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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Vergílio Ferreira 23 - (1916)

"Quantos séculos, Velha cidade – mais velha que o tempo, surda aflição das origens, mais velha do que a vida … O sol doura-a de inocência, olho-a com uma angústia sem razão. Erro pelas ruas escuras, torcidas em suspeita, subo ao castelo (que era apenas uma torre quadrangular), raiado de horizontes. Vou até lá, sobretudo, à hora do entardecer, a essa hora solene de augúrio. É uma hora majestosa, o sol desce para trás de uma montanha longínqua. Investe-a de apoteose, ergue sobre a morte um sinal de glória e de pacificação. Penalva fita-o com uma melancolia resignada, quase com ironia. Voltadas a poente algumas vidraças ardem, num raiado fixo e duro. Sobre os telhados mais altos, abre o último clarão da tarde com a irrealidade de uma flor instantânea. Sento-me numa pedra, acendo um cigarro, voltado para o sol.
Passa um vento liso, à face deste inverno, tão limpo tão nu como uma pedra. É um vento filtrado de geadas, que se quebra como vidro às esquinas da rua. (…) a praça agitou-se um pouco com as camionetas da carreira, agora está quase deserta. Debaixo das arcadas, velhos, vadios olham o tempo, escarram para o passeio. É a hora suspensa como uma pedra que sobe, atinge o limite e hesita antes de descer … O ar frisa-se de gumes, a melancolia respira-se numa expectativa de nada, no imóvel instante sem passado nem futuro, numa vaga interrogação. Vagueio ainda pelas ruas, cruzo-me com o vento que me espera às esquinas."

Vergílio Ferreira, Estrela Polar