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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Vergílio Ferreira 26 - (1916)

“Mas eis que surge inexorável outro espaço de memória marcado a vento, a solidão e a saudade. Sentada no cimo da montanha, essa cidade Velha, de lentos fantasmas ferrugentos, há-de elevar-se para sempre perto da estrela polar. Reconstitui-se-nos partícula a partícula na vertigem de uma adolescência rebelde, prenhe da brancura fria de uma neve frequente e fértil. Cidade branca e corroída dos séculos, abrigando-se à sombra pesada da velha Sé. Ruas apertadas nos muros obsidiantes do burgo medieval, canais estreitos de ventos gélidos estratificados na rama espessa das árvores da mata. Cidade que termina abruptamente, caindo no abismo das ladeiras íngremes subindo afogueadas para o infinito das gárgulas obscenas que o sagrado templo mostra irónico aos turistas acidentais. Cidade circular onde, na angústia das ruas, se espelha o labirinto do Ser que ciclicamente regressa sempre ao ponto de partida. Cidade mudada em Penalva, aninhada no cume da montanha e refractária a novas ideias."

 

J M (Reescrito a partir de Estrela Polar)