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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Dança do vento

dança do vento.jpg

 

O vento é bom bailador
baila, baila e assobia,
Baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz ás flores bailando: 
-Bailai comigo bailai!
E elas, curvadas, arfando
começam, débeis, bailando,
e as suas folhas tombando
uma se esfolha, outra cai
e o vento as deixa, abalando
-e lá vai!..

O vento é bom bailador, 
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor

E diz ás altas ramadas: 
-Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas,
bailam no ar desgrenhadas,
bailam com ele assustadas,
já cansadas, suspirando,
e o vento as deixa, abalando
-e lá vai!...

O vento é bom bailador, 
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz ás folhas caídas: 
-Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
as folhas, por ele ereguidas,
pobres velhas ressequidas
e pendidas como um ai,
bailam, doidas chorando,
e o vento as deixa, abalando,
-e lá  vai! ...

O vento é bom bailador, 
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz ás ondas que rolam: 
-bailai comigo bailai!
E as ondas no ar se empolam,
em seus braços nus o enrolam,
e batalham,
e os seus cabelos se espalham
nas mãos do vento, flutuando,
e o vento as deixa, abalando
-e lá vai!..

O vento é bom bailador, 
baila, baila e assobia,
baila, baila e redopia
e tudo baila em redor!

E diz á chuva caindo: 
-bailai comigo bailai!
E ao de ela seu corpo unindo,
beija-a na boca, sentindo
que ela o abraça sorrindo
e desmaia, volteando,
e já verga ao beijo, e cai,
e o vento a deixa, abalando
-e lá se vai!..
 
Afonso Lopes Vieira

AutoCrítica - Alexandre O'Neill

 
Cesário diz-me muito:gostava de ferramentas,como eu,
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar,originais e exactos,os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza,mas da perfeita
adequação.
Não tem halo,tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.

(Que feliz eu seria,ó prima,se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre,embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele(ai de mim,coitadinho!)

(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima,um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto,a prima inclusive!)

Muito querido Pessoa,saberias agora
que não basta ser lúcido,merda,que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!

Feira Cabisbaixa(1965)
 

38_ Alexandre O'Neill.JPG

 

Ao Longe os Barcos de Flores - Camilo Pessanha

(A Ovídio de Alpoim)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...
 
Camilo Pessanha

Três Rosas - Eugénio de Castro

3 rosas.jpg

 

Sempre, mas sobretudo nas brumosas 
Horas da tarde, quando acaba o dia, 
Quando se estrela o céu, tenho a mania 
De descobrir, de ver almas nas cousas. 

Pendem deste gomil três lindas rosas; 
Uma é rosada, a outra branca e fria, 
Rubra a terceira; e a minha fantasia 
Torna-as humanas, vivas, amorosas. 

Sei que são rosas, rosas só! mas nada 
Impede, enquanto cai lá fora a chuva, 
Que a minha mente a fantasiar se ponha: 

Por ser noiva a primeira, é que é rosada; 
Branca a segunda está, por ser viúva; 
A vermelha pecou ... e tem vergonha! 

Eugénio de Castro, in 'Antologia Poética' 

O Juramento do Árabe

Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas,

viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas,
Vail, chefe minaz de bárbara pujança,
matar-lhe um animal. Baçus jurou vingança;
corre, célere voa, entra na tenda e conta
a um hóspede de Ali a grave e inulta afronta.
- "Baçus!" - disse, tranquilo, o hóspede gentil -
"Vingar-te-ei com meu braço: eu matarei Vail".
Disse e cumpriu.

Foi esta a causa verdadeira
da guerra pertinaz, horrível, carniceira,
que as tribos dividiu. Na luta fratricida,
Omar, filho de Anru, perdera o alento e a vida.
Anru, que lanças mil aos rudes prélios leva
e que em sangue inimigo, irado, os ódios ceva,
incansável procura, e é sempre embalde, o vil
matador de seu filho, o tredo Mualhil.
Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
recém-colhido em campo, o indómito guerreiro
falou severo assim:
- "Escravo, atende e escuta:
Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta
em que vive o traidor Mualhil; dize a verdade;
dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!"
E o moço perguntou:
- "É por Alá que o juras?"
- "Juro!" - o chefe tornou.
- "Sou o homem que procuras!
Mualhil é o meu nome: eu fui que despedacei
a lança de teu filho e aos pés o subjuguei!"
E, intrépido, fitava o atónito inimigo.
Anru volveu:
- "És livre! Alá seja contigo!"
 
Gonçalves Crespo 

Alguém

 

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos, 
E tenho as formas ideais de Cristo; 
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos, 
E, se na Terra existe, é porque existo. 

Esse alguém, que prefere ao namorado 
Cantar das aves minha rude voz, 
Não és tu, anjo meu idolatrado! 
Nem, meus amigos, é nenhum de vós! 

Quando, alta noite, me reclino e deito, 
Melancólico, triste e fatigado, 
Esse alguém abre as asas no meu leito, 
E o meu sono desliza perfumado. 

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora 
Por mim além dos mares! esse alguém 
É de meus olhos a esplendente aurora; 
És tu, doce velhinha, ó minha mãe! 

Gonçalves Crespo, in 'Miniaturas'