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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Gentes da Guarda - Rua do Encontro

Gentes da Guarda

RUA DO ENCONTRO

(Ficções da Guarda)

 

    No dia 5 de Maio, foi apresentado no pátio interior do Museu, o livro “Rua do Encontro”, compilação de 13 contos de autores nascidos ou com ligações fortes à Guarda. A iniciativa integra-se no âmbito da Candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura 2027 e teve a coordenação do Prof. Thierry dos Santos, Diretor do Museu.

     «Com este projeto editorial, não só se presta […] uma homenagem à multissecular urbe com cunho sanchino como se oferec[e] aos amantes de literatura por ela atraídos um livro passível de lhes criar uma conexão emocional com os seus imaginários e cenários singulares.» Estas palavras do Sr. Diretor resumem, no essencial, o conteúdo da obra: criar uma ligação da cidade com os seus habitantes, ligação afetiva e social e histórica, obviamente. Os textos são de Ana Monteiro, Anabela Matias, Ângela Canez, António Moreira, Carlos Adaixo, Carlos Carvalheira, Carlos Galinho Pires, Cristino Cortes, Jerónimo Jarmelo, Jorge Carvalheira, Jorge Margarido, Maria Afonso e Teresa Martins Marques, englobando pessoas de várias gerações. A maioria destas 13 narrativas regressa ao passado quer individual, quer histórico para nos levar a percorrer vários espaços e tempos ligados à nossa cidade. Como referiu o Prof. Joaquim Igreja na apresentação, nenhum dos contos viaja para o futuro da cidade. Repensar a cidade projetando-a para o que há de vir, será tarefa para outras narrativas, talvez. É, então, um livro em que se entrecruzam personagens do imaginário citadino desde o seu fundador, D. Sancho, e dos seus amores paralelos com a Ribeirinha até personagens mais próximas de nós, do século XX por exemplo. "Oferece-se ao leitor um percurso pelo imaginário guardense, revelador de aspetos mais profundos da cidade beirã e potenciador de reflexões críticas acerca dos estereótipos que lhe estão associados", no dizer do Sr. Presidente da Câmara, Carlos Monteiro. Significativo é o conto Os Fantasmas cá da Terra”, de Anabela Matias, onde se entrecruzam várias figuras do imaginário citadino, alternando entre os dois espaços sociais da Guarda, do século XX: o Café Monteneve e o Café Mondego.

     Em termos da narrativa, literariamente falando, temos um discurso quase sempre prosaico, mas há textos que cruzam a narrativa e a poesia. É o caso do conto referido acima, mas também dos contos de Ana Monteiro, Maria Afonso, Carlos Carvalheira. Há depois outros que entram pelo mito dentro dando-nos uma visão teatralizada da cidade como lugar de culto ou de desmitificação. Aí podemos inserir o conto “O Santo Sacrifício”, de Cristino Cortes, que nos recorda a “assistência” da juventude às cerimónias sagradas dos domingos. Pela contemplação exterior é bom de ver.

     Como não podia deixar de ser, a neve tem presença assegurada quer pela rememoração de brincadeiras infantis (Carlos Galinho Pires), quer pela presença irrevogável da “Balada” giliana. Também a época natalícia é revisitada (Jerónimo Jarmelo), ou a rua dos primeiros amores (Carlos Adaixo). A presença do R12, na cidade, não fica esquecida (António Moreira), assim como o ensino, nessa época menos boa do salazarismo, na visão da história oficializada nas aulas através do compêndio do Mattoso (Jorge Carvalheira), ou na pobreza muitas vezes “disfarçada” nos amores impossíveis das aldeias (Teresa Marques).

      Há ainda um toque de aproximação ao presente em 2 contos, narrativas singulares nesta coletânea a juntar á já referida de Ana Monteiro, que nos dão simultaneamente uma visão diferente da cidade sanchina. Refiro-me à narrativa de Ângela Canez que contrapõe a Dra. Matilde da cidade alta ao Quim da zona da estação, lavador de louça num restaurante francês. Inconciliáveis?  Física e socialmente, sim. Por fim, em “Detalhes e Bohemia” (Jorge Margarido) vemos a intrusão do turista na cidade e o regresso inadiável, mas sempre repetido. No espaço simbólico entre a Guarda e Vilar Formoso.

     Termino este aperitivo de leitura, porque vale mesmo a pena ler este livro, com as palavras de Helena Rebelo no posfácio: «A Guarda é uma cidade histórica e, nela, muito há para contar dos séculos passados ao presente porque o futuro está aí à porta e precisa de lembranças. É o que esta compilação de contos faz, uma vez que possibilita guardar um património literário, cultural e linguístico comum.»

Jornal "A Guarda" de 03.06.2021

 

Natal

Natal é dentro de nós -

o de dentro é que é belo –

Basta sabermos dar voz

A toda verdade e anelo!

 

Natal é dar-se ao semelhante

Seguir o exemplo do Melhor,

Viver sempre cada instante

No seu máximo esplendor.

