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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

TERRAS DO DEMO

A memória das palavras

TERRAS DO DEMO

     Se ler Aquilino na altura em que viveu e publicou os seus livros era uma aventura só ao alcance de alguns, hoje será de certeza um trabalho hercúleo para a maior parte dos portugueses, quanto mais para um simples estudante do secundário. Aliás, as obras de Aquilino já não fazem parte dos programas do secundário há uns anos largos.

     Passam este ano os 100 anos da publicação de um romance emblemático de um dos maiores escritores do século XX: “Terras do Demo”. Foi em 1919 que foi editado o romance e catapultou Aquilino para o mercado editorial. O título passou a designar a região em que decorre a acção da narrativa e que, como diz o seu autor no prólogo, tenta retratar uma vida aldeã que fervilha indiscriminadamente em cada ser, mas também em cada recanto de um espaço muito sui generis e ainda na fauna e flora típicas dessas terras perdidas nas serranias do interior mais profundo de um Portugal dominado por ideias mesquinhas e políticos perdidos na grande cidade. A aldeia serrana, como aquela em que fui nado e baptizado e me criei são e escorreito, é assim mesmo: barulhenta, valerosa, suja, sensual, avara, honrada, com todos os sentimentos e instintos que constituíam o empedrado da comuna antiga. Ainda ali há Abraão e os santos vêm à fala com os zagais nos silenciosos montes; ali roda o velho carro visigótico nos caminhos romanos, mais velhos que eles. (…) A vida é, de resto, sempre curiosa. Quando se ergue uma lancha em terra húmida de lameira, acontece fervilhar aos nossos olhos toda uma fauna prodigiosamente multicolor. Vive ali em cantões, paredes meias, esta bicharada que a conspícua zoologia distribui em nébrias. Mas também ali se encontram por vezes: o bicho-de-conta tímido; a centopeia monástica; uma cabrinha preta; no Verão, o grilo cantarola. (Aquilino Ribeiro, Terras do Demo.)

    Deste excerto do prólogo, dedicado a Carlos Malheiro Dias, podemos supor o conteúdo: por um lado, uma linguagem castiça, rústica, cheia de regionalismos, por outro, a preocupação de transmitir com muita fidelidade as serras, as pessoas e os costumes. E a aldeia desfila diante dos nossos olhos de leitor contando as anedotas, os aleijões que o ser humano, terrível caricaturista, vai criando paulatinamente. Vemos os sucessos e as desditas dos membros daquela sociedade fechada e mesquinha, mas capaz de dar a camisa quando o amigo ou a o rival a necessitam. Vemos o ser humano racional a emparceirar com o bruto animal, doméstico ou montanhês, (quem não se lembra da salta-pocinhas aquiliniana?). Vemos uma etnografia genuína, cheia de tradições e crenças ancestrais que recuam a Adão e Eva. É este mundo agreste, mas irresistível, que o autor vai desdobrando ante os nossos olhos atónitos com uma realidade pintada magistralmente. E a língua castiça que as personagens usam e que mostram um português retinto, aldeão, regional. Sem deslustre de quem o usa, naturalmente. Motivo de orgulho de um mundo instintivo e natural. A riqueza do léxico está na novidade com que retrata o mundo rural que, disse Eduardo Lourenço, "não estaria apenas no olhar quase etnográfico que será o seu acerca da realidade beirã em que ele mesmo enraíza, mas na textura verbal igualmente mimética, tradutora, com a mais crua fidelidade, do falar serrano".

    Nascido em Soutosa, Moimenta da Beira, apesar de ter corrido mundo por causa das suas ideias revolucionárias, nunca traiu as palavras que aprendeu na escola materna. Imortalizou-as nas suas obras e ainda aí estão para quem as quiser conhecer. No mundo citadino em que vivemos é difícil recuar a esse vocabulário telúrico, mas ajuda-nos a perceber a evolução da língua e a riqueza de um idioma que deu novos mundos ao mundo. As terras do demo são aqueles lugares onde a lenda se exprimia deste jeito: “Uma vez um homem travou do bordão e partiu a correr as sete partidas do Mundo. Andou, andou, até que foi dar a uma terra de que ninguém faz ideia: a gente comia calhaus e ladrava como os cães”.

     A propósito deste centenário as autarquias das terras do demo, Moimenta da Beira, Sernancelhe e Vila Nova de Paiva, promovem até dia 2 de Junho várias iniciativas culturais.

