

 

Hoje, quase à beira do fim de um maio específico

fico à espera que a noite te devolva a vida

roubada num dia final como hoje.

 

Busco em mim as memórias de ti

e vejo-te 

no tempo da aldeia

dominante no espírito honesto

de quem doma a terra

dando exemplos pelo exemplo.

 

Anoiteceste um dia como hoje.

 

As memórias de ti espalharam-se 

pelos espaços que ainda são teus:

a casa, o chão, os cômaros,

os lameiros, os pinhais, ...

sei lá, os espaços marcados

pela tua ternura paterna.

 

A lua continua lá, mas já não é a mesma.

E a noite opaca revive-te apenas na memória dos gestos.

 

Fazes-nos falta!

 

JM - 31.05.2012

MUSA AUSENTE

 

Falta a luz dos teus olhos na paisagem:
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
Da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
Muram a tua ausência.
Sem transparência,
O mesmo rio que te reflectiu
Afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu
À hora em que teria amanhecido.

Diário IX
Miguel Torga