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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Alguém

 

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos, 
E tenho as formas ideais de Cristo; 
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos, 
E, se na Terra existe, é porque existo. 

Esse alguém, que prefere ao namorado 
Cantar das aves minha rude voz, 
Não és tu, anjo meu idolatrado! 
Nem, meus amigos, é nenhum de vós! 

Quando, alta noite, me reclino e deito, 
Melancólico, triste e fatigado, 
Esse alguém abre as asas no meu leito, 
E o meu sono desliza perfumado. 

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora 
Por mim além dos mares! esse alguém 
É de meus olhos a esplendente aurora; 
És tu, doce velhinha, ó minha mãe! 

Gonçalves Crespo, in 'Miniaturas'