José Manuel Monteiro

[Texto de hoje no jornal "A Guarda"]

Apresentação de livro - Cristino Cortes

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Amanhã, em Lisboa, o poeta Cristino Cortes, natural de Fiães, Trancoso, apresenta o seu último livro de poemas, "O Que Fica". Com uma obra numerosa e variada, este livro reune as últimas produções do autor, que vêm na linha do seu conceito de poesia. Fica um poema com o título da obra para aguçar o apetite de leitura.

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O último elo

"A vida não acaba apenas se transforma."

A morte visita-nos diariamente naqueles que nos rodeiam. Umas vezes tragicamente, outras sequência natural duma vida longa. Quando parte o último elemento de uma geração de família, parece que tudo acaba. Mas não. Acaba apenas a linha natural pois fica outra geração e a memória do que parte permanece naqueles que o lembram. Por isso viverá neles. Por quanto tempo? Enquanto a recordação ficar na fisionomia de um rosto, no jeito de ser ou falar, num tique, num gesto, enfim, em algo que nos reviva esse ser que partiu antes de nós.

Ontem partiu o último de uma geração de onze filhos. A família Rodriga - José Gonçalves e Mariana Josefa - ficou mais pobre. Despedimo-nos do tio Bernardino. Antes dele tinham deixado a sua marca no mundo os irmãos: Maria, Ana, Adelaide, Clementina, António, José, Manuel, Piedade, Josefa, Emília. Cada um, à sua maneira, vive hoje entre nós, como ele continuará também a viver. No modo alegre como sempre encarou a vida. Na boa disposição que distribuía com aqueles que tivemos a sorte de o conhecer. 

Até sempre.

Fernando Namora (1919-2019)

A memória das palavras

Retalhos da vida de um escritor

     Quando se nomeia Fernando Namora, vem-nos imediatamente à memória o livro ou a série da RTP, “Retalhos da vida de um médico”. É indubitavelmente o livro mais conhecido do autor que tem muita mais produção escrita e até – faceta pouco conhecida – como pintor. Livro de memórias ligado ao exercício da medicina quer nas aldeias do sul de Portugal, quer mesmo na(s) cidade(s). Porém, o centro das narrativas memorialísticas é de facto a aldeia com as suas crendices, as suas superstições e o confronto entre a medicina e os frequentes charlatães que proliferavam por todo o país. Aproveita o narrador para denunciar também as condições infra-humanas em que se vivia na maior parte das aldeias da época de uma maneira irónica, de uma maneira ingénua, de uma maneira frustrada.

   Fernando Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, faz este ano 100 anos (19 de abril de 1919). Integrou-se desde cedo na chamada geração de 40 a que pertenceram Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado ou João José Cochofel. Estreou-se com um livro de poesia, “Relevos”. Funda com outros colegas a revista Altitude e participa nas atividades do Novo Cancioneiro publicando sistematicamente textos ligados ao neorrealismo da época. Apesar dessa ligação, construiu depois uma vertente mais pessoal, denunciando aquilo que se passava na sociedade com laivos de burlesco, de naturalismo e de existencialismo.

     As suas obras, publicadas desde cedo, têm um percurso de evolução significativa sem deixar de ter uma ligação contínua. Assim, desde o romance Fogo na Noite Escura, que decorre em pleno ambiente universitário de Coimbra que integra personagens arrancadas à vida real e provenientes de várias faculdades são caraterizadas à maneira do neorrealismo pois, parecendo serem todos iguais como estudantes, acabam por denunciar um nivelamento falso ou artificial. Temos, nas obras seguintes, um ambiente rural cheio de vivacidade, mas também cheio de desníveis sociais gritantes. São exemplo disso as obras: Casa da Malta, A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio e, o melhor exemplo, Retalhos da Vida de um Médico. Mais tarde quando vai para a cidade, marcado por uma solidão infinda e pelas vivências breves do quotidiano, entra na narrativa de cariz urbano como se poderá verificar em Cidade Solitária e Domingo à Tarde. Já na década de 70 passa por uma fase cosmopolita, marcada pelas viagens que faz por exemplo à Escandinávia e pela sua participação nos encontros de Genebra. Termina o seu percurso literário adentrando-se na ficção contemporânea com Rio Triste e Resposta a Matilde e publicando reflexões intimistas em Jornal sem Data.

