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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

A poesia quer-se a horas decentes

                                                  para o Luís Filipe Cristóvão

 

Éramos os últimos

no café quando decidimos

regressar.

 

Os nossos passos — trocados

pela hora a mais que a lei do tempo

impõe — percorreram as ruas

desertas, onde a qualquer momento

esperei ver um coiote

atravessar-se no caminho,

não perguntes porquê.

 

No hotel entrámos a rir,

a falar alto.

 

Evocávamos sem saber

as ninfas desse rio Tago

cujo nome soa melhor

em português.

 

Até que alguém apareceu

e pediu silêncio.

 

Por qualquer motivo tínhamos esquecido

que a poesia quer-se

a horas decentes.

 

manuel a. domingos, em Sulscrito, Revista de Literatura, nº 2, Faro: ARCA – Associação Recreativa e Cultural do Algarve, 2008, p. 12.