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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

M. A. Pina

A um Jovem Poeta
 
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

...

(Sabugal, 1943 - Porto, 2012)

Manuel António Pina era reconhecido como um dos melhores cronistas de língua portuguesa

 

A morte e a vida morrem 
e sob a sua eternidade fica 
só a memória do esquecimento de tudo; 
também o silêncio de aquele que fala se calará. 

Quem fala de estas 
coisas e de falar de elas 
foge para o puro esquecimento 
fora da cabeça e de si. 

O que existe falta 
sob a eternidade; 
saber é esquecer, e 
esta é a sabedoria e o esquecimento. 

"Aquele que Quer Morrer"

NA BIBLIOTECA

 

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

 

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

 

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

 

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

 

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’

 

Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, 2011

 

Café do Molhe


Perguntavas-me 
(ou talvez não tenhas sido 
tu, mas só a ti 
naquele tempo eu ouvia) 

porquê a poesia, 
e não outra coisa qualquer: 
a filosofia, o futebol, alguma mulher? 
Eu não sabia 

que a resposta estava 
numa certa estrofe de 
um certo poema de 
Frei Luis de Léon que Poe 

(acho que era Poe) 
conhecia de cor, 
em castelhano e tudo. 
Porém se o soubesse 

de pouco me teria 
então servido, ou de nada. 
Porque estavas inclinada 
de um modo tão perfeito 

sobre a mesa 
e o meu coração batia 
tão infundadamente no teu peito 
sob a tua blusa acesa 

que tudo o que soubesse não o saberia. 
Hoje sei:escrevo 
contra aquilo de que me lembro, 
essa tarde parada, por exemplo. 

 

Manuel António Pina, "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança" (1999) 

Agora É

 

 

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora



Manuel António Pina
Poesia Reunida

Prémio Camões - Manuel A. Pina

O nosso Manuel António Pina é o Prémio Camões deste ano, com unanimidade do júri. Poeta, jornalista e autor de saborosas crónicas, natural do Sabugal, está ligado afectivamente à Guarda que há uns anos lhe prestou homenagem.

 

Completas


A meu favor tenho o teu olhar 
testemunhando por mim 
perante juízes terríveis: 
a morte, os amigos, os inimigos. 

E aqueles que me assaltam 
à noite na solidão do quarto 
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim 
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto. 

Protege-me com ele, com o teu olhar, 
dos demónios da noite e das aflições do dia, 
fala em voz alta, não deixes que adormeça, 
afasta de mim o pecado da infelicidade. 

Manuel António Pina, in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”

A vida real

Se existisses, serias tu,
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.

Atrás de ti haveria
as mesmas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.

Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,

e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.

Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança

O Medo

 

 

Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?

Manuel António Pina

"Nenhum Sítio"