     A sua vida profissional – exercício de Medicina – desenrolou-se na província: Tinalhas, Monsanto (Cada manhã em Monsanto nasce o mundo.) e Pavia, fixando-se, em 1951, em Lisboa como Médico assistente do Instituto Português de Oncologia. Figura notável do mundo literário português viria a ser proposto para o Nobel da Literatura em 1981. Várias das suas obras foram transpostas para o cinema e para a rádio. A sua vida literária ficou assinalada, na parte final, pela polémica com Vergílio Ferreira. Luiz Pacheco publicou um panfleto onde acusava Fernando Namora de ter copiado frases de Vergílio Ferreira e a amizade entre os dois escritores que durava há quarenta anos acabou por ali. Disto dá notícia Vergílio Ferreira no seu Conta-Corrente: “Que livro pode ser mais importante do que a amizade entre dois homens? O Namora publicou um livro novo. Não mo mandou. Pela primeira vez em muitos anos. Reflexos da malandrice que lhe pregou o Luiz Pacheco e de que agora me julga responsável…”

    O seu espólio literário e artístico pode ser apreciado na Casa Museu em Condeixa-a-Nova. Além de romancista, como referido acima, o autor escreveu vários livros de poesia. Fica um excerto de Profecia:

Não venham dizer-me 
com frases adocicadas 
(não venham que os não oiço) 
que levo caminho errado, 
que tenho os caminhos cerrados 
à minha febre! 
Hei-de gritar, 
cair, sofrer 
— eu sei. 
Mas não quero ter outra lei, 
outro fado, outro viver. 

 

José Manuel Monteiro

[Texto publicado noa jornal "A Guarda", 04,04,2019]

SOPHIA (1919-2019)

Poema para Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Não sei porque floriram no meu rosto
os olhos e os rostos que há em ti.
Floriram por acaso, ao sol de Agosto
sem mesmo haver Agosto ou sol em mim.
Não sei porque floriram: se o orvalho os queima
(Ponho as mãos nos olhos para os proteger!)
Tão estranho! florirem no meu rosto
olhos e rostos que não posso ver.
.
Eugénio de Andrade,
Fevereiro de 1946

SOPHIA (1919-2019)

 

Senhor se da tua pura justiça
Nascem os monstros que em minha roda eu vejo
É porque alguém te venceu ou desviou
Em não sei que penumbra os teus caminhos

 

Foram talvez os anjos revoltados.
Muito tempo antes de eu ter vindo
Já se tinha a tua obra dividido

 

E em vão eu busco a tua face antiga
És sempre um deus que não tem um rosto

 

Por muito que eu te chame e te persiga.

 

MAR NOVO

SOPHIA (1919-2019)

 

CANTATA DA PAZ 


Vemos, ouvimos e lemos 
Não podemos ignorar 
Vemos, ouvimos e lemos 
Não podemos ignorar

 

Vemos, ouvimos e lemos 
Relatórios da fome 
O caminho da injustiça 
A linguagem do terror

 

A bomba de Hiroshima 
Vergonha de nós todos 
Reduziu a cinzas 
A carne das crianças

 

D'África e Vietname 
Sobe a lamentação 
Dos povos destruídos 
Dos povos destroçados

 

Nada pode apagar 
O concerto dos gritos 
O nosso tempo é 
Pecado organizado

 

Canções com aroma de abril

 

 

SOPHIA (1919-2019)

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta 
Continuará o jardim, o céu e o mar, 
E como hoje igualmente hão-de bailar 
As quatro estações à minha porta. 

Outros em Abril passarão no pomar 
Em que eu tantas vezes passei, 
Haverá longos poentes sobre o mar, 
Outros amarão as coisas que eu amei. 

Será o mesmo brilho, a mesma festa, 
Será o mesmo jardim à minha porta, 
E os cabelos doirados da floresta, 
Como se eu não estivesse morta. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar' 

SOPHIA (1919-2019)

As Amoras

 

O meu país sabe às amoras bravas 
no verão. 


Ninguém ignora que não é grande, 
nem inteligente, nem elegante o meu país, 
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seus muros parecem-me brancos, 
reparo que também no meu país o céu é azul.

 

Mar Novo

SOPHIA (1919-2019)

Os Erros

 

A confusão a fraude os erros cometidos 
A transparência perdida — o grito 
Que não conseguiu atravessar o opaco 
O limiar e o linear perdidos

 

Deverá tudo passar a ser passado 
Como projecto falhado e abandonado 
Como papel que se atira ao cesto 
Como abismo fracasso não esperança 
Ou poderemos enfrentar e superar 
Recomeçar a partir da página em branco 
Como escrita de poema obstinado?

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das coisas