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Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Ar da Guarda

"Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino." Miguel Torga

Herberto Helder . 1930 - 2015

 

 

 

 

queria fechar-se inteiro num poema

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima


“A morte sem mestre”

 

 

Bom e Expressivo

Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: — Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra...
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...

Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'

Dia Mundial da Poesia.

No próximo dia 21 Março, a propósito do "dia mundial da poesia", o Teatro do Calafrio vai realizar mais uma sessão do ciclo Contradizer. Desta vez no anfiteatro ao ar livre da Quinta do Alarcão, junto à Biblioteca da Guarda. A sessão vai chamar-se "A poesia vai acabar", que é o título de um poema de Manuel António Pina.

O Teatro do Calafrio convidou o professor José Manuel Mota da Romana a fazer uma breve intervenção inicial a propósito daquele poema. Segue-se uma sessão com poemas escolhidos e lidos por convidados e espontâneos. Cada interveniente lerá dois poemas da sua autoria ou de um poeta por si escolhido

Estão previstas as participações de Daniel Rocha (escritor e professor), Jos Van den Hoogen (pintor e linguista), Fátima Freitas (professora), Mário Martins (dirigente associativo- agricultura e ambiente), Américo Rodrigues (poeta e encenador), Ana Dinis (actriz), Zoe Barth (estudante), Fernando Carvalho Rodrigues (cientista), Armando Neves (maquinista de cinema), António Godinho (advogado e poeta), Dario Monteiro Rodrigues (bancário reformado), Madalena Ferreira (jornalista), António José Dias de Almeida (professor aposentado), José Monteiro (professor e poeta), Pedro Dias de Almeida (jornalista e poeta), Aires Dinis (historiador), Rui Carvalhinho (técnico de farmácia) e Ema Mateus (educadora de infância), entre muitos outros.

Trata-se de uma iniciativa do Teatro do Calafrio com a colaboração (cedência de espaço) da Câmara Municipal da Guarda/Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço.

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Dia de saudade. Dia de memória.
Hoje seria o centenário. Não, hoje é o teu centenário.
Estás connosco pelo que nos deixaste em herança. O saber de experiências feito. A educação que não te deixaram acabar, mas que nunca descuraste ao longo da vida. O exemplo. Este foi tudo porque é o que nos distingue como teus filhos.
Amaste a terra que chamaste tua e que trabalhaste com esperança. Tu deste-lhe vida e ela recompensou-te com belas colheitas. Trabalhaste com esforço. Arduamente.
Depois, um dia a saúde traiu-te. O esforço tinha sido demasiado. O corpo negou-se a viver mais. Deixaste-nos e a saudade plantou-se-nos na alma. E enraizou e continua a produzir frutos. Em nós, nos teus netos. Na sociedade.
É Março. Parece Primavera. A natureza renasce em pujança.
A saudade mora cá bem dentro da nossa alma. E tu permaneces na memória agradecida.
O dia é teu. Ainda.

J M – 08-03-2015