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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Prece

Senhor, sinto-me hoje perdido:

já não há paz, não há sossego,

vivo na inquietude, desiludido

com o homem que só impõe o medo.

 

Do oriente ao ocidente tudo muda,

a fragilidade é nossa companheira,

a rapacidade é comum e pontiaguda,

 a vida é efémera e passageira.

 

Que esperança, então, pode sobreviver

neste universo corrupto em decadência?

O dinheiro, as finanças e o poder

vão destruindo os limites da decência.

 

Resta a esperança de que a chama vinda

das cinzas leves da Fénix imolada

renasça a ordem e mantenha ainda

a hipótese da ressurreição desejada.

 

J M 03.2017

Pilar

candeeiro CA.jpg

(Foto de Carlos Adaixo)

 

Um pilar apagado

sustenta o céu cinzento

entrecortado

por olhos de vento

espreitando

desperto entre nuvens

entrelaçando

os dedos divinos

sistinos

(de Miguel Ângelo).

 

Sentado no banco sombrio

Deus prepara a recriação

de outro Adão

mais humilde e sóbrio.

 

J M 10.03.2017

Medo

Deixei-me levar p’la aventura do medo,

vivi experiências desertas de fugas,

fechei as portas à vida e à morte,

tranquei-me por dentro do desespero.

 

Vigiei pedaços de aventura louca,

corri paixões à espera de lucro,

no fim de tudo não ficou nada

porque a ânsia era desmedida.

 

Gastei pedaços à espera do tempo

mas este fugiu para fora de mim

e na tarde infinita do sábado imenso

encontrei-me só num mundo-penedo.

 

Louvei aos montes a sua grandeza

cantei à vida a grande desgraça,

perdi-me tonto na hora da natureza:

fiquei parado na aventura do medo.

 

J M

30 anos! (2)

O pintor morreu

envolto em rosas de maio,

olhando os meninos do Bairro Negro,

cantando os cravos rubros

de um abril florido.

 

Em Grândola poeta-libertador,

dum povo adormecido,

na longa noite de 33;

em abril soldado em flor

que desabrochou a 24,

numa manhã ingente e fresca

florida em liberdade.

 

Na noite, cantor-maldito

de vampiros e eunucos

cuja voz rompeu os tímpanos

de absurdos assombros:

Peniche, Caxias, Tarrafal.

 

Em Coimbra, amigo do vento

levado do Choupal à Lapa

nas brisas ternas dos sonhos

até aos filhos da madrugada.

 

Em Portugal poeta-músico

cujo machado não corta

a enraizada lembrança

gravada a palavras-fogo

no peito da nossa memória.

 

E se alguém se enganou

com seu olhar modesto

verá correr as águas claras

dos mananciais da música

que guardam perenemente

a timbrada voz universal

de abril-liberdade!

 

J M (23.02.1987)

Promessas

Caminho na luz débil do entardecer

ao longo da praia do teu corpo;

no horizonte ouvem-se a descer

as pregas do teu silêncio. Porto

 

de abrigo, o teu aroma perfumado

rescende à seiva da terra ávida

no pousio de um inverno gelado

preparando o renascer de calma vida.

 

Rebentos, as tuas mãos remetem

às colheitas fartas lá para setembro;

agora, vejo teu perfil estampado

 

no início de nova criação e lembro

as primaveras havidas no passado.

As curvas dos beijos tanto prometem!

 

J M - 19.02.2017

*Desesperança

Essa criança esquelética e nua

que encontramos às vezes por aí,

chama-nos egoístas a mim e a ti

quando nos cruzamos com ela na rua!

 

O rosto ansioso,

a avidez do olhar,

as rugas da face,

a tristeza da pele,

atiram-nos pedidos

em apelos mudos

no sulco profundo

da sua voz sumida.

Suas mãos ósseas

rasgadas nos caixotes

e que no lixo sobrevivem,

levantam-se caladas

numa prece angustiante,

num apelo premente

que os humanos não ouvirão!

 

Criança! Agora apenas criança!

Mais tarde quiçá marginal,

mero mas impressivo sinal:

o mundo é sem-esperança!

 

J M

Rosto

Como gotas de ouro transparente

as lágrimas caem dos meus olhos:

uma após outra e outra ainda.

Em cada uma delas há mil recordações

um rosto e uma saudade!

Caprichosamente juntas formam uma vida

uma desilusão, um amor … perdido.

 

A chuva intensa bate furiosamente nos vidros

e as lágrimas do meu rosário sem fim

caem lenta e silenciosamente

na folha branca da escrita.

 

(De tudo apenas resta

uma mancha indistinta.

 

Do teu rosto também apenas resta

uma mancha na minha imaginação.)

 

J M

(Recuperado do fundo da gaveta)

Aprendiz de feiticeiro

Lancei as palavras ao papel

num sentido horizontal

mas ficou desorganizado

o texto piramidal.

 

A montanha pariu um rato,

as palavras ficaram soltas,

o sentido nem apareceu

nas folhas das árvores revoltas.

 

Acariciei a semântica,

sobraram erros de sintaxe,

das orações confundidas

fugiu inclusive a “praxe”.

 

Já figurinhas de estilo

nem cheirá-las, nem vê-las.

Pobrezinho do escriba!

E sonhava ele estrelas!

 

J M

Teus olhos ...

Há nos teus olhos um mar de ternura

que esparges sobre mim

em cada hora que o dia nos traz;

 

As suas ondas submergem-me

num banho louco de magias e consolações

e as marés, alternando,

enlanguescem-me,

levando-me para mundos irreais,

para sonhos encantadores e magos

onde os teus se irmanam aos meus.

 

Aí, tudo desaba em turbilhões

e voamos por mundos feéricos

de luz e de cor

em aventuras paranoicas

de paixões e desvelos,

amores e devaneios,

impossíveis, inenarráveis.

 

As histórias que os teus olhos me contam!

 

J M

Tempo

tempo.jpg

 

O tempo foge-me inutilmente,

Escoa-se. Escorre. Gasta-se.

 

Deixá-lo …

 

Engana-se, pensando que me leva

na voragem contínua dos instantes!

 

Puro engano!...

 

Sou quem sou.

Vivo cada instante

como se fosse o próximo,

como se fosse o último.

 

Mas … o tempo é todo meu.

 

J M