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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Se ...

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Se eu já não estiver amanhã

O mundo continuará a girar,

Os dias seguirão iguais

E talvez alguém se alegre!

 

Mas isso que importa?

A manhã baterá à tua porta;

 Os rios correrão para o mar;

Haverá alegrias ou tristezas

Súplicas, lágrimas e rezas;

As aves levantar-se-ão a cantar;

O tempo beberá das mesmas fontes

E o fogo devorará ainda os montes, …

 

Se eu já não estiver cá amanhã,

Simplesmente não farei falta:

terei cumprido o meu destino!

 

J M 15.11.2017

Meu país ...

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Meu país vestido de negro e vermelho,

Quem te destrói assim indecentemente?

Quem devora tua riqueza natural?

 

Quem arde teu Interior tão velho?

Quem diz que ajuda mas só mente?

Quem lucra com a morte, afinal?

 

Quem queima os nossos corpos?

Quem devora a simples alma?

Quem é o coveiro da esperança?

 

Ficamos amargos, feios e tortos

Foge-nos aos poucos a calma

E roubam-nos a paterna herança!

 

Meu país de luto e dor,

Viraste, acaso, país de rancor?

 

J M - 16.10.2017

Memórias

mae.jpg

 

Estás connosco cada dia:
no sorriso peculiar
nas flores que tratavas
com carinho 
(e que ainda lá estão)
na expressão atenta
da vida em alegria;

na defesa do teu lar
nas carícias que "espelhavas"
no teu querido "ninho"
no centro do coração
na palavra sempre isenta:
no ser que em ti vivia!

J M

(Difíceis as palavras para recordar a partida!)

08.10.2017

Lugares

prados.jpg

 

Regresso devagar aos lugares da minha infância

Lentamente para poder saborear

Os aromas, as brincadeiras, a abundância

De carinhos, as paixões e o luar!

 

J M

Diária

Há perfumes matutinos

no ar fresco da manhã

há chilreios e há trinos

na voz dos passarinhos

bela, alegre e louçã.

 

Traz gravada, lá no fundo,

a beleza de dias de primavera,

os sonhos de um sono profundo

com alguns desejos imersos

no começo de uma nova era.

Caducidade

torre de menagem - Carlos Adaixo.jpg

 

Está serena a tarde:

desprendem-se-lhe frias

as palavras

que se acomodam

nos lábios simpáticos

do vento nordeste.

 

Lá para o alto, no castelo,

luzem ainda os raios preguiçosos

da lua nascente,

mas breve virá o gélido nevoeiro

e destruirá a lucidez da incipiente noite .

 

E as palavras, afinal, dirão apenas

aquilo que o ouvinte distraído

com o ecrã cintilante

do sedutor telemóvel,

o deixar perceber: as palavras humilhadas

fugirão com o gélido nevoeiro

na ignorância imposta

pelas novas seduções.

 

J M – 2.1.2017

Lendo Cesário

Ela passa "aromática e normal"

diz Cesário em "Deslumbramentos":

só pode ser ela, a magnífica, a tal

que traz ao poeta milhares de tormentos!

 

Ela é a cidade destruidora

que obsidia o poeta e o prende

mas é também a dominadora

a quem masoquisticamente se rende!

 

E lá está ainda o café devasso

e a actriz em ligeiros pés de cabra

por detrás de um vidro ténue e baço

à espera que a porta se lhe abra.

 

JM

Outono

Chegou:

Via-se nas gotículas do nevoeiro,

- finas farpas ferindo a pele

com o frio matinal;

também o vento, sorrateiro,

sacudia algumas folhas cor de mel

que tombavam no chão, afinal;

mesmo os teus olhos afanosos

que faiscavam nos outros dias

hoje estavam incertos.

 

Ah! outono dos saudosos!

voltaste com tuas fantasias

sonhadas de olhos abertos!

 

J M 22.09.2016