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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

A ti, mulher!

Onde estou, espero por ti e amo-te. Olho para ti, e o meu olhar
beija-te. Canto, e é a ti que canto. O destino costuma sorrir-me
com assombro, agora com um recado: aquele que mais ama é sempre mais feliz. Entretanto, sinto que o meu corpo, que tem a idade do mundo, comemora também a alegria da descoberta do fogo. E isso diz-me que, provavelmente, já te amo desde o tem-
po em que as estrelas ainda não repetiam o teu nome.

*

Joaquim Pessoa, in "Ano Comum".

Medo

Deixei-me levar p’la aventura do medo,

vivi experiências desertas de fugas,

fechei as portas à vida e à morte,

tranquei-me por dentro do desespero.

 

Vigiei pedaços de aventura louca,

corri paixões à espera de lucro,

no fim de tudo não ficou nada

porque a ânsia era desmedida.

 

Gastei pedaços à espera do tempo

mas este fugiu para fora de mim

e na tarde infinita do sábado imenso

encontrei-me só num mundo-penedo.

 

Louvei aos montes a sua grandeza

cantei à vida a grande desgraça,

perdi-me tonto na hora da natureza:

fiquei parado na aventura do medo.

 

J M

30 anos! (2)

O pintor morreu

envolto em rosas de maio,

olhando os meninos do Bairro Negro,

cantando os cravos rubros

de um abril florido.

 

Em Grândola poeta-libertador,

dum povo adormecido,

na longa noite de 33;

em abril soldado em flor

que desabrochou a 24,

numa manhã ingente e fresca

florida em liberdade.

 

Na noite, cantor-maldito

de vampiros e eunucos

cuja voz rompeu os tímpanos

de absurdos assombros:

Peniche, Caxias, Tarrafal.

 

Em Coimbra, amigo do vento

levado do Choupal à Lapa

nas brisas ternas dos sonhos

até aos filhos da madrugada.

 

Em Portugal poeta-músico

cujo machado não corta

a enraizada lembrança

gravada a palavras-fogo

no peito da nossa memória.

 

E se alguém se enganou

com seu olhar modesto

verá correr as águas claras

dos mananciais da música

que guardam perenemente

a timbrada voz universal

de abril-liberdade!

 

J M (23.02.1987)

Promessas

Caminho na luz débil do entardecer

ao longo da praia do teu corpo;

no horizonte ouvem-se a descer

as pregas do teu silêncio. Porto

 

de abrigo, o teu aroma perfumado

rescende à seiva da terra ávida

no pousio de um inverno gelado

preparando o renascer de calma vida.

 

Rebentos, as tuas mãos remetem

às colheitas fartas lá para setembro;

agora, vejo teu perfil estampado

 

no início de nova criação e lembro

as primaveras havidas no passado.

As curvas dos beijos tanto prometem!

 

J M - 19.02.2017

GOETHE 1

“Na verdade, de dia para dia vou notando, meu caro, como se é insensato ao avaliar os outros por nós próprios. E porque já tenho bastante trabalho comigo mesmo e este coração é turbulento que chegue – oh! de bom grado deixo os outros seguirem o seu caminho, assim me deixassem também seguir o meu.”

J W Goethe, A paixão do jovem Werther, Bertrand

GOETHE

“Que bom é o meu coração ser capaz de sentir o prazer simples e inocente do homem que traz para a mesa a couve que ele próprio cultivou. Mas não é só a couve; ele é capaz de voltar a gozar, num único momento, os dias, a bela manhã em que a semeou, as tardes amenas em que a regou e se comprazia em vê-la ir crescendo sempre.”

 

J W Göthe, A paixão do jovem Werther, Bertrand

A Nossa Maior Crueldade é o Tempo

A nossa maior crueldade é o tempo. Como um fabricante de armadilhas desajeitado que acaba sempre prisioneiro das engrenagens que produz, também nós inventamos o tempo e nunca temos tempo. Os nossos relógios nunca dormem. Quantas vezes o tempo é a nossa desculpa para desinvestir da vida, para perpetuar o desencontro que mantemos com ela? Como não temos diante de nós os séculos, renunciamos à audácia de viver plenamente o breve instante. A imagem de crono, devorando aquilo que gera, obsidia-nos. O tempo consome-nos sem nos encaminhar verdadeiramente para a consumação da promessa. Nesse sentido, o consumo desenfreado não é outra coisa que uma bolsa de compensações. As coisas que se adquirem são naquele momento, obviamente, mais do que coisas: são promessas que nos acenam, são protestos impotentes por uma existência que não nos satisfaz, são ficções do nosso teatro interno, são uma corrida contra o tempo. A verdade é que precisamos reconciliar-nos com o tempo. Não nos basta um conceito de tempo linear, ininterrupto, mecanizado, puramente histórico. O continuum homogéneo do tempo que a teoria do progresso desenha não conhece a rutura trazida pela novidade surpreendente. E a redenção é essa novidade. Precisamos identificar uma dupla significação no instante presente. O presente pode ser uma passagem horizontal, quantitativa, na perspetiva de uma realização entre este instante e o que lhe sucede. Mas o presente tem também um sentido vertical que requalifica o tempo, abrindo-o à eternidade. É o tempo qualitativo, epifânico.

José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'

A poesia quer-se a horas decentes

                                                  para o Luís Filipe Cristóvão

 

Éramos os últimos

no café quando decidimos

regressar.

 

Os nossos passos — trocados

pela hora a mais que a lei do tempo

impõe — percorreram as ruas

desertas, onde a qualquer momento

esperei ver um coiote

atravessar-se no caminho,

não perguntes porquê.

 

No hotel entrámos a rir,

a falar alto.

 

Evocávamos sem saber

as ninfas desse rio Tago

cujo nome soa melhor

em português.

 

Até que alguém apareceu

e pediu silêncio.

 

Por qualquer motivo tínhamos esquecido

que a poesia quer-se

a horas decentes.

 

manuel a. domingos, em Sulscrito, Revista de Literatura, nº 2, Faro: ARCA – Associação Recreativa e Cultural do Algarve, 2008, p. 12.