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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

O Juramento do Árabe

Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas,

viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas,
Vail, chefe minaz de bárbara pujança,
matar-lhe um animal. Baçus jurou vingança;
corre, célere voa, entra na tenda e conta
a um hóspede de Ali a grave e inulta afronta.
- "Baçus!" - disse, tranquilo, o hóspede gentil -
"Vingar-te-ei com meu braço: eu matarei Vail".
Disse e cumpriu.

Foi esta a causa verdadeira
da guerra pertinaz, horrível, carniceira,
que as tribos dividiu. Na luta fratricida,
Omar, filho de Anru, perdera o alento e a vida.
Anru, que lanças mil aos rudes prélios leva
e que em sangue inimigo, irado, os ódios ceva,
incansável procura, e é sempre embalde, o vil
matador de seu filho, o tredo Mualhil.
Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
recém-colhido em campo, o indómito guerreiro
falou severo assim:
- "Escravo, atende e escuta:
Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta
em que vive o traidor Mualhil; dize a verdade;
dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!"
E o moço perguntou:
- "É por Alá que o juras?"
- "Juro!" - o chefe tornou.
- "Sou o homem que procuras!
Mualhil é o meu nome: eu fui que despedacei
a lança de teu filho e aos pés o subjuguei!"
E, intrépido, fitava o atónito inimigo.
Anru volveu:
- "És livre! Alá seja contigo!"
 
Gonçalves Crespo 

Alguém

 

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos, 
E tenho as formas ideais de Cristo; 
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos, 
E, se na Terra existe, é porque existo. 

Esse alguém, que prefere ao namorado 
Cantar das aves minha rude voz, 
Não és tu, anjo meu idolatrado! 
Nem, meus amigos, é nenhum de vós! 

Quando, alta noite, me reclino e deito, 
Melancólico, triste e fatigado, 
Esse alguém abre as asas no meu leito, 
E o meu sono desliza perfumado. 

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora 
Por mim além dos mares! esse alguém 
É de meus olhos a esplendente aurora; 
És tu, doce velhinha, ó minha mãe! 

Gonçalves Crespo, in 'Miniaturas'