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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Já não ...

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

 

Mas por onde eu caminhe levarei o teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

 

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.

 

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
Do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

 

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

 

…Desde teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

 

Pablo Neruda.

Se ...

se ....jpg

 

Se eu já não estiver amanhã

O mundo continuará a girar,

Os dias seguirão iguais

E talvez alguém se alegre!

 

Mas isso que importa?

A manhã baterá à tua porta;

 Os rios correrão para o mar;

Haverá alegrias ou tristezas

Súplicas, lágrimas e rezas;

As aves levantar-se-ão a cantar;

O tempo beberá das mesmas fontes

E o fogo devorará ainda os montes, …

 

Se eu já não estiver cá amanhã,

Simplesmente não farei falta:

terei cumprido o meu destino!

 

J M 15.11.2017

...

carpe diem.jpg

 

 
 

Amamos em cada dia de maneira diferente,

pois cada dia é desigual do anterior.

 

Assim, como podemos amar sempre o mesmo

se ele muda continuamente?

 

O amor, em si, é versátil :

muda na hora em que vivemos

o presente eterno.

 

Amamos cada dia de maneira diferente

porque o ontem dissipou-se

e o amanhã ainda lá vem subindo devagar

a escada multiforme do tempo.

 

"Colhe o momento" e terás a ventura

de viver cada instante o que ele dura.

 

JM 2011

Vida

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Do que a vida é capaz! 
A força dum alento verdadeiro! 
O que um dedal de seiva faz 
A rasgar o seu negro cativeiro ! 

Ser! 
Parece uma renúncia que ali vai, 
— E é um carvalho a nascer 
Da bolota que cai! 

Miguel Torga

O ferro-velho

 

Sempre de manhã,
com chuva o com sol,
mesmo com frio ou nevoeiro,
de ruela em ruela,
ouvíamos gritar:
"Mulheres, chegou o ferro-velho!"

Todas as manhãs
te víamos chegar...
com um grande saco as costas,
um charuto apagado,
o fato esfarrapado,
a boina e as alpargatas.

E sempre, sempre seguido
pela canalha miúda.
Eras a grande atracção.
Tu, o teu saco e a canção.

Sou o ferro-velho,
compro garrafas, papéis,
compro trapos, roupa usada,
guarda-chuvas, móveis velhos...

Sou o ferro-velho,
os miúdos gritam e cantam.
"Mau, já começo a chatear-me.
Não lhes disse a vossa mãe
que eu sou o homem do saco?"


E até à noite assim,
de ruela em ruela,
e de taverna em taverna.
Com os teus papéis
encharcado em vinho,
voltarás à tua casa.

E voltas feliz,
porque todo compraste:
o peixe, o vinho, uma vela.
E o pouco de amor
que te deve ter dado
qualquer rameira velha.

Sem tempo para pensar.
Toca a dormir. Sopra a vela.
E amanhã pelo mundo girar
tu, teu saco e a canção..

 

Alexandre O'Neil

 

https://www.youtube.com/watch?v=5X1AD4cQa9w

 

A invasão

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Deixei a saudade invadir-me as ruas.

 

Havia vento forte e as rajadas

Traziam com elas gotas de amor

Arrebatadas

Às tranças de uma tempestade

Cujos sentimentos eram o espelho da dor

Da sonolenta e ávida cidade.

 

Caminhei sem destino

Pelas veredas da emoção

E perdido nos meandros do coração

Dei por mim lacrimejando, o destino

Foi madrasto e arrebatou-me

Aquela doce sensação

De te amar. Secou-me!

 

A chuva fria e arrepiante

Destes outonos conturbados

Pôs-me a realidade diante

Dos olhos e marejados

 Impediram-me a visão

Dessa rua invadida pela saudade.

 

Caminharei só em plena cidade?

A quem “cantarei de amor tão docemente”?

 

Abandono a tua imagem à minha mente

E esperarei lutando com tenacidade …

 

20.10.2014

J M

Meu país ...

panoias.jpg

Meu país vestido de negro e vermelho,

Quem te destrói assim indecentemente?

Quem devora tua riqueza natural?

 

Quem arde teu Interior tão velho?

Quem diz que ajuda mas só mente?

Quem lucra com a morte, afinal?

 

Quem queima os nossos corpos?

Quem devora a simples alma?

Quem é o coveiro da esperança?

 

Ficamos amargos, feios e tortos

Foge-nos aos poucos a calma

E roubam-nos a paterna herança!

 

Meu país de luto e dor,

Viraste, acaso, país de rancor?

 

J M - 16.10.2017

...

outono.jpg

 

 

Mas que sei eu das folhas no outono 
ao vento vorazmente arremessadas 
quando eu passo pelas madrugadas 
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono 
e acabam coisas mal principiadas 
no ínvio precipício das geadas 
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta 
a dor de assim passar que me atormenta 
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs? 
As coisas vêm vão e são tão vãs 
como este olhar que ignoro que me olha.

Ruy Belo