 

Natal é sermos genuínos

Dar ao próximo alegria

Voltarmos a ser meninos

Não apenas num só dia.

 

Enfim, celebremos com amor

O bom que cada um tem;

Façamos de nossas casas

O presépio humilde de Belém!

 

J M (Natal de 2020)

Sentir

Vi teu olhar preso na lua que ia subindo

a custo a tarde quente de te ver

fiquei expectante à procura duma estrela

que te adornasse o perfil grego

de deusa apanhada na humana condição

 

acabei por perder-me na noite sorrindo

para dentro do meu próprio ser:

ninguém tem dúvidas que és bela

nem sequer se questiona o teu apego

aos sentimentos bonitos do coração.

 

J M

2020.07.27

Onde me me levas rio que cantei.

 

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me leva?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa.
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos.
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra fase na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.

Eugénio de Andrade

...

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser...

Eugénio de Andrade

Dias incertos

"És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças..."

Miguel Torga, Sísifo.

Estes dias que vivemos arrasaram as mentes e danificaram certamente o raciocínio de algumas pessoas. Muitas mesmo. A célebre frase do início "vai ficar tudo bem", está a revelar-se uma mentira fabulosa, sim de fábula. Foi transformada num mito, pois o que hoje em dia verificamos, é que as pessoas em vez de melhorarem no seu humanismo tornaram-se muito mais radicais. Como é possível retirar livros clássicos consagrados pela fruição de milhões de leitores de listas com o argumento falacioso de que são racistas? Então vamos renegar "Os Lusíadas" porque são uma epopeia colonizadora? Ou banir a "Peregrinação" porque ofende os malaios, os indonésios e outros povos maltratados pelos portugueses no Oriente? Sejamos sensatos. Aqueles que se dizem antirracistas e derrubam estátuas por causa de representarem colonizadores ou esclavagistas não estão a cometer um crime de lesa-história? Essa estátuas lembram precisamente o mal que foi feito e podem levar-nos a evitar que volte a suceder. Os livros que representam a história literária de um povo são ficção e por isso são património da humanidade e devem servir-nos de lição para não repetirmos os erros de outras épocas. Não haverá racismo impregnado nas mentes que provocam estes actos? Por detrás das manifestações antirracismo quantas mentes racistas imperam? E os governantes não estarão a tolerar aquilo que pode vir a ser pernicioso para a sociedade? Se somos humanistas não devemos olhar a cor da pele, nem a cor dos olhos, nem a religião professada. Devemos pensar que do outro lado está um ser humano e é por isso que deve ser respeitado nas suas liberdades e nos seus direitos. Quando nos esquecemos disso - e parece que hoje nos esquecemos facilmente disso - nascem os fanatismos, as opressões, a limitação do pensamento. Se as pessoas lessem mais e pensassem por si em vez de se deixarem "lavar mentalmente" pelos programas televisivos de entretenimento reles que só veiculam não-valores e pensassem que as televisões e as redes sociais exploram e transmitem apenas aquilo que interessa ao(s) poder(es) instituído(s), o nosso mundo seria bem melhor. Daí os versos em epígrafe do poeta: "És homem, não te esqueças!"

Daniel Faria

A mão aberta já não liga
E o sol desce tão devagar como o último voo das pombas.
Há nos meus olhos dois poços
Na paisagem
Duas estrelas que ferem como rodas dentadas dentro de máquinas.
E é noite. No meio do escuro peço
Uma pedra incendiada. Pego-a com ambas as mãos
Levo-a à boca e das chamas bebo
Água

Daniel Faria, "Poesia", p. 48

SÚPLICA

 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

 

MIGUEL TORGA, in CÂMARA ARDENTE

Brinca

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás de ser!

Miguel Torga

In Memoriam -1995 / 2020

Há 25 anos não havia trovoada, nem condições para existir, mas a notícia caiu em nós com os efeitos dramáticos da perda. O teu coração parava, depois de uma luta persistente. Deixava-nos a tua essência de pai, orientador da família, de nós. O teu espírito permanece connosco, hoje à distância destes tempos vividos. Continuas vivo porque te lembramos, porque estás em nós, porque estás connosco. Ainda. Enquanto houver memória. 

 

Hoje, quase à beira do fim de um maio específico

fico à espera que a noite te devolva a vida

roubada num dia final como hoje.

 

Busco em mim as memórias de ti

e vejo-te 

no tempo da aldeia

dominante no espírito honesto

de quem doma a terra

dando exemplos pelo exemplo.

 

Anoiteceste um dia como hoje.

 

As memórias de ti espalharam-se 

pelos espaços que ainda são teus:

a casa, o chão, os cômaros,

os lameiros, os pinhais, ...

sei lá, os espaços marcados

pela tua ternura paterna.

 

A lua continua lá, mas já não é a mesma.

E a noite opaca revive-te apenas na memória dos gestos.

 

Fazes-nos falta!

 

JM - 31.05.2012